Documentos obtidos pelo Bastidor apontam que o processo de privatização da Copasa, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais, está sob influência de um grupo formado por dirigentes da estatal, instituições financeiras e empresas interessadas na aquisição, com indícios de uso de informação privilegiada, conflitos de interesse e atuação coordenada ao longo das etapas que antecedem a oferta pública, prevista para os próximos dias.
A modelagem da desestatização e os movimentos no mercado de ações da companhia ocorreram de forma simultânea à atuação de dirigentes da Copasa em empresas que podem ser beneficiadas no processo de privatização. Essa sobreposição de funções permitiu acesso a informações estratégicas e influência sobre decisões relevantes.
Despontam como possíveis compradores a Sabesp, Aegea, Acciona, Perfin e Veolia. A privatização ocorrerá por meio da venda de ações no mercado. A Copasa contratou o BTG Pactual como coordenador líder, além de Itaú BBA, Bank of America Merrill Lynch, Citigroup e UBS BB para atuar na operação. O curto prazo para apresentação de garantias, contudo, pode limitar a participação de interessados que ainda não estruturaram suas propostas.
As suspeitas envolvem Guilherme Duarte, ex-presidente e ex-integrante do conselho de administração da Copasa. Ele acumulou posições estratégicas na estatal ao mesmo tempo em que avançava sua atuação no setor privado. Duarte já ocupava a presidência da Copasa quando foi nomeado para o conselho de administração da empresa, em 2 de junho de 2023. Servidor público de carreira, pediu exoneração do cargo um mês depois, mas seguiu na empresa pública.
Em março de 2024, Duarte assumiu a presidência da Belora, uma empresa ligada ao grupo Reag, e passou a atuar diretamente no setor financeiro. Ainda assim, permaneceu no conselho da Copasa, onde manteve acesso a informações estratégicas da companhia.
Nesse período, pela Copasa, Duarte coordenou o comitê de renegociação de contratos com municípios, um dos principais ativos da empresa, por envolver 636 concessões. Entre agosto e dezembro de 2025, fundos ligados à gestora Perfin ampliaram sua participação na Copasa, de cerca de 5% para 13,36% do capital.
A Belora, empresa presidida por Duarte e ligada ao grupo Reag, tinha o mesmo endereço da gestora Perfin, na avenida Faria Lima, em São Paulo. A Reag foi alvo da operação Carbono Oculto, que investiga a relação do Primeiro Comando da Capital (PCC) com fraudes no setor de combustíveis, em 28 de agosto de 2025. No dia anterior, Duarte renunciou ao cargo na Belora, mas permaneceu no conselho da Copasa por cinco meses, deixando a posição em 23 de janeiro de 2026.
A Perfin foi sócia da Aegea no consórcio que venceu em 2022 a privatização da Corsan, empresa de saneamento do Rio Grande do Sul. As suspeitas também recaem sobre Hamilton Amadeo, ex-presidente do Conselho de Administração da Copasa. Ex-CEO da Aegea, foi responsável por estruturar esquemas de pagamento de propinas para obtenção e manutenção de contratos de saneamento em diferentes estados, conforme admitido em delação premiada tornada pública recentemente pelo UOL.
Amadeo assumiu a presidência do conselho da Copasa em abril de 2024 e permaneceu no cargo durante todo o período de formulação da proposta de privatização. Sua posição o colocou a frente da construção dos atos administrativos e societários que embasaram o processo, incluindo a apresentação da modelagem da desestatização e a convocação da assembleia de acionistas que deliberaria sobre o tema.
Ele seguiu à frente do conselho até 12 de fevereiro de 2026, quando renunciou ao cargo após os detalhes de sua delação virem a público.
O atual presidente do conselho de administração da Copasa, Gustavo Barbosa, concentra influência sobre diferentes estatais e estruturas de governo. Ele esteve no Rioprevidência, onde há registro de investigações e bloqueio de bens, além de decisões envolvendo aplicações financeiras relevantes. Barbosa assumiu o comando do colegiado da Copasa no momento imediatamente anterior à fase decisiva da privatização.
Como mostrou o Bastidor, o governo de Minas Gerais trabalha para encerrar em abril o processo de privatização. Chama atenção a celeridade e a baixa transparência na condução do processo. O modelo foi aprovado na gestão do ex-governador Romeu Zema, do Novo, que se desincompatibilizou do cargo para disputar a eleição. O cronograma é seguido pelo atual governador, Mateus Simões, do PSD. O Tribunal de Contas do Estado, por meio do conselheiro Agostinho Patrus, enviou ofícios à Copasa cobrando informações financeiras e operacionais sobre a privatização.
Fontes com conhecimento direto do assunto consultadas pelo Bastidor citam que a pressa na privatização é incomum diante de incertezas sobre a base contratual da companhia, especialmente em relação à renovação e ampliação dos contratos com municípios. Pela legislação, a transferência de controle exige a adequação contratual em prazo determinado. No caso da Copasa, são mais de 600 cidades, o que tornaria o processo mais demorado.
A ausência de definição sobre esses ativos antes da conclusão da desestatização pode levar à venda da empresa por um valor inferior ao seu potencial, com risco direto de prejuízo ao patrimônio público. Diante dos questionamentos, a Copasa anunciou na semana passada a assinatura do contrato de concessão com Belo Horizonte, que passará a vigorar em caso de desestatização, acompanhado de aditamento que prorroga a vigência até fevereiro de 2073. Não houve esclarecimento sobre os demais municípios.
O governo de Minas controla a Copasa com uma participação de 50,3% e busca um investidor para adquirir pelo menos 30% da fatia.
Denúncia formalizada
As denúncias contra Duarte, Amadeo e Barbosa chegaram a ser protocoladas, em fevereiro, no Ministério Público Federal, no Tribunal de Contas do Estado e na Comissão de Valores Mobiliário pela deputada estadual Bella Gonçalves, recém filiada ao PT.
A representação sustenta que há “elevada probabilidade de atuação coordenada” entre empresas do setor de saneamento e instituições financeiras, com a infiltração de agentes no interior da companhia para incidir em favor de interesses privados no processo de desestatização. Segundo o documento, esse cenário configura risco de dano ao erário, além de criar uma situação considerada anormal no mercado.
A parlamentar pede a abertura de investigações nas esferas cível, administrativa e penal, além da adoção de medidas cautelares, incluindo a suspensão imediata de atos relacionados à privatização até a conclusão das apurações.
A representação sustenta ainda que os atos praticados no âmbito da privatização podem ser considerados nulos caso seja comprovada a existência de conflito de interesses ou desvio de finalidade, e pede a responsabilização dos agentes envolvidos nas esferas civil, administrativa e penal.
Fontes com conhecimento direto do assunto consultadas pelo Bastidor afirmam que, mesmo após suas saídas, Amadeo e Duarte mantiveram influência no processo de privatização por meio de diretores que permaneceram na companhia. Os relatos indicam que as relações ainda se estendem a grupos interessados na aquisição.
O Bastidor procurou os envolvidos na segunda-feira (30). A reportagem enviou uma série de questionamentos a Duarte, Amadeo e Gustavo Barbosa.
Em mensagem por Whatsapp, Gustavo Barbosa disse que “nesse momento, por orientação da nossa Advocacia Geral do Estado, não posso falar sobre Copasa”.
Guilherme Duarte afirmou que ia se abster de “responder aos questionamentos, pois os temas tratados por suas perguntas são os mesmos levianamente alegados pela Deputada Estadual Bela Gonçalves sem o menor fundamento e que, ao tudo indica, não mereceram acolhimento pelo Ministério Público Federal, pelo Tribunal de Contas nem pela CVM”.
Em nota, o governo de Minas afirmou que “em conformidade com a Resolução 160 da Comissão de Valores Mobiliários, o Governo do Estado de Minas Gerais encontra-se em período de silêncio devido ao processo de oferta pública de valores mobiliários. Esta norma regulatória estabelece padrões rigorosos de conduta que restringem a divulgação de informações e a concessão de entrevistas, com o objetivo de garantir a equidade de acesso aos dados, a transparência e a proteção de todos os investidores. Portanto, para assegurar o estrito cumprimento das diretrizes da Comissão de Valores Mobiliários e evitar interpretações que possam comprometer o rito legal da oferta, estamos momentaneamente impossibilitados de nos manifestar sobre temas relacionados à operação ou ao desempenho da companhia.”
Hamilton Amadeo e a Perfin não responderam os questionamentos feitos. O MPF e o TCE não se manifestaram sobre o andamento das denúncias.
Fonte: O bastidor





