Do petrodólar aos sistemas alternativos: dólar abaixo de 40% das reservas globais, ouro supera euro, iene e libra, BRICS testam Unidade, BRICS Pay e CIPS enquanto US$ 1,5 trilhão em gastos militares expõem a restrição estrutural da hegemonia financeira
A queda do dólar para menos de 40% das reservas globais, a corrida dos bancos centrais ao ouro e os testes dos BRICS com sistemas alternativos de pagamento revelam uma restrição estrutural: manter a hegemonia militar ou a financeira, diante de sanções, ativos congelados e reconfiguração do comércio energético.
O petrodólar é descrito como um mecanismo central da hegemonia financeira, funcionando como uma máquina de reciclagem que canaliza a compra contínua de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Esses títulos retornam ao sistema como financiamento de gastos elevados, incluindo guerras prolongadas, sustentadas pela posição do dólar como moeda de reserva.
Qualquer ator que considere diversificar reservas ou reduzir a exposição a esse sistema enfrenta riscos imediatos. O material aponta congelamento de ativos, sanções financeiras e outras medidas coercitivas como instrumentos recorrentes para manter a disciplina do sistema baseado no dólar.
Ao mesmo tempo, a demonstração de poder bruto encontra limites materiais. O esgotamento de recursos em conflitos prolongados, somado à necessidade de imprimir dólares para cobrir despesas crescentes, cria pressões simultâneas sobre a hegemonia militar e financeira, revelando uma contradição estrutural.
A dominação, segundo o texto-base, exige recursos cada vez maiores, obtidos por meio de saque financeiro e endividamento global. Tomar empréstimos do mundo funciona como contenção financeira contra rivais, mas amplia a dependência da confiança internacional no sistema do dólar.
Essa dinâmica leva a uma escolha considerada inescapável. Ou se mantém o gasto astronômico necessário à hegemonia militar, exemplificado por um orçamento de US$ 1,5 trilhão proposto para o Departamento de Guerra, ou se preserva a dominância do sistema financeiro internacional.
O material afirma que não é possível sustentar ambas as frentes indefinidamente. Quando os cálculos são feitos, determinados teatros de conflito tornam-se descartáveis em termos estratégicos, ao menos em teoria, diante da necessidade de preservar a engrenagem financeira central.

Sanções, ativos congelados e o impulso aos BRICS
Contra a instrumentalização do sistema de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, descrita como imperialismo monetário de facto, os BRICS surgem como uma escolha estratégica do Sul Global. O grupo coordena iniciativas voltadas à criação de sistemas de pagamento alternativos.
O ponto de inflexão destacado foi o congelamento, descrito como roubo, de ativos russos após a expulsão da Rússia do sistema SWIFT. O episódio envolveu uma potência nuclear e hipersônica, ampliando a percepção de risco sistêmico entre bancos centrais.
A partir desse evento, o texto indica que bancos centrais em todo o mundo passaram a se voltar para o ouro, acordos bilaterais e a considerar seriamente alternativas ao sistema dominante de pagamentos internacionais.
O movimento é descrito como o primeiro choque estrutural sério ao sistema financeiro internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Ainda assim, os BRICS não estariam tentando derrubar abertamente o sistema existente, mas construir uma alternativa viável.
Essa alternativa busca financiar infraestrutura em larga escala e permitir transações que ignorem o dólar americano, reduzindo a vulnerabilidade a sanções e congelamentos de ativos associados ao atual arranjo monetário global.
A Venezuela é apresentada como um caso crítico nesse contexto.Play Video
A questão central é se um grande produtor de petróleo pode sobreviver fora do sistema do dólar americano sem ser destruído economicamente.
Segundo o material, a resposta do sistema hegemônico foi negativa. Cabe ao Sul Global demonstrar o contrário, testando mecanismos que reduzam a dependência do dólar em transações estratégicas, especialmente no setor energético.
A relevância da Venezuela no tabuleiro geopolítico é relativizada pelos números apresentados.
O país representaria apenas 4% das importações de petróleo da China, limitando seu peso específico na disputa sistêmica.
O Irã é descrito como o caso fundamental. Cerca de 95% do seu petróleo é vendido para a China e pago em yuan, não em dólares americanos, o que desafia diretamente o mecanismo do petrodólar.
Irã, yuan e a restrição do poder coercitivo
O texto destaca que o Irã não é comparável à Venezuela em termos de resiliência estratégica. Uma operação recente envolvendo inteligência, ataques terroristas e tentativa de mudança de regime teria fracassado de forma clara.
Essa operação incluiu, segundo o material, a figura de um mini-Xá refugiado em Maryland, caracterizado como politicamente irrelevante. Apesar do fracasso, a ameaça de guerra permanece como instrumento de pressão.
A persistência dessa ameaça ilustra os limites do poder coercitivo quando confrontado com arranjos energéticos e financeiros que escapam ao controle direto do sistema do dólar.
Nesse cenário, a discussão se desloca para os mecanismos concretos em teste no âmbito dos BRICS. A questão central passa a ser qual sistema pode efetivamente substituir ou contornar o SWIFT em escala significativa.
O dólar americano, conforme os dados apresentados, representa agora menos de 40% das reservas cambiais globais, o nível mais baixo em pelo menos 20 anos, sinalizando uma mudança estrutural em curso.
O ouro, por sua vez, passou a representar mais reservas globais do que o euro, o iene e a libra esterlina combinados. Bancos centrais acumulam ouro em ritmo acelerado, reforçando essa tendência.
Paralelamente, os BRICS intensificam testes de sistemas de pagamento alternativos no que o texto define como um laboratório, voltado a avaliar soluções técnicas e políticas para a liquidação internacional.
Unidade, mBridge e BRICS Bridge em teste
Um dos cenários propostos aos BRICS prevê a introdução de um token de negociação não soberano baseado em blockchain, concebido como alternativa ao sistema SWIFT, que processa pelo menos US$ 1 trilhão em transações diárias.
Esse token é denominado Unidade. Ele não é apresentado como moeda, mas como uma unidade de conta destinada à liquidação de transações comerciais e financeiras entre países participantes.
A Unidade é descrita como dinheiro apolítico. Poderia ser atrelada a uma cesta de commodities ou a um índice neutro, evitando a dominação por qualquer país específico no processo de liquidação.
Nesse sentido, funcionaria de forma semelhante aos Direitos Especiais de Saque do FMI, porém restrita à estrutura dos BRICS, com governança e objetivos próprios.
O texto menciona também o mBridge, que não integra diretamente o laboratório dos BRICS. Trata-se de uma moeda digital de múltiplos bancos centrais compartilhada entre bancos centrais e comerciais participantes.
O mBridge inclui cinco membros, entre eles o Instituto de Moeda Digital do Banco Popular da China e a Autoridade Monetária de Hong Kong. Outros 30 países manifestaram interesse em participar.
O mBridge Tough inspirou o BRICS Bridge, ainda em fase de testes. Esse mecanismo visa acelerar transferências internacionais, processamento de pagamentos e gerenciamento de contas entre os países participantes.
O funcionamento é descrito como simples. Em vez de converter moedas nacionais em dólares para o comércio internacional, os países do BRICS trocam diretamente suas moedas.
O Novo Banco de Desenvolvimento, banco dos BRICS estabelecido em Xangai em 2015, é apontado como o principal nó de conectividade da Ponte dos BRICS, desempenhando papel central na infraestrutura financeira.
No entanto, o processo encontra-se suspenso. Todos os estatutos do banco estão vinculados ao dólar americano, exigindo reavaliação profunda antes de uma integração plena ao BRICS Bridge.
Com o banco integrado à infraestrutura financeira dos países membros, ele poderia lidar com conversão de moeda, compensação e liquidação. O material ressalta que ainda estamos muito longe desse estágio.
BRICS Pay, interoperabilidade e o problema dos cartões
O BRICS Pay é apresentado como algo distinto. Trata-se de uma infraestrutura estratégica voltada à construção de um sistema financeiro descrito como descentralizado, sustentável e inclusivo entre países do BRICS+ e parceiros.
O sistema está em fase de projeto piloto até 2027. Até lá, os países membros devem iniciar discussões para estabelecer uma unidade de liquidação para o comércio intra-BRICS, o mais tardar em 2030.
O material enfatiza que não se trata de criar uma moeda de reserva global, mas de oferecer uma opção paralela e compatível ao SWIFT dentro do ecossistema dos BRICS.
Na prática inicial, o BRICS Pay é descrito como simples. Turistas e viajantes a negócios podem utilizá-lo sem abrir conta bancária local ou trocar moeda fisicamente.
Basta vincular cartões Visa ou Mastercard ao aplicativo e pagar por meio de código QR. Esse modelo, contudo, revela um problema considerado crucial pelo texto-base.
A dependência de Visa e Mastercard mantém o sistema sob vigilância do sistema financeiro dos Estados Unidos, limitando a autonomia pretendida pelos BRICS.
O desafio passa a ser incorporar cartões de membros do BRICS, como UnionPay da China e Mir da Rússia, contornando a infraestrutura dominada por empresas ocidentais.
Para transações maiores e mais complexas, o problema persiste. Contornar o SWIFT continua sendo o principal obstáculo técnico e político para a consolidação de sistemas alternativos.
Todos os testes do laboratório dos BRICS precisam resolver dois pontos centrais. O primeiro é a interoperabilidade das mensagens, com formatos de dados seguros e padronizados.
O segundo é o processamento da liquidação propriamente dita, envolvendo a movimentação de fundos pelas contas dos bancos centrais, evitando a ameaça constante de sanções.
CIPS, Bancor e o debate sobre moeda de reserva
O professor Michael Hudson é citado como referência global no estudo de soluções para minimizar a hegemonia do dólar. Ele defende que o caminho de menor resistência é seguir o sistema chinês já existente.
Esse sistema é o CIPS, Sistema Internacional de Pagamentos da China, baseado no yuan e utilizado por participantes em 124 países da maioria global, segundo o material.
Hudson reconhece as dificuldades de criar uma alternativa do zero. Ele avalia positivamente o princípio da Unidade, supostamente composta por 40% em ouro e o restante em moedas dos membros.
No entanto, sustenta que essa solução seria melhor implementada por meio de um novo banco central nos moldes de Keynes, capaz de denominar dívidas e liquidar desequilíbrios entre países.
Essa proposta remete ao Bancor, sugerido por Keynes em Bretton Woods, em 1944, para evitar desequilíbrios externos graves, protecionismo e exploração financeira entre nações.
O Bancor foi vetado pelos Estados Unidos no pós-guerra, quando o país consolidava sua posição hiper-hegemônica no sistema financeiro internacional.
Em artigo sobre a instrumentalização do comércio de petróleo, Hudson argumenta que a liberdade de exportação de petróleo da Rússia e da Venezuela enfraqueceu a capacidade dos Estados Unidos de usar o petróleo como arma econômica.
Esse fornecimento não controlado teria sido visto como violação da ordem internacional baseada em regras estadunidenses, ao reduzir o poder de coerção energética.
Hudson aponta que criar pontos de estrangulamento no fornecimento de petróleo é um dos principais meios pelos quais os Estados Unidos tornam outros países inseguros economicamente.
Ele resume cinco imperativos atribuídos ao sistema hegemônico: controle do comércio mundial de petróleo, precificação em dólares, reinvestimento dos lucros nos Estados Unidos, desestímulo a energias alternativas e ausência de limites legais às políticas adotadas.
Propostas do Sul Global e o fator China
Paulo Nogueira Batista Jr., cofundador do Novo Banco de Desenvolvimento e vice-presidente entre 2015 e 2017, apresenta proposta paralela à de Hudson para uma nova moeda internacional.
Ele descreve o sistema do dólar como ineficiente, não confiável e perigoso, caracterizando-o como instrumento de chantagem e sanções econômicas.
Batista Jr. argumenta que a única alternativa com alguma viabilidade seria a internacionalização em larga escala da moeda chinesa, embora reconheça a relutância chinesa em avançar rapidamente nesse caminho.
Diante disso, propõe a criação de uma nova moeda por um grupo de 15 a 20 países do Sul Global, incluindo a maioria dos BRICS e outras nações emergentes de renda média.
Essa iniciativa exigiria a criação de uma nova instituição financeira internacional, um banco emissor com função exclusiva de emitir e colocar em circulação a nova moeda.
A proposta se assemelha ao Bancor. O banco emissor não substituiria bancos centrais nacionais, e a nova moeda circularia apenas em transações internacionais, sem uso doméstico.
A moeda seria baseada em uma cesta ponderada das moedas dos países participantes, flutuando conforme as variações dessas moedas, em um arranjo descrito como tecnicamente viável.
Os pesos na cesta seriam definidos pela participação do PIB em paridade do poder de compra de cada país no total agregado, conferindo maior peso às maiores economias.
O elevado peso da moeda chinesa, emitida por uma economia sólida, favorecería a confiança no lastro da nova moeda, segundo Batista Jr., ainda que isso gere tensões políticas.
Ele reconhece o risco de reações negativas do Ocidente, incluindo ameaças e sanções contra países envolvidos, mas ressalta a urgência do momento histórico.
Os custos de manutenção da hegemonia são descritos como crescentes e proibitivos. O BRICS, ao se preparar para sua cúpula anual na Índia, é instado a capitalizar essa janela estrutural.
O texto conclui que o sistema hegemônico se aproxima de um ponto em que perderá a capacidade de impor sua vontade unilateralmente, exceto por meio de uma guerra total, cenário considerado extremo e instável.




