×

Terra está recebendo um misterioso sinal de rádio a 15.000 anos-luz de distância, repetindo exatamente a cada 22 minutos, há mais de 35 anos.

Sinal periódico vindo das profundezas da Via Láctea intriga pesquisadores ao revelar pulsos de rádio extremamente regulares detectados por radiotelescópios modernos e também em arquivos históricos, indicando atividade contínua por décadas e levantando novas questões sobre estrelas de nêutrons, magnetars e fenômenos raros do universo.

Astrônomos identificaram na Via Láctea uma fonte de ondas de rádio que se destaca pela regularidade incomum: o objeto GPM J1839-10, localizado a cerca de 15 mil anos-luz da Terra, emite pulsos em intervalos de aproximadamente 21 a 22 minutos e mantém esse comportamento, segundo registros disponíveis, desde pelo menos 1988.

O achado chamou a atenção da comunidade científica porque a cadência observada foge do padrão mais comum de objetos compactos conhecidos por emitir rádio no espaço.

A detecção foi consolidada a partir de observações recentes feitas com o radiotelescópio Murchison Widefield Array, na Austrália, e ganhou força quando a equipe revisou arquivos de grandes observatórios e encontrou o mesmo sinal em dados antigos.

Esse cruzamento de informações mostrou que o fenômeno não era episódico nem resultado de ruído instrumental, mas uma emissão persistente que passou despercebida por décadas porque não havia expectativa de encontrar uma fonte com esse perfil.

Pulsos de rádio com periodicidade incomum

O padrão registrado também ajuda a explicar por que o caso se tornou tão relevante.

Em vez de pulsos separados por milissegundos ou poucos segundos, como ocorre em muitos pulsares, o GPM J1839-10 produz rajadas que podem durar entre 30 e 300 segundos, com variação significativa de brilho e uma periodicidade muito mais longa do que a prevista pelos modelos clássicos para esse tipo de emissão.

Em termos práticos, trata-se de um objeto que aparece, libera energia em rádio por alguns minutos e depois desaparece até o próximo ciclo de emissão.

Esse comportamento levou os pesquisadores a enquadrar a fonte na classe dos transientes de rádio de longo período, um grupo raro e relativamente recente na astronomia moderna.

O interesse por essa categoria cresceu nos últimos anos com o avanço de levantamentos do céu em rádio e com a melhora da sensibilidade dos instrumentos, que passaram a captar sinais antes invisíveis nos grandes volumes de dados acumulados por observatórios.

A literatura científica mais recente descreve esses objetos como uma população emergente cuja origem ainda não possui uma explicação única ou definitiva.

Hipótese científica envolve magnetar de rotação lenta

A principal hipótese discutida no momento é a de que o GPM J1839-10 esteja ligado a um magnetar de período ultralongo, isto é, uma estrela de nêutrons com campo magnético extremo e rotação muito mais lenta do que o observado em outros objetos semelhantes.

Magnetars são remanescentes compactos de estrelas massivas que explodiram como supernovas e costumam ser associados a fenômenos energéticos intensos e campos magnéticos extremamente poderosos.

Mesmo assim, o próprio estudo ressalta que a fonte observada desafia modelos tradicionais porque um objeto girando tão lentamente estaria numa região em que, teoricamente, a emissão regular de rádio já deveria ter cessado.

Esse ponto se tornou central para entender por que a descoberta despertou grande interesse entre astrofísicos.

Segundo a equipe responsável pelo estudo, o objeto parece estar abaixo da chamada “linha da morte” dos modelos de emissão por rotação, um limite teórico que indica quando uma estrela de nêutrons deixaria de produzir feixes de rádio detectáveis a partir da Terra.

Apesar disso, o GPM J1839-10 continua emitindo pulsos regulares, sugerindo que existe algum mecanismo físico ainda não completamente descrito pelos modelos atuais.

Arquivos astronômicos revelaram histórico de décadas

A análise de registros históricos teve papel decisivo para confirmar a natureza persistente do fenômeno.

Depois de identificar a fonte no céu e determinar suas características principais, os pesquisadores buscaram o mesmo padrão em observações antigas realizadas por grandes radiotelescópios internacionais.

Foi nessa etapa que surgiram registros compatíveis que remontam a 1988, ampliando drasticamente a linha do tempo conhecida para a atividade da fonte.

Esses dados indicam que o objeto vem emitindo pulsos por mais de três décadas, possivelmente muito mais tempo do que os registros disponíveis conseguem demonstrar.

Além de confirmar a longevidade da emissão, o histórico prolongado permite aos cientistas impor limites mais rigorosos às hipóteses sobre a origem do sinal.

O acompanhamento em escalas de tempo tão longas ajuda a medir variações no período de rotação e a testar diferentes cenários físicos capazes de explicar o comportamento observado.

Fenômeno natural ainda desafia modelos da astrofísica

Até o momento, não há evidências confiáveis de que o sinal tenha origem artificial.

Embora a regularidade das emissões possa parecer incomum fora do contexto científico, os dados apontam para processos naturais associados à física extrema de objetos compactos, como estrelas de nêutrons e magnetars.

O que torna o GPM J1839-10 especialmente relevante é o fato de ele existir em uma região teórica onde esse tipo de emissão seria improvável segundo os modelos tradicionais.

Por esse motivo, a descoberta passou a ser considerada um elemento importante para revisar ou refinar teorias sobre a evolução de estrelas de nêutrons e sobre a dinâmica de campos magnéticos extremos.

Novos radiotelescópios podem revelar sinais semelhantes

A identificação dessa fonte também destaca o valor científico de revisitar bases de dados astronômicos acumulados ao longo de décadas.

Observações antigas podem ganhar novo significado quando analisadas com técnicas modernas e com perguntas científicas diferentes daquelas que motivaram os levantamentos originais.

Esse tipo de abordagem permite que sinais ignorados ou não reconhecidos no passado sejam reinterpretados à luz de novos modelos e novas capacidades instrumentais.

À medida que radiotelescópios mais sensíveis entram em operação e grandes levantamentos do céu continuam sendo realizados, cresce a expectativa de que outros transientes de rádio de longo período sejam identificados.

Com um número maior de exemplos disponíveis para comparação, os pesquisadores esperam compreender melhor os mecanismos físicos responsáveis por esse tipo incomum de emissão cósmica.

Fonte: Click Petroleo e Gas

Receba Notícias Em Seu Celular

Quero receber notícias no whatsapp