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Patrimônios culturais na Serra dos Mascates, sob a guarda da Vale S.A. permanecem invisíveis.

Dois sítios arqueológicos protegidos e o Monumento a Eschwege, situados em área sob a guarda da Vale S.A., permanecem praticamente invisíveis ao público e deixam de cumprir plenamente sua função social de preservar, comunicar e difundir a memória coletiva.

Localizados na área de mineração do Complexo Mina de Fábrica, na Serra dos Mascates (Serra da Moeda), as “Ruínas da antiga Fábrica Patriótica” (1812) e as “Ruínas das Casas Velhas”, importante conjunto arquitetônico colonial do século XVIII, merecem um plano efetivo de preservação, interpretação e fruição pública, conduzido em articulação entre a empresa detentora da guarda dos bens culturais e os órgãos de proteção ao patrimônio cultural. A Constituição Federal reconhece o patrimônio cultural como bem de interesse coletivo e atribui ao poder público e à comunidade o dever de promovê-lo e protegê-lo. Entretanto, esses importantes testemunhos da ocupação histórica do Alto e Médio Paraopeba permanecem em área operacional de mineração, condicionados a procedimentos administrativos que dificultam a visita espontânea de estudantes, pesquisadores, turistas e da população em geral. Circunstância que reforça a necessidade de políticas permanentes de conservação, monitoramento com programas regulares de visitação.

“Monumento a ESCHWEGE”

O Monumento a Eschwege encontra-se em estado de conservação que exige atenção imediata. Situado às margens da BR-040, na altura do km 597, perde-se em meio ao mato, à poeira e ao acúmulo de resíduos. O acesso ao monumento apresenta dificuldades e pode representar riscos aos visitantes. Em seu interior, a iluminação insuficiente dificulta a apreciação dos quatro painéis artísticos, provavelmente executados na década de 1960, que narram episódios da história da Fábrica Patriótica e da siderurgia brasileira.

“Fachada do Monumento a Eschwege”, construído em concreto armado e estrutura metálica, com painéis pintados nas paredes internas. Um dos painéis apresenta a data 12 de dezembro de 1962, sugerindo sua inauguração durante as comemorações do sesquicentenário da Fábrica Patriótica (1812–1962). O monumento foi concebido não apenas como homenagem ao Barão de Eschwege, mas também como memorial da “Fábrica Patriótica” e de sua importância para a história da mineração e da siderurgia brasileira.

Provavelmente, esta pintura representa o brasão da antiga Vila Rica (atual Ouro Preto), reproduzido no interior do Monumento a Eschwege em razão de sua estreita ligação histórica com a região da Fábrica Patriótica. A data de 1711 refere-se à criação de Vila Rica; a data de 1789 é alusiva à Inconfidência Mineira. O lema latino “Praetiosum Tamen Nigrum” (“Precioso, embora negro”) faz referência às montanhas de coloração escura, ricas em minério de ferro, que deram origem ao nome Ouro Preto.

Ruínas das Casas Velhas – Belo Vale

O Sítio Arqueológico Ruínas das Casas Velhas constitui um importante patrimônio colonial do século XVIII, tombado pelo Município de Belo Vale por meio do Decreto nº 155/2014 e inscrito no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. O sítio integra uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), localizada na Serra dos Mascates, em área pertencente à Vale S.A. É fundamental que se execute uma pesquisa ampla, a fim de que se identifiquem os mistérios sobre sua origem e função das imponentes Ruínas. A localização estratégica compunha uma rota por onde deveriam passar todos os viajantes, a produção de ouro e de minerais explorados no Rio Paraopeba e de minas de núcleos a Oeste da Serra da Moeda.

Haveria conexão das Ruínas com outro importante sítio arqueológico, as “Ruínas do Forte de Brumadinho” (Forte de Piedade ou Casa de Pedra), localizado no cume da Serra da Calçada? Ainda, haveria relação com a Fábrica Clandestina de Moedas e Barras de Ouro, situada em São Caetano da Moeda? Há que se pesquisar com mais rigor a relação desses três sítios coloniais, que apresentam sistemas construtivos similares do Ciclo do Ouro, alinhados na Serra da Moeda e não muito distante um do outro. Espaços dessa relevância histórica e paisagística merecem prioridade nas ações de preservação, conservação e pesquisa científica, acompanhadas de infraestrutura adequada para receber visitantes com segurança e promover a educação patrimonial.

Ruínas das Casas Velhas. Paredes construídas em pedra seca, com muralhas superiores a meio metro de espessura, utilizando canga ferruginosa como principal material construtivo. O conjunto ocupa aproximadamente 4.770 m².

Fábrica Patriótica

Cenário de vestígios das ‘Ruínas da Fábrica Patriótica’ situadas em área da ‘Mina de Fábrica’, de propriedade da Vale S.A. Foto adaptada do livro ‘200 Anos da Fábrica Patriótica’. Projeto gráfico: 18 Comunicação, 2012.

Relíquias de um marco histórico da siderurgia brasileira, as ruínas da antiga usina de ferro – Fábrica Patriótica – localizam-se às margens do Ribeirão do Prata, contribuinte da bacia do Rio das Velhas, em território de Ouro Preto e próximo a Congonhas, MG. Patriótica foi o primeiro sítio arqueológico histórico tombado no Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN); processo 31-T, inscrição 72, Livro Histórico, Fl. 14, em 30/06/1939. Os preparativos para instalar o empreendimento iniciaram-se em 1811, em área repleta de minério de ferro, córregos com água farta, matas virgens e abundância de madeiras destinadas à produção do carvão vegetal, principal fonte de energia do processo siderúrgico. Esses recursos eram adquiridos de proprietários das fazendas vizinhas. A produção teve início em 12 de dezembro de 1812, com mão de obra escravizada. Fabricavam-se, principalmente, pregos e ferraduras, elementos essenciais para os cuidados dos burros que compunham as tropas mineiras.

Wilhelm Ludwig von Eschwege (Barão de Eschwege) organizou a Sociedade Fábrica Patriótica, em organização privada com capital de dez mil Cruzados, dividido em dez ações. Parte das ações coube a Romualdo José Monteiro de Barros, proprietário da área de instalação da fábrica, e ao irmão Lucas Antônio Monteiro de Barros – Barão de Congonhas. 

Fortalecer a identidade regional e estimular o turismo cultural

O patrimônio cultural somente cumpre plenamente sua finalidade quando é conhecido, pesquisado, protegido e compartilhado com a sociedade. A guarda de bens tombados representa não apenas um dever de conservação física, mas também um compromisso com sua função social, educativa e cultural. Abrir esses espaços à visitação pública, de forma planejada e segura, significa aproximar estudantes, pesquisadores, turistas e comunidades de sua própria história, fortalecendo a identidade regional e estimulando o turismo cultural. As Ruínas da Fábrica Patriótica, as Ruínas das Casas Velhas e o Monumento a Eschwege não podem permanecer invisíveis. São testemunhos insubstituíveis da formação de Minas Gerais e da história da siderurgia brasileira. Preservá-los significa também garantir que permaneçam vivos na memória coletiva, acessíveis ao conhecimento, à pesquisa, à educação e à visitação pública, para as gerações presentes e futuras.

Tarcísio Martins, Jornalista e ambientalista; fotografias.

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