O mapa das emendas parlamentares em Minas Gerais expõe um abismo entre o peso das urnas e a distribuição do orçamento estadual. As dez cidades que menos receberam verbas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) em 2025 somam, juntas, R$ 951 mil. O valor não atinge, sequer, 0,1% dos R$ 2,17 bilhões distribuídos no Estado, representando uma fração de 0,043% do total.
O cruzamento de dados realizado por O Fator, com base no Portal de Emendas do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) e no site da ALMG, revela, ainda, um cenário de distorção entre voto e urna: em 80% dos casos, os dois deputados mais votados nesses municípios não enviaram um centavo de emenda individual para suas bases. E 60% das cidades foram ignoradas tanto pelo primeiro colocado quanto pelo segundo.
Dos 20 parlamentares que ocupam o primeiro e o segundo lugar em votos nessas dez localidades, apenas quatro retribuíram a confiança com recursos. Em contrapartida, deputados sem expressão em alguns municípios os abasteceram com verba.
Segundo interlocutores, o envio de aportes para cidades onde o deputado não tem votação expressiva reflete uma tentativa de “conquista de território” para as próximas eleições. Por outro lado, deputados majoritários na cidade que não indicaram recursos podem ter encaminhado verba por meio do deputado federal parceiro, valores que não foram analisados no levantamento.
Bases sem voto
O fenômeno da “base sem voto” fica evidente em Ijaci (Sul de Minas), onde os líderes de votos Doorgal Andrada (PRD) e Bruno Engler (PL) não indicaram recursos, e o único aporte de R$ 100 mil veio de Vitório Júnior (PP), que não teve votos na cidade.
Em Congonhas (Região Central), Bruno Engler (PL) liderou com 1.500 votos e Leleco Pimentel (PT) foi o segundo colocado, com 1.044, mas o único repasse registrado, de R$ 6,1 mil, foi realizado por Coronel Henrique (PL), que obteve 46 votos na cidade.
O silêncio das lideranças também marca São Gonçalo do Rio Abaixo (Região Central), onde Thiago Cota (PDT), com 1.993 votos, e Tito Torres (PSD), com 1.106, ignoraram a base, restando ao município os R$ 100 mil enviados por Mário Henrique Caixa (PV), que teve 37 votos na cidade.
Em Capitão Enéas (Norte), Arlen Santiago (Avante) e Tadeu Martins (MDB) lideraram a preferência, mas os R$ 57 mil foram indicados pela terceira colocada, Leninha (PT).
Já em Martins Soares (Zona da Mata), Cássio Soares (PSD), líder do Bloco de Governo e primeiro colocado com 38,26%, e João Magalhães (MDB), líder do governo Zema na Assembleia e segundo colocado, não enviaram emendas, deixando a cidade dependente de R$ 100 mil encaminhadas pelo Bloco Democracia e Luta, de oposição.
O cenário de pulverização é visível em Curral de Dentro (Norte), onde os mais votados Leonídio Bouças (PSDB) e Neilando Pimenta (PSB) não indicaram recursos. Os R$ 158 mil foram enviados à cidade por Dr. Jean Freire (PT), que encaminhou R$ 100 mil, além de repasses menores do Bloco Democracia e Luta (R$ 30 mil), Leninha (PT) (R$ 14 mil) e Leleco Pimentel (PT) (R$ 14 mil).
Casamento entre urna e caixa
A exceção à regra de abandono aparece em redutos onde a fidelidade resiste. Em Rio Casca (Zona da Mata), Adriano Alvarenga (PP) domina 70,65% do eleitorado e enviou R$ 100 mil.
Em Itacambira (Norte), Arlen Santiago (Avante), líder com 39,67% dos votos, destinou R$ 180 mil. O parlamentar também garantiu a maior parte dos recursos em Cristália (Norte), com R$ 83,9 mil, complementados por R$ 3 mil de Leninha (PT).
Já em Claro dos Poções (Norte), embora o líder Tadeu Leite (MDB) não tenha enviado verbas, o segundo colocado Arlen Santiago (Avante) garantiu R$ 60 mil para o município.
Raio X das emendas
10 municípios que menos receberam recursos em 2025 – repasses e mais votados
- Congonhas – R$ 6,1 mil – Repasse de Coronel Henrique (PL)
Bruno Engler (PL) – 1.500 votos – 5,36% dos votos válidos
Leleo Pimentel (PT) – 1.044 votos – 3,73% dos votos válidos - Capitão Enéas – R$ 57 mil – Repasse de Leninha (PT)
Arlen Santiago (Avante) – 1.761 votos – 20,59% dos votos válidos
Tadeu Martins (MDB) – 1.516 votos – 17,72% dos votos válidos - Claro dos Poções – R$ 60 mil – Repasse de Arlen Santiago (Avante)
Tadeu Leite (MDB) – 1.417 votos – 26,05% dos votos válidos
Arlen Santiago (Avante) – 1.281 votos – 23,55% dos votos válidos - Cristália – R$ 86,9 mil – Repasses de Arlen Santiago (Avante) – R$ 83,953 mil e Leninha (PT) – R$ 3 mil
Arlen Santiago (Avante) – 1.091 votos – 31,72% dos votos válidos
Tadeu Martins (MDB) – 1.075 votos – 31,25% dos votos válidos - São Gonçalo do Rio Abaixo – R$ 100 mil de emendas – Repasse de Mário Henrique Caixa (PV)
Thiago Cota – 1.993 votos – 25,65% dos votos válidos
Tito Torres – 1.106 votos – 14,23% dos votos válidos - Ijaci – R$ 100 mil de emendas – Repasse de Vitório Júnior
Doorgal Andrada (PRB) – 198 votos – 5,25% dos votos válidos
Bruno Engler (PL) – 193 votos – 5,12% dos votos válidos - Rio Casca – R$ 100 mil – Repasse de Adriano Alvarenga (PP)
Adriano Alvarenga (PP) – 5.306 votos – 70,65% dos votos válidos
João Magalhães – 395 votos – 5,26% dos votos válidos - Martins Soares – R$ 100 mil – Repasse de Bloco Democracia e Luta
Cássio Soares (PSD) – 2.154 votos – 38,26% dos votos válidos
João Magalhães (MDB) – 778 votos – 13,82% dos votos válidos - Curral de Dentro – R$ 158 mil – Repasses de Dr. Jean Freire (R$100 mil), Bloco Democracia e Luta (R$ 30, mil), Leninha (R$ 14 mil) e Leleco (R$ 14 mil)
Leonídio Bouças – 540 votos – 12,12% dos votos válidos
Neilando Pimenta – 362 votos – 8,12% dos votos válidos - Itacambira – R$ 180 mil – Repasse de Arlen Santiago (Avante)
Arlen Santiago (Avante) – 1.325 votos – 39,67% dos votos válidos
Leninha (PT) – 635 votos – 19,01% dos votos válidos



