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Moradores de Congonhas denunciam seca em nascente do bairro Pires e apontam captação irregular por mineradora; veja vídeo

Moradores do bairro Pires, comunidade localizada em Congonhas, cobram explicações sobre a redução drástica da água da nascente João Batista, que abastece a comunidade. Segundo relatos, o local, que historicamente apresentava volume suficiente para atender às casas dos cerca de 4 mil moradores da comunidade, estava praticamente seco na última semana. Ao retornarem ao local nos últimos dias, porém, a população se deparou com um mangote (tubulação) instalado próximo à nascente e que segue em direção à área da Ferro+, o que levantou a suspeita de que a redução da vazão esteja relacionada à atividade da mineradora. O grupo J.Mendes, responsável pela empresa, negou que o problema esteja relacionado às suas atividades.

As dúvidas ganharam força depois que imagens da nascente começaram a circular em grupos da comunidade. Diante dos registros, pelo menos 50 moradores foram até o local na tarde dessa terça-feira (29) para verificar a situação. As fotografias levadas pela população mostram a diferença entre dois momentos: em uma delas, o poço aparece cheio, com água ocupando boa parte da área; em outra, o mesmo ponto está praticamente seco, com o fundo exposto.Play Video

Ali, o grupo percebeu a presença de um mangote, tipo de mangueira flexível usada para transportar líquidos, que segue em direção à área da Ferro+. “Ele (o cano) é muito extenso. Vimos que ia em direção à mineradora. Para onde ele está indo, a gente não sabe”, relata Ivana Gomes, de 53 anos, que nasceu e cresceu no Pires e participou da mobilização.

A suspeita levantada por quem vive na região é de que alguma intervenção relacionada à atividade mineradora tenha contribuído para o desaparecimento da água e que, agora, o mangote é usado para recompor o volume da nascente. “Estava com um pouco de água, mas aquela água estava turva, que não é natural. Parece uma água bombeada”, afirma.

A nascente é a fonte de abastecimento do Pires. Congonhas mantém contrato com a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) para o tratamento da água distribuída à população, mas, segundo os moradores, no bairro a água captada nas nascentes João Batista e Boi na Brasa é conduzida para uma caixa de armazenamento e, dali, distribuída às residências, sem passar pelo sistema de tratamento da companhia.

“A água dava para abastecer Pires, Congonhas e Profeta. Agora, mal dá para a comunidade”, afirma Marlene Souza Alves, de 55 anos, outra moradora que nasceu e cresceu no bairro. Com a redução da vazão, os moradores relatam que os problemas de abastecimento se tornaram mais frequentes. Marlene também afirma que a população enfrenta episódios recorrentes de água barrenta. “Estamos sufocados pela poeira, mas o problema maior é a água. Diariamente tem reclamação de água com barro. A gente não sabe mais a quem pedir socorro. A água chega imunda”, diz.

Para ela, a situação não pode ser explicada apenas pela falta de chuva. Marlene relaciona a mudança no abastecimento a intervenções realizadas na região e à retirada de água associada à atividade mineradora. “Não faltava água antes, não. Depois que encanou a água e a empresa começou a tirar a água, aí que nós começamos a ficar sem água”, afirma.

“Não tínhamos problema de escassez de água igual a gente está tendo agora. A empresa está comprometendo os recursos hídricos. Nós pedimos respeito, qualidade de vida e acesso à água potável”, afirma Marlene.

A própria relação da comunidade com a área das nascentes mudou com o avanço da mineração. Marlene conta que, no passado, os moradores tinham acesso ao local para caminhar e passar o tempo. “As pessoas iam lá na nascente. Podiam entrar, andar, ficar próximas. Muitos iam lá para pegar plantas medicinais. Hoje é propriedade privada. A nascente que era abundante, transbordava, agora está assim”, diz.

Mineradora nega relação com o problema

O grupo J.Mendes, responsável pela mineradora Ferro+, informou por nota que tomou conhecimento da situação e, após avaliação de seus técnicos, “não identificou qualquer alteração nas condições do reservatório que tenha relação com suas atividades”. “A empresa acionou a Copasa e a Secretaria de Meio Ambiente, órgãos responsáveis pelo abastecimento e manutenção do sistema de água da Comunidade do Pires”, completou. 

“A empresa esclarece ainda que a tubulação identificada pelos moradores dentro da propriedade da Ferro+ Mineração integra o sistema interno da empresa e sua manutenção segue os critérios legais aplicáveis pelos órgãos competentes. A empresa reitera que cumpre integralmente a legislação vigente e permanece à disposição para apoiar a comunidade no que for necessário”, finalizou o grupo, completando que ainda disponibilizou caminhões-pipa aos moradores do bairro Pires, apesar de o fornecimento de água não ser sua resposabilidade.

A Prefeitura de Congonhas também foi indagada pela reportagem sobre a situação, em nota, ela afirmou que equipes da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas vistoriaram a Nascente João Batista, no bairro Pires, nos dias 28 e 29 de setembro. Conforme o município, na segunda vistoria, o reservatório já estava novamente em processo de enchimento, enquanto o abastecimento da Escola Municipal Sr. Odorico Martinho da Silva estava sendo normalizado, com apoio de caminhão-pipa.

A prefeitura informou ainda que a hipótese mais provável para os episódios de falta de água é um problema no sistema de tubulação, especialmente relacionado à entrada de ar. A Fiscalização Ambiental deve retornar ao local nesta quinta-feira (1º) para verificar um mangote instalado na área de captação, após moradores levantarem a possibilidade de reabastecimento artificial do reservatório. Segundo a empresa responsável pela área, a estrutura foi instalada apenas para eventual situação de emergência e nunca teria sido utilizada.

Reivindicações e Rejeição à Copasa

Indignados com a situação, os moradores manifestaram forte oposição à intervenção da Copasa no bairro, afirmando que a escassez de água não foi provocada pela comunidade, mas sim pelas atividades e instalações da mineradora. O grupo classifica o ocorrido como um crime ambiental e exige:

  • Que a empresa mineradora se responsabilize publicamente pelos danos causados.
  • Que as reparações financeiras e assistenciais sejam direcionadas diretamente à comunidade afetada, e não apenas a órgãos burocráticos.
  • Que as autoridades competentes apurem rigorosamente o caso, garantindo que os direitos básicos dos cidadãos sejam respeitados.

A mobilização reforça que a união da população é fundamental para barrar os impactos sofridos e exigir justiça perante a degradação dos recursos hídricos locais.

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