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Curva crescente: Minas teve quase 50 mil casos de violência contra a mulher em 2025

Série da Itatiaia mostra como número de casos aumenta ano após ano na série histórica de dados coletados no sistema de saúde de Minas Gerais

Por Bernardo Estillac, Larissa Ricci e Rômulo Ávila | 28/04/2026 às 07h01 • Atualizado há 4 horas

Minas Gerais fechou 2025 com 48.846 casos de violência de gênero registrados em atendimentos no sistema de saúde do estado. Os números significam mais de 133 casos diários ou mais de 5 ocorrências por hora. Os números são os maiores da série histórica registrada desde 2010 e mostram uma curva crescente, tema da série ‘Raio-x da violência contra a mulher’, veiculada ao longo desta semana pela Itatiaia.

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) coletados pela Itatiaia, os casos de violência de gênero em Minas alcançaram um recorde nos últimos 15 anos. O banco de informações é alimentado pelas unidades de saúde do estado e mostram que a marca infame de maior quantidade de casos anuais foi batida pelo terceiro ano consecutivo.

Ludmila Ribeiro, professora do departamento de Sociologia da UFMG e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos Sobre Violência, Justiça e Prisões (Rede Femjusp), analisou como a curva dos casos se relaciona tanto com o aumento preocupante da violência de gênero como com a adaptação dos serviços de saúde à forma de contabilizar e registrar as pacientes atendidas.

“Os primeiros anos têm um aumento anual de mais de 100%. Quando a gente olha, por exemplo, 2010 para 2011 a gente tem um aumento de 144%. Então, no final das contas, nesses primeiros anos, a gente entende que é uma conscientização dos profissionais de saúde sobre a importância de registro desses casos. Esse é um aumento que a gente diria que, na verdade, é uma melhoria da coleta da informação”, avalia.

A pesquisadora complementa analisando a perene curva de crescimento dos casos, mas com um ritmo desacelerado, o que indica que o maior número de registros está relacionado mais ao aumento real de casos do que com a adaptação dos profissionais de saúde aos métodos de coleta da informação.

“Em qualquer tipo de política pública, a gente parte do princípio de que, nos três primeiros anos, as pessoas estão se familiarizando com o sistema, estão inserindo bem ali as informações, ou seja, o sistema se tornou parte da rotina operacional. Se a gente pegar de 2010 a 2013, a gente tem aumentos muito substantivos de um ano a outro, mas depois a gente começa a ver que a curva suaviza. Efetivamente, a gente vai vendo aí o aumento da quantidade de registros”, complementa a professora.

O efeito da pandemia

Na curva observada no gráfico produzido pela reportagem, observa-se um vale nos anos de 2020 e 2021, ápice da pandemia de Covid-19. A queda de 23,4% nas notificações revelam como o acesso das mulheres ao sistema de saúde foi impactado pelo caos sanitário, como explica a professora da UFMG.

“Um dos debates que a gente acabou fazendo muito durante a pandemia foi a dificuldade da mulher em sair de casa para procurar serviços quando ela era vítima de violência por dois motivos. Primeiro porque as mulheres eram as grandes responsáveis pelo cuidado, então ainda que tenham sido vítimas de violência, estavam responsáveis pelas crianças, os idosos, e tinham medo de se expor ao vírus e ficavam entre a cruz e a caldeirinha. […] Outro ponto foi como a pandemia teve um impacto muito mais profundo do ponto de vista da renda familiar para mulheres em comparação aos homens. Ou seja, eram as mulheres as que perderam mais do ponto de vista financeiro, até porque tiveram que passar a exercer o cuidado em tempo integral”, destacou.

A questão da dependência financeira dos companheiros é um debate no sentido da falta de autonomia para procurar atendimento, ainda que médico e não de uma força de segurança, para denunciar a situação vivida dentro de casa.

A base de dados disponibilizada pela Secretaria de Estado de Saúde têm números diferentes das tabelas da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), abastecida por ocorrências policiais. Além das diferenças nos números finais, se destaca a possibilidade de filtros qualitativos, como a constatação de que em 30% dos casos registrados, a vítima também relatou ter sofrido violência psicológica.

Outros recortes mais específicos serão abordados na série ao longo da semana. Veja o cronograma:

  • 29/04 – Os números da violência sexual
  • 30/04 – Recorte dos casos por idade
  • 01/05 – O perfil do agressor
  • 02/05 – Onde acontecem os casos em Minas Gerais

Fonte: Rádio Itatiaia

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