Safra recorde de maçã contrasta com escassez de trabalhadores no campo, enquanto produtores alertam para perdas crescentes, risco às exportações e impacto econômico em cadeia diante do temor de beneficiários do Bolsa Família de perderem renda ao aceitar emprego formal. A safra brasileira de maçã 2025/26 começou sob expectativa de forte recuperação, com projeções de até 1,15 milhão de toneladas e embarques próximos de 60 mil toneladas, mas produtores relatam perdas crescentes porque falta gente para colher no ritmo exigido.
Estimativas divulgadas por entidades e veículos do setor apontam que o volume deve ficar entre 1,05 milhão e 1,15 milhão de toneladas, o que representa avanço relevante sobre a temporada anterior, quando a colheita foi citada em torno de 850 mil toneladas. Apesar do foco majoritário no mercado interno, exportadores e associações do setor vêm sinalizando ampliação das vendas externas para 2026, com mais mercados atendidos e uma meta de 60 mil toneladas, patamar bem acima do recente histórico brasileiro.
Falta de mão de obra na colheita de maçã preocupa produtores
A euforia inicial perdeu força conforme a colheita avançou e vídeos nas redes sociais passaram a mostrar maçãs se acumulando no chão, cenário atribuído por produtores à falta de trabalhadores disponíveis, sobretudo nas áreas tradicionais da Serra Catarinense.Embora os relatos apareçam com mais frequência em Santa Catarina, a Associação Brasileira dos Produtores de Maçã afirma que a escassez de mão de obra se repete com maior regularidade a cada ano e afeta diferentes polos produtivos.

Segundo o diretor executivo da entidade, Moisés Lopes de Albuquerque, a ausência de um contingente minimamente adequado para a colheita faz parte da produção se perder, elevando o custo por unidade e pressionando preços ao consumidor.Na avaliação dele, um fator central é o receio de trabalhadores que recebem programas de transferência de renda. “O maior problema que identificamos é o temor dos trabalhadores beneficiários de programas sociais do governo, como o Bolsa Família, de perderem o benefício [caso aceitem trabalho formal]”, afirmou.
Bolsa Família e carteira assinada no trabalho rural
O Bolsa Família tem uma chamada Regra de Proteção que permite que famílias que aumentem a renda e ultrapassem o limite de entrada permaneçam por um período recebendo parte do benefício, como forma de transição e estímulo à autonomia financeira. A regra foi atualizada em 2025, com mudanças para novos ingressantes a partir do meio do ano, incluindo limites de renda por pessoa e prazos de permanência diferentes conforme o grupo, mantendo o objetivo de evitar corte imediato.
Ainda assim, a associação defende um arranjo que reduza o medo de formalização em atividades sazonais e propõe que famílias enquadradas em programas sociais possam manter o benefício mesmo com contrato formal, argumentando que isso ampliaria a renda e a oferta de mão de obra.
Produtores relatam dificuldades para contratar na safra 2025/26
Em Urubici, na Serra de Santa Catarina, o produtor Mariozan Correa afirma que iniciou a colheita com menos trabalhadores do que considera necessário para uma área de 14 hectares, num período em que o calendário do pomar exige rapidez para reduzir perdas e manter padrão de qualidade. Ele diz ter conseguido contratar dez pessoas, quando o ideal seria ao menos doze, e relata que formaliza a equipe pela CLT. “Eu contrato por CLT, com carteira assinada, com todos os direitos assegurados e pago entre R$ 2.500 e R$ 3.000 mensais”,

De acordo com o produtor, o gargalo se acentuou nos últimos três anos e também é associado aos benefícios sociais, porque parte dos trabalhadores evita contratos curtos por temer perder a renda mensal.“Não querem arriscar a perda desse dinheiro por um contrato de poucos meses”, relatou.Correa afirma que, no seu caso, não houve perda direta de produção até agora, mas diz conhecer fruticultores que já contabilizaram prejuízos.
Ele também descreve diferenças entre variedades e afirma que a maçã fuji demanda colheita mais intensa por amadurecer mais rápido, ao contrário da maçã gala, que permanece por mais tempo na árvore.
Tecnologia avança, mas não substitui colheita manual
Ao mesmo tempo, a entidade aponta investimentos em tecnologias de condução de pomares, plataformas de colheita e modernização industrial para ganhar produtividade e reduzir desperdícios, tentativa de compensar um mercado de trabalho menos disponível em períodos de pico.Mesmo com esse movimento, Albuquerque sustenta que a colheita segue dependente de mão humana em escala comercial.
“Ainda não existe no mundo uma tecnologia que permita substituir em escala industrial a mão humana para realizar a coleta dos frutos a campo”, disse. O executivo também afirma que o setor oferece vagas com carteira assinada e estrutura de apoio aos trabalhadores, mencionando treinamento, equipamentos de proteção, assistência e alojamentos dentro de normas trabalhistas, como parte do esforço para atrair e manter equipes.
Exportações de maçã e impacto econômico na cadeia produtiva
A projeção de exportar 60 mil toneladas em 2026 foi citada em eventos e reportagens do setor, com expectativa de maior presença brasileira em mercados como Índia, Reino Unido e países do Oriente Médio, além de outros destinos apontados por publicações especializadas.Em Santa Catarina, dados estaduais também indicam recuperação relevante da oferta, com estimativa de alta de 27,9% na produção nas principais regiões produtoras em relação à safra anterior, reforçando o peso da colheita no resultado econômico local.
Para a associação, a falta de mão de obra não se limita ao pomar e pode afetar toda a cadeia. A entidade argumenta que menos atividade reduz a demanda por insumos e serviços, com reflexos em comércio, prestadores e empregos indiretos ligados à produção e à logística.
A reportagem informou que procurou o Ministério do Trabalho e Emprego para saber se há discussões sobre benefícios sociais e carteira assinada, mas não registrou resposta até a publicação, mantendo o espaço aberto para manifestação, enquanto produtores seguem em plena colheita.




