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BETS: A FÁBRICA DE ILUSÕES QUE EMPOBRECE O POVO

Por Geraldo Vasconcelos

Quando a esperança vira matéria-prima do lucro Há um fenômeno silencioso atravessando o Brasil. Não chega de fuzil na mão, não ocupa esquinas escuras, não se esconde em becos. Ao contrário: entra pela porta da frente. Está nos intervalos dos jogos, nas camisas dos clubes, nos perfis dos influenciadores, nas transmissões esportivas e nos celulares de milhões de brasileiros. Chama-se aposta esportiva.

Mas talvez seu nome mais preciso seja outro: a industrialização da ilusão. Na Grécia antiga, uma ode era um poema de exaltação, um canto dedicado aos heróis, aos deuses ou às grandes virtudes humanas. Hoje, as odes mudaram de roupa. São os comerciais que prometem transformar alguns reais em fortuna. São os influenciadores sorridentes exibindo ganhos extraordinários. São narrativas cuidadosamente construídas para convencer o cidadão comum dequea prosperidade está a umclique de distância. Não vendemapostas. Vendem esperança. E esperança é uma mercadoria poderosa, especialmente quando encontra uma população esmagada pela inflação, pelos juros elevados, pelo desemprego, pela insegurança econômica e pela desigualdade social.

Quanto maior o desespero, mais sedutora parece a promessa. Nesse universo surge uma palavra aparentemente técnica, importada do inglês: odd. Ela significa “probabilidade” ou “cotação”. É o índice que indica a chance de um evento acontecer e define o valor do lucro caso o palpite seja vencedor. Parece matemática pura. Parece ciência. Parece racionalidade. Mas, para milhões de brasileiros, a odd deixa de ser uma probabilidade e passa a ser uma promessa. E é justamente nessa transformação que mora umadasmaiores armadilhas do sistema. As casas de apostas não prosperam apesar da desigualdade. Prosperam por causa dela. Quando a renda é insuficiente para fechar as contas do mês, quando o trabalhador percebe que seu salário não acompanha o custo de vida, quando a mobilidade social parece bloqueada e o futuro se torna uma estrada estreita, surge o terreno perfeito para a fantasia do ganho rápido.

O sonho da aposta nasce exatamente onde a esperança concreta começa a faltar. A matemática é cruel. Quem tem muito dinheiro costuma apostar por diversão. Quem tem pouco, muitas vezes aposta por necessidade. Um busca entretenimento; o outro busca socorro. E não há negócio mais lucrativo do que vender socorro a quem está desesperado. Existe uma verdade que raramente aparece nas propagandas: a banca não está apostando. Ela está calculando. Todo o sistema é construído para garantir vantagem estatística às plataformas. Se não fosse assim, elas não patrocinariam campeonatos, não comprariam horários nobres na televisão, não contratariam celebridades nem movimentariam bilhões de reais. Nenhum império econômico se sustenta distribuindo riqueza. Ele se sustenta concentrando riqueza. Quando bilhões de reais saem mensalmente dos bolsos das famílias brasileiras e migram para plataformas de apostas, esse dinheiro deixa de circular nos pequenos comércios, nas livrarias,nos restaurantes, nas atividades culturais e na economia real.

É riqueza drenada para um sistema cujo combustível é a perda coletiva. A tragédia também possui números. Levantamentos recentes apontam que quase quatro em cada dez apostadores afirmam ter se endividado após ingressar nas bets. Outras pesquisas revelam que dezenas de milhões de brasileiros realizaram algum tipo de aposta online nos últimos doze meses e que muitos deles chegaram a comprometer recursos destinados a necessidades básicas para continuar jogando. Mas por trás das estatísticas existem rostos. Existem famílias. Existem casamentos. Existem filhos. Existem sonhos interrompidos, contas atrasadas, crises de ansiedade, sentimentos de vergonha e umasolidão silenciosa que raramente aparece nas campanhas publicitárias. Existe um nome para isso: ludopatia. Trata-se do transtorno caracterizado pelo impulso compulsivo de jogar, mesmo diante de prejuízos evidentes. A pessoa perde dinheiro e aposta para recuperar. Perde novamente e aposta mais. Cria-se um ciclo psicológico semelhante ao observado em outros comportamentos aditivos.

O jogo deixa de ser entretenimento e transforma-se em dependência. E então surge a mensagem que talvez seja uma das mais perversas do marketing contemporâneo: “Jogue com responsabilidade”. Imagine uma indústria construir mecanismos sofisticados para estimular o consumo compulsivo e, ao final, transferir toda a responsabilidade para o consumidor. A mensagem oculta parece simples: se deu certo, mérito nosso; se destruiu sua vida, culpa sua. A indústria cria o estímulo. A propaganda cria o desejo. Os algoritmos criam a repetição. As celebridades criam a legitimidade. E a culpa recai sobre quem caiu na armadilha. Por isso é impossível ignorar outra questão moral: quem faz propaganda dessas plataformas participa da normalização desse fenômeno. Toda propaganda é, em alguma medida, uma recomendação. Quando artistas, atletas, comunicadores e influenciadores associam sua imagem às apostas, ajudam a transformar um problema social em comportamento desejável. Emprestam credibilidade a um sistema que prospera justamente sobre as perdas de milhões de pessoas. Quemlucra comisso? Essa é a pergunta que raramente ocupa os debates. Quem ganha quando um aposentado perde? Quem ganha quando um trabalhador compromete parte do salário? Quem ganha quando umamãeutiliza recursos destinados à família para tentar recuperar perdas? Quem ganha quando um jovem troca projetos de vida pela promessa do enriquecimento instantâneo? Certamente não são as famílias. Certamente não são as comunidades. Certamente não é a economia popular. Toda sociedade precisa decidir o que deseja cultivar. Há atividades que produzem conhecimento. Outras produzem arte. Outras produzem alimento. Outras produzem desenvolvimento humano. As bets produzem algo diferente: a esperança de ganhar dinheiro semproduzir riqueza.

E quando uma nação passa a acreditar que a sorte é um projeto econômico, algo profundo começa a seromper.O Brasil precisa de escolas melhores, mais cultura, mais ciência, mais trabalho qualificado, mais oportunidades e mais justiça social. Porque nenhuma aposta substituirá a dignidade do trabalho. Nenhuma odd substituirá a educação. Nenhuma promessa de enriquecimento instantâneo substituirá o longo e necessário caminho da construção de uma sociedade menos desigual. A sorte pode mudar um destino individual. Mas somente a justiça social pode mudar o destino de um povo. Fontes * Reuters– Dados discutidos pelo Banco Central sobre a movimentação aproximada de R$ 30 bilhões mensais em apostas online no Brasil e seus impactos econômicos. * Procon-SP / Reuters / UOL Economia– Levantamento indicando que cerca de quatro em cada dez apostadores relataram endividamento associado às apostas. * Yogonet Brasil– Pesquisa sobre o número de brasileiros que realizaram apostas online e os impactos sobre gastos essenciais. * Debates legislativos e documentos públicos sobre ludopatia e proteção ao consumidor relacionados às apostas esportivas online.

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