Município mineiro ergueu ruas, casas e igrejas sobre um maciço de quartzito, mistura lendas místicas, economia mineral e um patrimônio histórico único no Brasil
As ruas são de pedra. As paredes das casas também. Igrejas, muros, calçadas e até a delegacia seguem a mesma lógica. Em São Thomé das Letras, no sul de Minas Gerais, tudo parece nascer da própria rocha que sustenta a cidade a 1.440 metros de altitude, no topo da Serra da Mantiqueira. Com cerca de 7 mil habitantes, o município se tornou conhecido nacionalmente como a “Cidade Mística”, reunindo geologia singular, histórias religiosas, lendas esotéricas e uma economia literalmente baseada na pedra.
Ao mesmo tempo em que desperta curiosidade por seus relatos de túneis secretos e fenômenos inexplicáveis, São Thomé das Letras guarda uma característica rara: foi construída sobre um enorme depósito natural de quartzito, material que moldou não apenas a paisagem urbana, mas também a identidade cultural e a principal atividade econômica local.
A informação foi divulgada em reportagens históricas e turísticas publicadas por portais especializados, além de registros técnicos de instituições oficiais ligadas ao patrimônio e à geologia brasileira.
A montanha de quartzito que virou cidade e sustenta a economia local

Do ponto de vista geológico, São Thomé das Letras está assentada sobre um depósito de quartzito do período Neoproterozoico, uma formação rochosa com centenas de milhões de anos. A partir da década de 1940, a extração da chamada “pedra São Tomé” passou a movimentar a economia local, transformando o município em um dos principais polos produtores desse tipo de rocha ornamental no país.
O quartzito da região é amplamente valorizado por uma característica técnica importante: não retém calor, o que o torna ideal para bordas de piscinas, pisos externos, fachadas e revestimentos arquitetônicos. Por isso, a pedra extraída em São Thomé das Letras é comercializada em diversas regiões do Brasil e também no exterior.
Em 2024, essa relevância foi oficialmente reconhecida quando o Instituto Nacional da Propriedade Industrial concedeu ao quartzito local o registro de Indicação Geográfica, certificando a origem e a qualidade exclusiva do material extraído na região.
Esse vínculo entre geologia e urbanismo é visível no centro histórico. Casas e muros são montados com lascas de pedra empilhadas sem uso de argamassa, em um sistema de encaixe que lembra técnicas medievais. Em razão desse valor arquitetônico, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais tombou o centro histórico e a Igreja Matriz em 1996, garantindo proteção legal ao conjunto urbano.
A lenda do escravo, a gruta e a origem do nome da cidade
A origem do nome São Thomé das Letras está ligada a uma das histórias mais antigas e simbólicas do município, que remonta ao final do século XVIII. Segundo a tradição local, o escravo João Antão, fugido da fazenda do Capitão João Francisco Junqueira, teria se escondido em uma gruta no alto da serra.
Ainda conforme a lenda, um homem vestido de branco teria aparecido no local e entregue ao escravo uma carta escrita com perfeição. Ao levar o bilhete ao fazendeiro, João Antão teria recebido a alforria. Na mesma gruta, foi encontrada uma imagem de São Tomé, fato que impressionou o proprietário da fazenda.
Como consequência, Junqueira ordenou a construção de uma capela ao lado da gruta. A atual Igreja Matriz, iniciada em 1785, ocupa esse mesmo ponto até hoje e preserva pinturas em estilo rococó atribuídas a Joaquim José da Natividade, um dos nomes relevantes da arte sacra mineira.
O complemento “das Letras” faz referência às inscrições rupestres encontradas na gruta original, ainda visíveis para visitantes. Esses registros reforçam o caráter histórico e arqueológico do local, muito antes da consolidação do município.
Grutas, pirâmide, cachoeiras e o turismo místico da serra
Atualmente, São Thomé das Letras concentra uma série de atrações naturais e culturais acessíveis a partir do centro urbano. Grutas, mirantes, trilhas e cachoeiras fazem parte do cotidiano turístico da cidade, com roteiros frequentemente acompanhados por condutores locais credenciados pela prefeitura.
Entre os principais pontos estão a Casa da Pirâmide, localizada no ponto mais alto do Parque Municipal Antônio Rosa, famosa pela vista panorâmica de 360 graus e por um dos pores do sol mais fotografados de Minas Gerais. A Gruta de São Thomé, ao lado da Igreja Matriz, segue como referência histórica e religiosa. Já a Pedra da Bruxa atrai visitantes por suas formações rochosas curiosas e pela vista ampla da serra.
Outro destaque é a Igreja de Pedra (Nossa Senhora do Rosário), construída por pessoas escravizadas no século XVIII com lascas de quartzito empilhadas sem argamassa e tombada pelo patrimônio estadual em 1985. Nos arredores, cachoeiras como Eubiose, Véu de Noiva e Sobradinho complementam o roteiro com quedas d’água cercadas por campo rupestre e mata nativa.
Além disso, vídeos de viagem e roteiros completos produzidos por criadores de conteúdo ampliaram a visibilidade do município nos últimos anos, reforçando seu apelo místico e natural.
O mito do túnel secreto e a gruta que nunca teve fim
Entre todas as histórias associadas à cidade, nenhuma é tão famosa quanto a da Gruta do Carimbado, localizada a cerca de 6 km do centro, na estrada para São Bento do Abade. Segundo moradores e entusiastas do misticismo, a caverna seria um suposto portal subterrâneo que conectaria São Thomé das Letras a Machu Picchu, a aproximadamente 4 mil quilômetros de distância.
Do ponto de vista técnico, a Sociedade Brasileira de Espeleologia registrou apenas 212 metros topográficos explorados, sem qualquer evidência de túneis transcontinentais. Ainda assim, o imaginário popular permanece forte, especialmente após a exibição da minissérie Filhos do Sol, da Rede Manchete, em 1991, que usou a cidade como cenário para uma trama envolvendo extraterrestres e civilizações subterrâneas.
Atualmente, a Gruta do Carimbado está interditada por decisão judicial, mas atrações próximas, como a Ladeira do Amendoim, seguem abertas. No local, carros em ponto morto parecem subir sozinhos, um fenômeno explicado pela física como ilusão de óptica, mas que continua intrigando visitantes.
Clima, altitude e a melhor época para visitar a cidade de pedra
A altitude de 1.440 metros influencia diretamente o clima local. Mesmo no verão, as noites costumam ser frescas, enquanto o inverno pode registrar temperaturas próximas de 6°C. O período seco, entre maio e setembro, é considerado o mais indicado para trilhas, mirantes e observação do céu limpo, que alimenta relatos frequentes de avistamentos luminosos.
Segundo dados de referência do Climatempo, as temperaturas médias variam entre 6°C e 27°C, dependendo da estação, com maior volume de chuvas no verão, quando as cachoeiras ficam mais cheias e propícias para banho.
Como chegar a São Thomé das Letras
São Thomé das Letras está localizada a 346 km de Belo Horizonte e cerca de 370 km de São Paulo. O principal acesso é pela BR-381 até Três Corações, seguido pelas rodovias LMG-862 e LMG-868, com trechos asfaltados. Não há aeroporto na cidade; o mais próximo fica em Varginha, a aproximadamente 70 km. Ônibus intermunicipais partem de Três Corações, mas o carro próprio ou alugado é a opção mais prática.
Suba a serra e pise na cidade que literalmente nasce da rocha
São Thomé das Letras não é apenas um destino turístico. É um município onde geologia, história, fé e lendas se misturam no cotidiano de pouco mais de 7 mil moradores. Ali, a pedra vira casa, a gruta vira narrativa e o horizonte, visto do alto da serra, dispensa explicações.
FONTE: CLICK PETÓLEO E GÁS





