Um grande público tomou conta da avenida JK, na noite da sexta-feira (23/10), para comemorar os 50 anos do Bar do Caminhão, um dos mais tradicionais do interior mineiro. E fama não surge por acaso. Quando o evento foi anunciado pelas redes sociais e pelo rádio, quem é cliente tradicional do bar ou não já sabia o que o esperava. Ali na esquina com a rua Pacífico Homem Júnior, a cerveja que não está quase congelando nem sai do refrigerador. O cardápio de porções é outra fama que corre longe, principalmente o torresmo. Não bastasse isso, na festa de aniversário, os organizadores ofereceram ao público shows com o talento local das bandas Samba de Sinhá!, Jéssica e Wellington e DJ. Feroz.
O evento começou a ser planejado por amigos e frequentadores do estabelecimento juntamente com membros da família dos irmãos Antônio Clementino Carvalho, o Caminhão, e José Agenor Carvalho. Quando os dois ficaram sabendo, o jeito foi se prepararem para homenagem, sem o direito de dizer não. “Eu fico muito satisfeito! Eu fiquei sabendo da festa uns 15 dias atrás. No 7 de setembro, mesmo tendo chovido, o pessoal veio para cá, o Edinho da Dular e a Priscila Lobo e me perguntaram quantos anos faz que abrimos o bar, mas eles já sabiam. Então disseram que estavam preparando a festa juntamente com o Valdir [do Frango] e a Sabrina, minha filha”.
A expressão empresa familiar se justifica neste caso por muitos aspectos: o bar é fruto da sociedade de dois irmãos, conta no dia a dia com o apoio de outras pessoas do ceio familiar, o respeito sempre tem de prevalecer no recinto frequentado por maridos, esposas e seus filhos, namorados e namoradas e amigos que querem simplesmente aproveitarem a noite, sem aborrecimentos. Mas há ainda um outro motivo que é presente do destino. As portas se abriram cinco décadas atrás, em 26 de outubro de 1976. Oito anos depois, na mesma data, nascia Sabrina, filha de Caminhão. Apesar de participar da organização do evento, ela foi surpreendida ao receber uma homenagem, o ‘parabéns pra você’ cantado pela banda Samba de Sinhá, o que deixou a todos emocionados.





Ana Gabriela Dutra, filha de José, leu um texto em homenagem aos dois sócios.
A Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Congonhas (ACISC) e pelo Sindicato do Comércio de Congonhas (Sindicomércio) entregaram aos dois irmãos uma placa comemorativa aos 50 anos do Bar do Caminhão. Grande parte do sucesso do bar se deve aos membros da família e aos colaboradores. “Minha esposa, filha e filho, assim como a mulher e filhos do José sempre nos ajudam no bar. Tem também a minha irmã Maria Aparecida Carvalho. Meu irmão Mozart de Carvalho, que já faleceu, também era nosso braço direito, ele era o pivô de tudo, tinha as ideias dele pra enfeitar aqui no Carnaval e no Natal. Aí depois que ele morreu, não fizemos mais nada. Que Deus o tenha! [voz embargada]. Também preciso agradecer aos meus funcionários, como é o caso do Gilberto, que está há 20 anos comigo. Hoje a mão de obra está difícil”, reconhece Caminhão.
Trabalhar em uma empresa familiar não significa que vá sobrar tempo para a devida convivência com todos os membros dela. “Meus filhos cresceram e eu não vi eles crescendo. Hoje, a gente vive os netos. Antigamente, a gente abria o bar às 7h [da manhã] e fechava à meia-noite, 1h. Hoje não, abrimos às 18h e vamos até à meia noite, o que adotamos após a pandemia. A minha vida e a do José é, praticamente, atrás do balcão trabalhando. Férias, a gente conta nos dedos quantas a gente tirou, nenhuma. Trabalhamos de quarta à segunda-feira”.
Do jeito que o freguês gosta
O Bar do Caminhão é o lugar pra onde trabalhadores que gostam do ambiente saudável de um buteco, sejam eles da mineração, do comércio, serviços, incluindo a Prefeitura, vão após o serviço.
“A cerveja é bem gelada. Eu gosto de cerveja bem gelada, tomar cerveja quente, isso não é comigo. E o tira-gosto é que o pessoal gosta, do início até hoje. O torresmo é o campeão de vendas. Normalmente, é o José [irmão] que o faz durante o dia. O preparo começa cerca de 2 ou 3 horas antes. As outras porções também têm muita saída, seja a maçã de peito, peixe frito, contrafilé, porção de fritas, feijoada na sexta-feira e o caldo de feijão na época de frio. Eu ofereço ao meu cliente o serviço que eu quero receber quando sou cliente”, garante.
Por falar na clientela, que é a razão da existência do bar, Caminhão cita três fregueses que batem ponto quase todo dia, mas faz a ressalva de que há uma lista enorme de frequentadores fiéis. “A clientela aqui antigamente era a juventude. Hoje os clientes já estão no 40+. Tem os fregueses do dia a dia. Por exemplo, o Afonso Pedro, o Altair e o Sargento, que me acompanham desde o Quarteirão Açominas. Tem algumas senhoras que gostam de vir pegar o torresmo e levar pra casa”, conta o sócio. A qualidade das porções atrai muita gente que as busca para comer em casa.
Disciplina
Quem acha que bar é a “casa da Mãe Joana”, então não conhece este da esquina da av. JK com rua Pacífico H. Júnior. ““Eu sempre joguei pesado. Inclusive o pessoal diz que o Caminhão tem uma cara fechada. É natural, minha cara sempre foi essa. O que a gente tem hoje, se a gente não mantiver o ambiente familiar no bar que é frequentado por esposas e moças, a gente perde. Porque tem uns engraçadinhos que gostam de aparecer. Quando eu vejo, eu corto na hora. O que eu tenho de falar, eu não mando recado, eu falo na cara. Graças a Deus, tem as pessoas que gostam da gente, outras não, mas é isso aí”.
O início
Antônio e José são filhos de Antônio Saint Clair Carvalho e Ana dos Santos Carvalho. De olho no futuro dos filhos, o casal via como uma boa alternativa o empreendedorismo. “Meu pai sempre quis que a gente mexesse com comércio. Foi a força foi dele que nos fez chegar até aqui, porque comprou e pagou o necessário para abrirmos a lanchonete e bar”.
O atual endereço do Bar do Caminhão é o terceiro do empreendimento. A inauguração ocorreu como Lanchonete Carvalho, em uma casa antiga da rua Padre Antônio Corrêa, onde funciona atualmente o Boticário. “Lá era um cômodo pequeno, mas vendíamos [lanche e bebidas] demais da conta. Na sexta-feira, sábado e domingo, a lanchonete bombava”, lembra Caminhão. O local já abrigou também o Açougue do Manoel e o Tim Cardoso. Este último ficava na esquina com a av. Marechal Floriano Peixoto.
Depois, a lanchonete se transferiu para alguns metros à frente, já no Quarteirão Aço Minas, que também foi outro local marcante para o estabelecimento comercial, lembra Caminhão. “No início, era uma rua aberta, até que o prefeito Altary de Souza a fechou e depois seu sucessor Gualter Monteiro a abriu de novo. No Quarteirão, já aprimoramos mais os serviços, já tinha pão com linguiça e a moelinha, que a gente vendia, em média, 30 kg por fim de semana. Esta era a época do Clube Esportivo, que, como nossa lanchonete, funcionava nos três dias [sexta, sábado e domingo]. O período coincidiu com o início da obra da Açominas, muitos trabalhadores moravam em Congonhas, havia dinheiro girando no comércio, vendia-se muita cachaça. Tinha um pessoal que morava no Laércio. Tinha o Bem Rock, que me dizia pra quem, dos que trabalhavam na obra, eu podia vender pra pagar por semana. Um deles não quis me pagar, o Bem Rock foi lá pegou o dinheiro do cara e me pagou. Outra lembrança que tenho é que, durante o Plano Cruzado, a gente tinha de sair de madrugada igual loucos para procurar cerveja nas distribuidoras pra vender no Quarteirão, que foi um momento muito bom!”.





O nome do bar
“Quando mudamos para a avenida JK, meu contador, o Aloísio Rossi, me disse: você tem de usar seu apelido como nome do bar]. Meu pai não gostava do meu apelido de jeito nenhum. O atual local se chamava Franeli. Aí colocamos o nome Bar do Caminhão. O meu apelido vem desde criança, isso você apelou, pegou, né?”, brinca o proprietário.
Torneio de Férias
Uma tradição congonhense relaciona o Bar do Caminhão ao esporte. No meio do ano, durante a realização do Torneio de Férias de Futsal, membros das equipes como o Kosmus, Bat’s, SUMA, Portela, entre outras, a torcida, radialistas e equipes da Prefeitura vão para o Bar do Caminhão.
Momento marcante
A covid-19 teve seu período mais avassalador entre 2020 e 2022, provocando mortes pelo mundo e prejudicando as relações pessoais e comerciais. O Bar do Caminhão também foi afetado, como não poderia ser diferente. “A gente passou um aperto daqueles, mas Deus ajudou que nós sobrevivemos. Antes a gente até já havia trabalhado com tele-entrega, não era aqui, era na casa do José, que fez uma cozinha pra isso. Passado um tempo, ele adoeceu, ficou meio difícil e paramos. Aí quando surgiu a pandemia, foi a tele-entrega o que nos salvou”.
Um grande evento também pode ser um problema para um bar que funciona com regras rígidas. O Carnaval de 2020 foi o último em que o Bar do Caminhão ficou de portas abertas. “Passei um problema sério naquele ano. A casa estava cheia de famílias e crianças, a polícia usou gás e a situação ficou feia. O José já dizia que a gente tinha de fechar no Carnaval e acabamos adotando essa medida. Depois de 2020, fiquei sabendo que os dois últimos carnavais foram muito tranquilos, por conta da operação de segurança adotada, mas, por enquanto, Carnaval não”, assegura o proprietário.
Dono de bar frequenta bar?
Como gosta de bar, nos dias de folga, Caminhão vira freguês. “ Vira e mexe, a gente passa lá no Carlinhos, na Vila Andreza, porque os amigos da gente estão lá também. Costumo sair pra tomar uma cervejinha. Estava meio parado desde julho, terminei os remédios domingo, agora estou bem da coluna, graças a Deus! Pra tira-gosto, gosto muito do torresminho, costelinha de porco e frango com quiabo. Costumo sair com o Gilberto e o Valdir”, admite.
E o recado final de Caminhão vai para que está começando no comércio. “Eu vou te falar, a pessoa que entrar no comércio hoje tem de ter muita coragem, porque é difícil, não é só abrir as portas e colocar as coisas lá dentro. O dia a dia é complicado e, pra chegar no patamar que nós chegamos, foi muita água que passou debaixo da ponte. Ainda mais hoje com os impostos e o preço da carne”.



