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A história incrível do artesão que calçou Lampião, transformou sandálias do cangaço em luxo e manteve viva uma tradição nordestina por gerações

Um encontro inesperado no sertão deu origem às sandálias mais simbólicas da cultura nordestina

Nos anos 1930, em Nova Olinda, na Região do Cariri cearense, um episódio aparentemente comum mudaria para sempre a história do artesanato em couro no Nordeste. Naquele período, o artesão Raimundo Velozo, conhecido como Raimundo Seleiro, trabalhava em seu ateliê produzindo selas de couro para cavalos, atividade tradicional na região. No entanto, certo dia, um homem desconhecido sentou-se ao alpendre do local e, com postura intimidadora, fez um pedido incomum.

“Pode me chamar de Raimundo Seleiro”, respondeu o artesão quando o forasteiro perguntou seu nome. Em seguida, o visitante, vindo de Pernambuco, apresentou um rascunho em papel e foi direto ao ponto: precisava de alpargatas com solado retangular e voltaria em um mês para buscá-las. Inicialmente, Raimundo explicou que não produzia calçados, apenas selas. Ainda assim, diante da situação, completou que daria um jeito “para um amigo”.

Naquele momento, ele não sabia, mas estava diante de um dos homens do bando de Lampião. Poucas semanas depois, ao retornar para buscar a encomenda, o forasteiro revelou sua identidade. Temendo represálias, Raimundo dispensou o pagamento. Como retribuição, recebeu posteriormente um punhal de valor afetivo, enviado pelo próprio líder do cangaço. Assim, nasciam as sandálias que se tornariam um símbolo histórico e cultural do Nordeste brasileiro.

A informação foi divulgada pelo Diario de Pernambuco, que resgatou a trajetória do artesão e o impacto dessa criação na cultura regional, conforme reportagem original publicada pelo veículo.

O solado quadrado que confundia rastros e virou referência histórica

O modelo encomendado por Lampião se diferenciava completamente das alpargatas tradicionais da época. Em vez do solado arredondado, as sandálias apresentavam solados quadrados e retangulares, uma estratégia pensada para dificultar a perseguição ao bando de cangaceiros. Dessa forma, pelas pegadas deixadas no chão, tornava-se impossível identificar a direção seguida pelo grupo.

Com o passar dos anos, Raimundo Seleiro passou a dominar também a confecção das alpargatas, estendendo sua habilidade com o couro para além das selas. Esse conhecimento, portanto, foi transmitido ao filho, Espedito Seleiro, que herdou não apenas a técnica, mas também a responsabilidade de manter viva a tradição.

Atualmente, os solados retangulares são produzidos apenas sob encomenda, enquanto os demais modelos seguem o formato tradicional. Além disso, ao longo das décadas, as sandálias ganharam nomes inspirados no cangaço, como Lampião e Maria Bonita, que permanecem entre os modelos mais procurados.

Embora o desenho e o recorte do couro mantenham fidelidade ao período original, Espedito introduziu detalhes coloridos, tornando cada par único. “O formato é o mesmo da época do meu pai, mas acrescentei cores. Cada par é exclusivo”, explica o artesão. As alpargatas são feitas à mão, e cada par leva cerca de dois dias para ficar pronto.

Do sertão às passarelas: a consagração de Espedito Seleiro na moda e na cultura

Ao longo dos anos, o trabalho artesanal de Espedito ultrapassou as fronteiras do Cariri. Aos 76 anos, ele coordena uma associação familiar com 22 pessoas, entre filhos, netos, sobrinhos, noras e genros. Além disso, as sandálias podem ser encomendadas em todo o Brasil, com preços que variam entre R$ 85 e R$ 120.

No universo da moda, Espedito ganhou destaque ao participar de desfiles importantes. Em 2005, cruzou as passarelas pela primeira vez em um desfile da grife Cavalera, na São Paulo Fashion Week. Posteriormente, colaborou com outras marcas, além de ceder peças para o teatro, a televisão e o cinema. Em 2007, por exemplo, calçou o ator Marcos Palmeira no filme O homem que desafiou o diabo.

Segundo o artesão, o sucesso das alpargatas se explica pela união entre exclusividade, característica essencial da moda de luxo, e o valor afetivo da cultura regional. “Quando você vê um trabalho com cara de ter sido feito por um cabra bem sertanejo, você sabe que é meu”, resume.

Além disso, Espedito mantém, em seu ateliê, o Museu do Couro, em Nova Olinda (CE). No espaço, estão expostas peças icônicas da carreira, como os primeiros pares confeccionados e as sandálias de solado retangular semelhantes às usadas pelo bando de Lampião.

FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS

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