MRS destrói patrimônios públicos em Belo Vale

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Um viaduto centenário sob passagem férrea, situado em Belo Vale, Zona Central de Minas, a 83 km ao Sul de Belo Horizonte foi destruído pela MRS- Logística S.A.  A empresa foi criada em 1996, para atender a concessão da União e utilizar os serviços públicos da malha ferroviária da Linha Central, antes sob o domínio da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), dissolvida em 1999.  Engenheiros responsáveis pela desconstrução do viaduto justificam que sua estrutura é antiga, e com o aumento de tráfego de carga de minerais, põe em risco suas composições. Os trilhos sob a gestão da concessionária, com extensão de 1.643 quilômetros transportam 1/3 da produção nacional de Minério para cinco portos dos litorais carioca e paulista. Os maiores acionistas da MRS-Logística S A são empresas mineradoras: CSN, Congonhas Minérios, Gerdau, VALE e MBR.

Patrimônio foi destruído sem consulta a população/Divulgação

A obra do viaduto é identificada na placa pelo nome: “Substituição de obra de arte especial na malha ferroviária da MRS, KM 530 + 740, em Belo Vale/MG”. Como o próprio nome diz “obra de arte especial”, deveria ter um tratamento respeitoso na elaboração do projeto, pela importância que o patrimônio representa na paisagem e identidade da cultural local. A linha ao longo do Rio Paraopeba foi iniciada em 1910, em Joaquim Murtinho e concluída em 1917, quando chegou a Belo Horizonte. Trata-se de um patrimônio nacional, que incentivou o crescimento de dezenas de cidades no seu curso, fazendo história, economia e proporcionando relações afetivas dos povos das comunidades, com os belíssimos patrimônios ferroviários, muitos destruídos.

A MRS- LOGISTICA S.A representa a União para cuidar de serviços públicos, e deve conservar os bens patrimoniais sob sua responsabilidade, valorizando-os e contribuindo para com a cultura e a história da ferrovia. Segundo a MRS, as intervenções no trecho ferroviário, como essa do viaduto em Belo Vale, têm seus projetos aprovados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), órgão fiscalizador. Espera-se, um olhar mais atento de um órgão dessa natureza, que cobre projetos eficientes para o restauro, e que garantam a integridade do viaduto, e de outros patrimônios. Há técnicas modernas de sustentação que podem ser agregadas na recuperação das antigas construções.

A concessionária também não fez uma consulta pública; nem mesmo um diagnóstico com a comunidade para elaborar o projeto e identificar possíveis impactos. “A MRS não pode ser soberana, nós não sabemos o que está acontecendo aqui”; disse uma senhora que não quis se identificar. É fundamental que os órgãos responsáveis pela cultura em Minas, investiguem as ações dessa empresa que vem desconstruindo o pouco que nos restou das ferrovias. Os Conselhos Municipais de Cultura e Câmaras Municipais devem exercer suas funções e serem atuantes nessas intervenções. Somente no trecho de Belo Vale, há vários patrimônios depredados: a Estação de Arrojado Lisboa está no chão, a eclética caixa d’água foi demolida. A proposta da empresa poderá atingir, também, as importantes ruínas da Chacrinha dos Pretos, comunidade tradicional formada no século XVIII.

Pensar juntos, comunicar e participar são ingredientes saudáveis para a construção da cidadania! Sinto pela perda de mais um elemento histórico e representativo de nossa cidade. Esse tipo de monumento é atrativo, caracteriza o paisagismo e constitui em elemento que diferencia o estilo arquitetônico de cidades históricas.

Tarcísio Martins, jornalista, ambientalista, membro da Associação do Patrimônio Histórico, Artístico e Ambiental de Belo Vale (APHAA-BV) – (31) 991105025