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Brasileiros não querem ganhar somente R$ 2 mil por mês: supermercados enfrentam crise com 357 mil vagas encalhadas, rejeição à escala 6×1, promessas vazias de crescimento e relatos de desvio de função

Crise de contratação expõe mudança no perfil do trabalhador e pressiona redes supermercadistas em todo o país, que acumulam milhares de vagas abertas mesmo oferecendo salário fixo, jornada extensa e poucos incentivos de carreira, enquanto profissionais passam a priorizar qualidade de vida, descanso e alternativas fora do modelo tradicional de emprego.

A dificuldade de contratação deixou de ser pontual e passou a afetar redes de supermercados em diferentes regiões do Brasil.

Mesmo com cerca de 357 mil vagas abertas, principalmente em funções operacionais, o setor registra baixa procura por postos que oferecem salários em torno de R$ 2 mil mensais, jornada em escala 6×1 e perspectivas limitadas de progressão profissional.

Esse cenário indica uma mudança no comportamento dos trabalhadores, que passaram a avaliar não apenas a existência da vaga, mas também as condições impostas pela rotina.

Segundo representantes do setor, muitas oportunidades permanecem abertas por semanas ou até meses, sem atingir o número esperado de candidatos.

A maior concentração dessas vagas está em cargos essenciais para o funcionamento das lojas, como repositor de mercadorias, operador de caixa, atendente e açougueiro, funções que exigem presença constante e ritmo intenso.

Ainda assim, a procura não acompanha a necessidade das empresas, criando gargalos operacionais em unidades de diferentes portes.

Durante anos, o trabalho em supermercado foi visto como porta de entrada para o mercado formal.

Hoje, porém, essa percepção mudou, e a atividade passou a ser encarada com mais cautela por parte dos profissionais.

A combinação entre carga horária elevada, trabalho frequente em fins de semana e feriados e remuneração considerada insuficiente tem afastado interessados, sobretudo entre trabalhadores mais jovens.

Escala 6×1 se consolida como principal fator de rejeição

Predominante no varejo alimentar, a escala 6×1 tornou-se um dos principais motivos de recusa às vagas disponíveis.

Na prática, o modelo impõe seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso, muitas vezes em dias úteis, o que compromete a recuperação física e dificulta a conciliação com a vida pessoal.

Relatos de trabalhadores indicam que a folga semanal costuma ser consumida por tarefas domésticas, compromissos familiares ou pendências acumuladas ao longo da semana.

Como resultado, o cansaço físico e mental se prolonga, reduzindo a disposição para manter esse ritmo por períodos prolongados.

Além do desgaste, há impactos financeiros indiretos que pesam na decisão.Play Video

Despesas com transporte e alimentação fora de casa reduzem o salário líquido, fazendo com que a renda final fique abaixo da expectativa inicial.

Para parte dos candidatos, o esforço exigido já não compensa o valor recebido ao fim do mês.

Alternativas de renda ampliam concorrência por mão de obra

Outro elemento que ajuda a explicar a resistência às vagas é a ampliação de opções de renda fora do emprego tradicional.

Atividades como entregas por aplicativos e prestação de serviços autônomos passaram a ser vistas como alternativas mais flexíveis, com potencial de ganhos semelhantes ou até superiores aos oferecidos pelo setor supermercadista.

Mesmo sem garantias trabalhistas, muitos profissionais avaliam que a possibilidade de escolher horários e dias de trabalho pesa mais do que a estabilidade de um salário fixo considerado baixo.

Esse movimento aumenta a concorrência por mão de obra e pressiona empresas que mantêm modelos rígidos de jornada e remuneração.

Representantes do setor reconhecem que o perfil do trabalhador mudou.

A busca por equilíbrio entre trabalho e vida pessoal ganhou relevância, algo que o formato tradicional do varejo ainda encontra dificuldade em oferecer.

Ausência de plano de carreira reduz atratividade das vagas

Além da jornada extensa, a falta de perspectiva de crescimento aparece como outro entrave importante.

Funcionários e ex-funcionários relatam que muitos cargos operacionais não contam com planos claros de carreira, o que alimenta a percepção de estagnação profissional.

Em vários casos, a expectativa é permanecer por anos exercendo a mesma função, com reajustes limitados ao piso da categoria.

Para quem ingressa jovem no mercado de trabalho, essa ausência de horizonte funciona como fator adicional de desestímulo.

Somam-se a isso relatos recorrentes de desvio de função.

Trabalhadores contratados para uma atividade específica acabam acumulando múltiplas tarefas ao longo do tempo, sem contrapartida salarial correspondente.

Esse acúmulo contribui para a sensação de sobrecarga e desvalorização.

Pressão no atendimento agrava desgaste emocional

O ambiente de trabalho nas lojas também influencia a decisão de aceitar ou não uma vaga.

Funções com atendimento direto ao público exigem lidar com filas, cobranças por agilidade e, em alguns casos, conflitos com clientes.

Em períodos de maior movimento, como fins de semana e feriados, a pressão tende a se intensificar.

Funcionários relatam que situações de estresse se tornaram frequentes, especialmente em unidades com equipes reduzidas.

A exigência de manter padrões rígidos de atendimento, somada a jornadas longas, amplia o desgaste emocional.

Esse conjunto de fatores ajuda a entender por que, apesar do volume expressivo de vagas, as contratações não avançam no ritmo esperado pelas empresas.

Ajustes operacionais entram em avaliação pelas redes

Diante do cenário, algumas redes passaram a discutir mudanças para tentar reverter o quadro.

Entre as alternativas analisadas estão a adoção de escalas com dois dias de descanso semanal, como o modelo 5×2, além de ajustes pontuais na remuneração inicial.

Em experiências isoladas, empresas relatam melhora na procura por vagas após flexibilizar a jornada.

Ainda assim, a implementação dessas medidas enfrenta resistência, sobretudo por causa dos custos operacionais e da necessidade de manter lojas abertas todos os dias.

O desafio passa por reorganizar equipes e turnos sem comprometer o atendimento ao consumidor.

Enquanto isso, a escassez de mão de obra pressiona quem permanece empregado, elevando a carga de trabalho e alimentando um ciclo de desgaste.

Transformação estrutural redefine relações de trabalho

O quadro observado nos supermercados reflete uma transformação mais ampla no mercado de trabalho brasileiro.

Para muitos profissionais, aceitar qualquer vaga deixou de ser a única alternativa disponível.

Condições de rotina, previsibilidade de descanso e qualidade de vida passaram a ter peso semelhante ao salário na decisão de aceitar um emprego.

Empresários, por outro lado, argumentam que o setor opera com margens apertadas e enfrenta elevada carga tributária, o que limita reajustes salariais e mudanças rápidas no modelo de funcionamento.

A tensão entre esses dois lados revela um impasse que segue sem solução imediata.

Com milhares de postos abertos e dificuldade crescente para preenchê-los, o setor supermercadista se vê diante de uma escolha concreta.

Manter o formato tradicional ou rever práticas históricas será decisivo para definir se as vagas continuarão encalhadas ou se o setor conseguirá se adaptar às novas expectativas dos trabalhadores?

FONTE: Click petroleo e gas

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