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16 anos de sofrimento: “Fedozão” da ETE mobiliza moradores e coloca Copasa sob pressão em audiência pública em Conselheiro Lafaiete

Um sofrimento que aterroriza Lafaiete há mais de 16 quando o então Governador Aécio Neves inaugurou a Estação de Tratamento de Esgoto do Rio Bananeiras. O que era para ser uma obra ambiental se tornou um tormento para milhares de moradores. Na sexta-feira (29), uma noite de frio intenso foi marcada por fortes cobranças, relatos emocionados e indignação popular na Câmara Municipal de Conselheiro Lafaiete. Atendendo ao Requerimento nº 275/2026, uma audiência pública reuniu dezenas de moradores dos bairros Satélite, Barreira, São Benedito e Lima Dias I e II para discutir os impactos provocados pela Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Bananeiras, operada pela Copasa.

O principal alvo das reclamações foi o forte odor emitido pela unidade, problema que há mais de uma década afeta a rotina de centenas de famílias. Conhecido popularmente como “fedozão da ETE”, o mau cheiro tem sido apontado pelos moradores como responsável por prejuízos à saúde, à valorização dos imóveis e à qualidade de vida da população.

Presidida pelo vereador Pastor Angelino, a audiência contou com a participação de moradores, lideranças comunitárias, representantes do Executivo Municipal e da Copasa. O plenário ficou lotado durante toda a sessão, demonstrando a insatisfação da comunidade com a falta de soluções definitivas para o problema.

Moradores relatam prejuízos à saúde, ao convívio social e ao patrimônio

Durante a audiência, diversos moradores utilizaram a tribuna para relatar os impactos enfrentados diariamente.Moradora do bairro Satélite há 44 anos, Maria Imaculada Barreto afirmou que promessas antigas de mitigação dos odores nunca surtiram efeito. Segundo ela, o mau cheiro impede até mesmo situações simples do cotidiano, como receber familiares em casa ou realizar refeições com as portas e janelas abertas.

O líder comunitário Ronaldo Luiz destacou que o problema se intensifica durante a noite, principalmente entre 22h e 23h. Ele relatou episódios em que participantes de encontros religiosos precisaram cobrir o nariz devido ao odor.Já Moisés Elias da Silva criticou as fiscalizações realizadas durante o dia, argumentando que o período de maior incidência do cheiro ocorre no fim da tarde e à noite. Ele também afirmou que o problema compromete o desenvolvimento econômico da região, dificultando a instalação de empreendimentos e eventos.

Morador da região há 35 anos, Josimar William denunciou a desvalorização dos imóveis e levantou preocupações ambientais relacionadas ao despejo de esgoto tratado no curso d’água que atravessa a região da Barreira. Segundo ele, além dos impactos ambientais, o problema afeta diretamente crianças e adolescentes, que seriam alvo de constrangimentos e bullying em razão do odor associado aos bairros onde vivem.Outros moradores, como Conceição Aparecida e Roseni, confirmaram que os períodos mais críticos ocorrem após as 16 horas e nas primeiras horas da manhã, quando o cheiro impede até mesmo a ventilação adequada das residências.

Prefeitura reconhece problema e promete ampliar fiscalização

Representando o Executivo Municipal, o secretário de Meio Ambiente, Robson Lana, reconheceu a existência do problema e informou que a responsabilidade pela operação da estação é da Copasa.Segundo ele, o município trabalha para municipalizar o licenciamento ambiental, o que poderá ampliar o poder de fiscalização da Prefeitura sobre empreendimentos que geram impactos ambientais. Lana afirmou ainda que já percebeu pessoalmente o odor ao trafegar pela rodovia que dá acesso à cidade e colocou a secretaria à disposição para receber denúncias formais da população por meio da Ouvidoria Municipal.

Vereadores cobram soluções após anos de promessas

Os parlamentares presentes também fizeram duras críticas à concessionária.O vereador Fernando Bandeira relembrou que a discussão sobre os impactos da ETE ocorre desde 2012 e destacou que, passados 14 anos das primeiras audiências públicas e 16 anos da implantação da estrutura, os moradores continuam enfrentando os mesmos problemas.

A vereadora Damires solicitou que a lista de presença da audiência, com quase 100 assinaturas, fosse anexada oficialmente aos registros da reunião como prova da persistência do problema.Já o vereador Pedro Américo argumentou que a origem da questão remonta ao planejamento da estação, elaborado ainda na década de 1990, defendendo que a discussão também envolva o Governo de Minas Gerais, controlador da companhia.

Copasa apresenta investimentos, mas evita garantir fim do mau cheiro

Representando a Copasa de forma remota, a gerente de Tratamento de Esgoto Sul, Júlia Modesto, afirmou que a empresa segue as diretrizes do Marco Legal do Saneamento e ressaltou a importância do tratamento de esgoto para a saúde pública.No entanto, ao ser questionada sobre a eliminação definitiva do problema, a representante evitou garantir que o mau cheiro será totalmente solucionado. Segundo ela, a percepção dos odores depende de fatores ambientais como temperatura, direção dos ventos e condições operacionais da estação.

A comunidade também demonstrou preocupação com a ampliação da estrutura da ETE. Atualmente, estão em construção seis novos leitos de secagem de lodo, que serão somados aos quatro já existentes.Moradores temem que a expansão aumente ainda mais a emissão de odores na região.

Como resposta, a Copasa apresentou um plano de investimentos que prevê R$ 12 milhões em melhorias operacionais nos sistemas de coleta e tratamento de esgoto da região Sul de Minas. A empresa informou ainda que projetos específicos de desodorização deverão ser executados nos próximos 12 meses e que obras de modernização tecnológica, conhecidas como retrofit, têm previsão de conclusão em até dois anos.Apesar disso, a companhia confirmou que não existe qualquer estudo ou planejamento para transferir a ETE Bananeiras para outra área do município.

Audiência define medidas e novos encaminhamentos

Ao final da reunião, foram aprovados diversos encaminhamentos para aumentar a pressão sobre a companhia e os órgãos públicos.Entre as medidas estão o envio da ata da audiência ao governador de Minas Gerais, ao Ministério Público e à Prefeitura Municipal; a solicitação para que a Copasa apresente, em até dez dias, laudos ambientais atualizados e um cronograma detalhado das obras anunciadas; e a criação de uma comissão formada por moradores, líderes comunitários e vereadores para acompanhar o caso junto ao Ministério Público.

O presidente da audiência, Pastor Angelino, também assumiu o compromisso de buscar apoio de deputados estaduais para levar a discussão à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ampliando o debate em nível estadual. Sem soluções imediatas e diante dos prazos apresentados pela Copasa, a população promete manter a mobilização. Para os moradores, a luta agora é para impedir que a ampliação da estação agrave ainda mais um problema que já afeta a região há mais de uma década.

Texto e foto: Minas Informa

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