Um estudo científico publicado em 2025 alerta que a atual saturação da órbita baixa da Terra reduziu para apenas 2,8 dias o tempo médio até uma colisão grave entre satélites caso eventos extremos, como tempestades solares intensas, interrompam os sistemas de controle e manobra
Um estudo científico liderado por pesquisadora da Universidade de Princeton alerta que a atual saturação da órbita baixa da Terra pode levar a uma colisão catastrófica em apenas 2,8 dias caso o controle de satélites seja interrompido por eventos como tempestades solares extremas, com impacto global imediato.
Um espaço invisível, mas cada vez mais congestionado
Na órbita baixa da Terra, entre 160 e 2.000 quilômetros de altitude, circula hoje uma quantidade sem precedentes de objetos artificiais. Satélites operacionais, restos de foguetes e fragmentos de colisões passadas compartilham um espaço limitado, onde pequenas variações de trajetória podem resultar em consequências amplas.
Esse ambiente, pouco perceptível para quem observa apenas fenômenos como auroras ou satélites visíveis a olho nu, tornou-se um componente essencial da infraestrutura global. Sistemas de comunicação, navegação e observação dependem diretamente da estabilidade desse espaço orbital saturado.
O estudo recente conduzido por Sarah Thiele descreve esse cenário como estruturalmente frágil. Os autores argumentam que a segurança orbital deixou de ser passiva e passou a depender de intervenções constantes, precisas e coordenadas entre milhares de objetos em movimento contínuo.
A expansão das megaconstelações e o aumento do risco
A proliferação das chamadas megaconstelações alterou radicalmente a dinâmica da órbita baixa. Projetos como a Starlink, operada pela SpaceX, multiplicaram por milhares o número de satélites ativos em poucos anos.
Segundo os dados apresentados no artigo, aproximações entre objetos a menos de 1 quilômetro ocorrem, em média, a cada 20 segundos. Quando considerados apenas os satélites da constelação Starlink, esse intervalo cai para 27 segundos, indicando densidade elevada em regiões específicas da órbita.
O relatório citado no estudo informa que, em um período de seis meses, a constelação realizou mais de 144.000 manobras de desvio. Isso corresponde a cerca de 41 manobras por satélite ao longo de um ano, um número que evidencia a dependência de ajustes contínuos para evitar colisões.
Os autores observam que a ausência de grandes acidentes recentes não indica segurança estrutural, mas sim o êxito repetido dessas manobras. Qualquer falha sistêmica interromperia esse equilíbrio precário quase imediatamene.
O Relógio CRASH e a contagem regressiva orbital
A principal inovação metodológica do estudo é a criação do CRASH Clock, ou Relógio de Colisão e Danos Significativos. Trata-se de um indicador que estima quanto tempo levaria para ocorrer uma colisão grave caso os satélites perdessem a capacidade de manobra ativa.
Calculado com base em dados de junho de 2025, o valor atual do Relógio CRASH é de apenas 2,8 dias. Isso representa uma redução drástica em comparação a 2018, quando o mesmo indicador marcava 121 dias, antes da consolidação das megaconstelações.
O estudo aponta que, se o controle operacional fosse interrompido, haveria 30% de probabilidade de uma colisão grave entre objetos catalogados nas primeiras 24 horas. Esse dado evidencia a rapidez com que o sistema pode entrar em colapso.
A mudança refletida pelo Relógio CRASH não é apenas quantitativa. Ela indica uma transição para um modelo de segurança baseado em coordenação automatizada constante, no qual interrupções curtas podem desencadear efeitos em cascata.
Tempestades solares como fator de desestabilização
Além do risco mecânico entre objetos, os satélites estão sujeitos à influência direta da atividade solar. Tempestades geomagnéticas intensas podem aquecer a atmosfera terrestre, aumentando o arrasto e alterando trajetórias orbitais com elevada precisão.
O estudo cita como exemplo a tempestade solar de maio de 2024, conhecida como evento de Gannon. Durante esse episódio, mais da metade dos satélites em órbita baixa precisou executar manobras evasivas, muitas realizadas de forma improvisada diante da urgência.Play Video
Uma única manobra desse tipo pode gerar erros de posicionamento de até 40 quilômetros por vários dias. Esse nível de imprecisão compromete cálculos de conjunção e eleva substancialmente o risco de colisões subsequentes.
O cenário mais crítico considerado pelos autores é a repetição de um evento solar com a magnitude do Evento Carrington de 1859. Nesse caso, os sistemas de controle de satélites poderiam ficar inutilizáveis por mais de três dias, superando o limite crítico indicado pelo Relógio CRASH.
Colisões e o risco de reação em cadeia
Em velocidades superiores a 28.000 quilômetros por hora, colisões orbitais não resultam apenas na perda de dois objetos. Cada impacto gera milhares de fragmentos capazes de atingir outros satélites e detritos, ampliando rapidamente o número de ameaças.
Esse processo é descrito como síndrome de Kessler, uma reação em cadeia que pode tornar regiões inteiras da órbita inutilizáveis por longos períodos. Embora tradicionalmente associado a escalas de décadas, o estudo alerta para a possibilidade de colapso quase imediato.
Os autores destacam que uma única colisão de grande porte poderia criar condições para um bloqueio operacional do tráfego espacial. No artigo, esse tipo de evento é comparado ao vazamento do Exxon Valdez, em 1989, como um desastre ambiental de efeitos persistentes.
Os números atuais já indicam alta frequência de eventos críticos. Segundo o estudo, uma aproximação a menos de 100 metros ocorre, em média, a cada 33 minutos. Em uma simulação, um satélite e um fragmento chegaram a apenas 30 metros de distância em três horas.
Falta de coordenação no tráfego espacial
Outro fator estrutural de risco identificado é a ausência de um sistema global de gestão do tráfego espacial. Cada operador utiliza seus próprios critérios, dados e protocolos para decidir quando e como realizar manobras de desvio.
Essa fragmentação reduz a transparência e aumenta a margem de erro em um ambiente já extremamente congestionado. O estudo relembra incidentes recentes, como o ocorrido em 2019, quando um satélite europeu precisou evitar manualmente um satélite Starlink devido a falha no sistema de alerta.
Os autores também citam a colisão de 2009 entre um satélite Iridium e um satélite russo, atribuída em parte à falta de comunicação entre operadores. Hoje, com muito mais objetos e manobras, esse tipo de falha se torna ainda mais perigoso.
Embora existam diretrizes voluntárias propostas pela Organização das Nações Unidas, o estudo avalia que essas iniciativas não acompanham o ritmo de crescimento das operações privadas no espaço.
Um alerta antes do limite crítico
O artigo não apresenta soluções técnicas detalhadas, mas enfatiza a necessidade de reconhecimento imediato da gravidade do problema por governos, empresas e agências espaciais. Métricas como o Relógio CRASH podem servir como instrumentos objetivos de tomada de decisão.
Os autores ressaltam que o indicador não representa um limite rígido, mas uma medida de risco contínuo. Valores abaixo de três dias devem ser interpretados como sinais de alerta urgente para a sustentabilidade orbital.
Caso nenhuma ação coordenada seja adotada, o estudo aponta que o Relógio CRASH pode atingir zero após o próximo evento solar extremo. Esse cenário implicaria perda rápida da capacidade operacional em larga escala.
O trabalho conclui que a órbita baixa deve ser tratada como um ecossistema compartilhado e finito. Cada satélite, além de cumprir uma função específica, consome espaço comum, e o uso inadequado desse recurso pode comprometer toda a infraestrutura tecnológica global, conforme dados publicados no arXiv.
As informações apresentadas têm como base o artigo científico “Um Castelo de Cartas Orbital: Conjunções Frágeis de Megaconstelações”, liderado por Sarah Thiele, pesquisadora da Universidade de Princeton, publicado em 2025 na plataforma arXiv, que reúne os dados, simulações e métricas utilizadas para calcular o Relógio CRASH e avaliar os riscos atuais da órbita terrestre baixa.
FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS



