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Belo Vale, MG – Audiência Pública da Vale, acontece em momento de enfrentamentos ambientais

Foto: divulgação, sem data. Vale pretende instalar Pilha de Estéril (PDRE) ao lado da Barragem Marés II e no entorno de Tombamento das “Ruinas das Casas Velhas”, patrimônio do século XVIII.


A Vale realizará Audiência Pública, em 05/03/2026, às 19 h, na Escola Municipal Prefeito João Eustáquio, como etapa do licenciamento ambiental. A empresa irá  apresentar projetos para a Barragem Marés IIcontenção de sedimentos com 240.000 m³ – e de uma Pilha de Disposição de Estéril e Rejeito (PDER), planejadas para implantação na Mina de Fábrica, Serra Dos Mascates área do Complexo Paraopeba. O licenciamento ambiental está em andamento sob Licença Prévia (LP).

A Audiência Pública acontece em um momento que, o município está enfrentando sérias questões ambientais, a exemplo de uma inundação ocorrida por chuvas torrenciais, provavelmente, com origem em área de mineração, o que provocou danos e inundações em propriedades. A perda de qualidade da água fornecida pela COPASA vem causando impacto e prejuízos, sendo, inclusive, motivo de representações à Promotoria da Comarca de Belo Vale. Ademais, se comentam sobre uma possível instalação de um “Rejeitoduto”, que está causando polêmicas. A população mostra-se não satisfeita com essas questões, em publicações de redes sociais.

Um breve histórico do empreendimento da Vale

Foto: Glória Maia (Fia). O Boletim de Ocorrência identificou que três nascentes foram afetadas pelo desmatamento de 70 hectares de vegetação.

Esse projeto da Vale trata-se de um longo processo que se arrasta desde 2004. Naquele momento, a Associação do Patrimônio Histórico, Artístico e Ambiental de Belo Vale (APHAA-BV), em parceria com o Ministério Público, ajuizou Ação Civil Pública na Comarca de Belo Vale e 3ª. Vara da Fazenda Pública Estadual e Autarquias da Comarca de Belo Horizonte – Autos 1788/2004 e 02404462540-8 – contra a Companhia Vale do Rio Doce – atual Vale.

Desmatamento de 70 hectares

Em 2004, a mineradora contratou a empresa “5W” que desmatou 70 hectares de floresta com variações de Mata Atlântica e Cerrado e fez intervenção em três nascentes, no início da formação do Córrego Marés, para implantar a Barragem e Pilha PDE. Junto a essa área, a Vale abriga uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Casas Velhas, com 68,77 hectares. s “Ruínas das Casas Velhas” edificada no século XVIII, patrimônio nacional tombado, é integrado ao “Sítio Arqueológico Ruinas das Casas Velhas e Calçada de Pedra”. “As Ruinas” têm tombo Municipal, localizadas em área protegida de 37,08 hectares, apesar de ter de conviver com a expansão do empreendimento.

Foto: Glória Maia. Desmatamento em área de preservação foi autorizado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF)

Até o ano 2020, houve diversas negociações na área judicial, com tentativas da Vale de instalar o projeto, que sofreu adaptações e modificações solicitadas pelos órgãos públicos, acontecidas em 2014, 2016 e 2019. A APHAA-BV e Ministério Público lutaram por manter a liminar, porém no ano de 2020, uma sentença judicial final arquivou o processo.

Os principais riscos associados à barragem de mineração

Instabilidade geotécnica; Chuvas intensas podem aumentar a pressão interna e erosão, exigindo sistemas eficientes de drenagem e controle. Impacto ambiental: risco de liberação de sedimentos e materiais no entorno, afetando corpos d’água, solo e biodiversidade. Ainda, o Dano Potencial Associado é alto; apesar da empresa dizer que a categoria de risco é baixa. O (DPA-Alto) considera o impacto que uma ruptura teria sobre vidas humanas, infraestrutura, meio ambiente, cursos d’água e patrimônio – independentemente da probabilidade de que isso ocorra. 

A região da Serra dos Mascates está sujeita a eventos climáticos intensos (episódios de vulnerabilidade de chuvas intensas e infiltrações hídricas), que podem provocar instabilidade em pilhas de rejeito, mesmo em estruturas de solo seco podem sofrer erosão superficial.

O entorno da pilha inclui córrego e nascentes que alimentam bacias hidrográficas. Se ocorrer deslocamento de material, há risco de assoreamento de cursos d’água, perda de qualidade da água e afetamento de abastecimento de comunidades locais, como Boa Morte e Pintos, além de danos à fauna e flora. 

Foto Glória Maia (Fia). Estudantes saíram em protesto pelas ruas de Belo Vale. 

Há históricos de preocupações das comunidades tradicionais de Belo Vale, ampliadas em contexto estadual pela memória de tragédias anteriores: Mariana e Brumadinho. Em 2005, estudantes e comunidade foram às ruas protestar contra ações da Vale na Serra dos Mascates.

Tarcísio Martins, jornalista, ambientalista.

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