A nascente que corre ao lado da casa de Maria Celsa nunca secou. “De quando eu nasci até hoje”, diz a parteira de 71 anos, que ajudou a trazer ao mundo mais de 50 crianças na comunidade quilombola do Peixe Bravo, no norte de Minas Gerais. É essa a água que a família dela bebe e usa para lavar roupa desde sempre.
“Água é vida”, resume à reportagem, com seu jeito calmo de contar sobre o passado misturado ao temor do que está por vir. Ela conta que a tranquilidade do lugar está mudando com o aumento da pressão de projetos de mineração na região, que já perdeu parte da sua paisagem natural para os bosques de eucalipto. O medo, segundo Celsa, é perder a nascente e ver o território ser consumido por mineradoras. “A gente fica oprimido”, diz, sentada na varanda de casa, rodeada por vasos de flores tratados com capricho.
A preocupação ficou maior depois que o Vale do rio Peixe Bravo, onde vivem povos tradicionais e onde está situada a comunidade quilombola de Maria Celsa, foi excluído da proposta de criação de uma área protegida que impediria a exploração minerária na região. A exclusão foi resultado direto da pressão de mineradoras, como a gigante Vale, prefeitos, parlamentares locais e o Ministério de Minas e Energia (MME), indicam documentos e bastidores de reuniões políticas em Brasília (DF) aos quais a Repórter Brasil e ((o))eco tiveram acesso.
A proposta de criação de uma unidade de conservação na região circula há mais de 15 anos nas mesas de ministérios do governo federal, mas foi na atual gestão do presidente Lula que, após o consenso entre organizações socioambientais e a população local, decidiu-se agregar o Vale do Peixe Bravo. Assim surgiu o projeto da então Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córregos Tamanduá-Poções-Peixe Bravo.
A área protegida de uso sustentável cobriria aproximadamente 70 mil hectares entre os municípios de Riacho dos Machados, Rio Pardo de Minas e Serranópolis de Minas, incluindo o Vale do rio Peixe Bravo. Diante da forte oposição de lideranças políticas locais à proposta, no entanto, a reserva foi reduzida a 40,8 mil hectares – uma diminuição de 41,6% – e rebatizada para RDS Córregos dos Vales do Norte de Minas. A criação da unidade de conservação foi oficializada pelo governo federal em 22 de março deste ano.
Os novos limites excluíram todo o Vale do Peixe Bravo, a comunidade quilombola, comunidades geraizeiras e as cangas ferruginosas – crostas rochosas compostas por óxidos e hidróxidos de ferro e de alumínio. Estratégicas para segurança hídrica das comunidades tradicionais da região, essas formações são cobiçadas por mineradoras. As informações às quais a reportagem teve acesso detalham como a área da reserva foi reduzida ao longo do processo de debate sobre sua implementação. E mostram como a mineração, junto com o setor da silvicultura que explora eucalipto na região, engrossaram a pressão contrária ao projeto.
Fonte: ((o))eco





