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Segundo o IPS Brasil, municípios que recebem milhões em royalties do petróleo seguem entre os piores do país em saneamento, educação e qualidade de vida

Segundo o IPS Brasil, municípios que recebem milhões em royalties do petróleo seguem com baixos índices de saneamento, educação e qualidade de vida, revelando um paradoxo social no país.

Durante décadas, os royalties do petróleo foram apresentados como uma espécie de passaporte para o desenvolvimento local. A lógica parecia simples: municípios que recebem milhões de reais todos os anos pela exploração de petróleo e gás teriam recursos suficientes para investir em saneamento, educação, saúde e infraestrutura básica. No entanto, os dados mais recentes do Índice de Progresso Social (IPS Brasil) mostram que essa promessa falhou em diversos casos concretos.

Mesmo com receitas elevadas vindas do petróleo, alguns municípios continuam ocupando posições extremamente baixas nos rankings de qualidade de vida, revelando um paradoxo incômodo: dinheiro entra, mas o progresso social não acompanha.

O que é o IPS Brasil e por que ele importa

IPS Brasil é um dos indicadores mais completos para medir qualidade de vida no país porque não se baseia em renda ou PIB, mas sim em resultados reais para a população. O índice avalia três grandes dimensões: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades.

Isso inclui acesso a água potável, saneamento, moradia adequada, educação básica, saúde, segurança, inclusão social e direitos individuais. Em outras palavras, o IPS mede como as pessoas vivem, e não quanto dinheiro circula na economia local.

Quando municípios ricos em royalties aparecem entre os piores colocados no IPS, o dado é especialmente revelador.

Royalties altos, indicadores sociais baixos

O Brasil possui dezenas de municípios que recebem valores milionários ou até bilionários em royalties e participações especiais do petróleo, principalmente em estados como Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Bahia. Ainda assim, o IPS Brasil aponta que parte dessas cidades apresenta baixo desempenho em saneamento básico, educação e acesso a serviços essenciais.

Em alguns casos, menos da metade da população tem acesso a esgoto tratado. Em outros, indicadores de evasão escolar, mortalidade evitável e insegurança alimentar seguem elevados, mesmo com orçamentos municipais muito acima da média nacional.

O contraste entre receita e realidade social expõe um problema estrutural que vai além da simples falta de recursos.

Onde o dinheiro não vira qualidade de vida

Os dados do IPS Brasil mostram que o problema não está apenas no volume de arrecadação, mas na capacidade de transformar receita em políticas públicas eficazes. Municípios dependentes de royalties frequentemente enfrentam:

– baixa capacidade técnica de planejamento
– uso ineficiente ou disperso dos recursos
– priorização de gastos de curto prazo
– dependência excessiva de uma única fonte de receita

Além disso, como os royalties não estão vinculados obrigatoriamente a áreas específicas como saneamento ou educação, seu uso acaba ficando sujeito a decisões políticas que nem sempre priorizam impacto social de longo prazo.

O efeito da “maldição dos recursos”

Economistas e cientistas sociais costumam chamar esse fenômeno de “maldição dos recursos naturais”. Países e cidades ricas em commodities, como petróleo, frequentemente apresentam piores indicadores sociais do que regiões com menos recursos naturais, justamente por causa da dependência excessiva dessas receitas.

No caso brasileiro, o IPS Brasil evidencia que alguns municípios produtores não diversificaram sua economia nem investiram de forma consistente em capital humano. Quando os royalties caem, seja por variação do preço do petróleo ou redução da produção, os problemas sociais ficam ainda mais evidentes.

Saneamento: o gargalo mais visível

Entre todos os indicadores analisados pelo IPS Brasil, o saneamento básico aparece como um dos pontos mais críticos nos municípios ricos em royalties e pobres em qualidade de vida. Falta de esgoto tratado, abastecimento irregular de água e descarte inadequado de resíduos continuam sendo realidade para milhares de moradores.Play Video

Esse dado é particularmente grave porque saneamento é um dos investimentos com maior retorno social e econômico, reduzindo doenças, melhorando o desempenho escolar e diminuindo gastos com saúde pública.

Educação e oportunidades limitadas

Outro fator recorrente nos municípios mal colocados no IPS é a baixa qualidade da educação básica. Mesmo com orçamentos robustos, muitas cidades não conseguiram melhorar indicadores como alfabetização, permanência escolar e desempenho dos alunos.

Isso cria um ciclo perverso: jovens crescem em municípios ricos em recursos naturais, mas pobres em oportunidades reais, o que perpetua desigualdade, dependência de empregos de baixa qualificação e fragilidade econômica no longo prazo.

Comparações que escancaram o problema

O IPS Brasil também mostra que municípios sem petróleo, mas com boa gestão pública, conseguem resultados sociais muito superiores mesmo com menos recursos. Isso reforça a conclusão de que dinheiro não é o fator decisivo, e sim planejamento, governança e foco em políticas estruturantes.

Enquanto algumas cidades produtoras permanecem no fundo do ranking, municípios de médio porte, com arrecadação mais modesta, figuram entre os melhores colocados em qualidade de vida.

Com a transição energética em curso e a perspectiva de redução da dependência global de combustíveis fósseis nas próximas décadas, o alerta do IPS Brasil ganha ainda mais peso. Municípios que não transformarem os royalties em legado social duradouro podem enfrentar colapsos fiscais e sociais no futuro.

O petróleo é um recurso finito. Saneamento, educação e capital humano, não.

O que os dados do IPS Brasil realmente revelam

Mais do que expor cidades específicas, o IPS Brasil revela um padrão preocupante: receita extraordinária não garante progresso social. Sem planejamento, transparência e foco em políticas públicas eficazes, até bilhões de reais podem se dissolver sem deixar benefícios reais para a população.

O ranking funciona, assim, como um espelho incômodo para gestores públicos e como um instrumento poderoso para o debate sobre como o Brasil lida com sua riqueza natural.

A boa notícia é que o cenário não é irreversível. Os dados do IPS Brasil mostram caminhos claros: investir em saneamento, fortalecer a educação básica, diversificar a economia local e melhorar a governança municipal.

Enquanto isso não acontece, o paradoxo permanece. Cidades sentadas sobre bilhões em petróleo continuam figurando entre as piores do país em qualidade de vida, não por falta de dinheiro, mas por falta de transformação real.

FONTE: Click petroleo e gas

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