Banda Bom Jesus comemora 75 anos de fundação com missa festiva

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Foto de 1998 em Caetano Lopes - Jeceaba
Foto de 1998 em Caetano Lopes – Jeceaba
Foto Procissão da Ressurreição - Crédito Mauro Lúcio Fernandes Barros
Foto Procissão da Ressurreição – Crédito Mauro Lúcio Fernandes Barros

Todo mineiro tem um trem de ferro apitando nas veias, uma montanha brilhando nos olhos e uma banda tocando nos ouvidos“.  Jorge Fernando dos Santos

Pouca coisa simboliza mais as Minas Gerais do que uma pracinha, um coreto e uma banda tocando na praça da Matriz. Mas da próxima vez que uma banda estiver por lá será para festejar e agradecer. Uma missa festiva que será celebrada pelo Padre Paulo Barbosa, nesta terça-feira, 24, às 18h30, na Igreja Matriz de N. Sra. da Conceição marcará a celebração dos 75 anos da fundação oficial da Corporação Musical Senhor Bom Jesus. Os componentes vão se apresentar no início e no final da celebração.

A Banda Bom Jesus surgiu de fato há 80 anos, no dia 3 de maio de 1935, quando músicos da cidade resolveram se juntar para tocarem em celebrações religiosas, carnavais, retretas nas praças e escolas. Na ocasião, eles receberam os primeiros instrumentos dos padres redentoristas que atuavam no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Já em 15 de novembro de 1940, ocorreu a fundação oficial com apoio desta ordem religiosa e do primeiro prefeito de Congonhas, Alberto Teixeira dos Santos (1939-1944). O primeiro presidente foi José Timóteo Machado, um dos fundadores e ainda o primeiro maestro, e o secretário da época era o padre redentorista Dom João Muniz, que se tornou posteriormente arcebispo de Mariana.

Entre os fundadores estão ainda o primeiro maestro, José Timóteo Machado e o então secretário e padre redentorista Dom João Muniz, que se tornou posteriormente arcebispo de Mariana.

Atualmente a Banda Bom Jesus conta com 26 componentes, sendo eles três trompetistas, 4 trombonistas, 2 bombardinistas, 4 clarinetistas, 4 saxofonistas MB, 2 saxofonistas SB, 2 baixistas, 1 prato, 2 bateristas, 1 surdista e 1 contrabaixista de corda. Ela acompanha os cortejos da Semana Santa e das festas de São Sebastião, São José, São Geraldo, N. Sra. da Conceição e N. Sra. Aparecida. A corporação se apresenta também durante o Carnaval, acompanhando blocos como o da Melhor Idade, o do Romper da Alvorada e no Quarteirão do Samba, no desfile de Sete de Setembro, no Festival de Banda na Romaria, no Festival da Quitanda e em outras cidades.

A Banda Bom Jesus foi que gravou pela primeira vez o Hino de Congonhas. A música e a orquestração são de autoria de José Amaro de Souza, que foi maestro da corporação, e a letra de Péricles Rodrigues Reis, Mauro Hebert Godóy e Rubens Barbieri. De seus quadros, participaram também os arranjadores Jorge Senra, que também era maestro amigo da banda, e Sebastião da Silva de Oliveira.

Personagens que mantêm a tradição

Afonso Miranda Gurgel, 83, entrou para a banda em 1947, portanto há 68 anos. Seu primeiro instrumento foi a caixa surda. Depois estudou música e assumiu o saxe harmonia que trocou posteriormente pela clarineta. “Quando começamos a tocar, a banda raramente ficava um domingo em casa. Rodávamos por toda a zona rural e as cidades vizinhas. Meu pai disse que, se eu entrasse para a banda, seria valorizado no Exército, mas fui dispensado do alistamento militar, e sigo na banda até hoje”, lembra o Sr. Afonso.

Paulo Soares, 86, se juntou aos companheiros em 1973 e, de lá para cá, foi presidente por três mandatos. Antes era membro da Banda Ary Barroso, que encerrou suas atividades em 1970. “Quando assumi a presidência em 1991, havia 13 componentes. Então abrimos a escolinha de música, que chegou a ter 46 alunos, entre eles o Pedro, atual presidente”, rememora.

Sebastião Lemos, outro ex-presidente, ingressou em 1953, aos 18 anos, sem se ausentar da banda até hoje. “Naquela época, nós recebíamos valores em dinheiro pelas apresentações, que eram divididos entre os músicos, e o restante ia para um caixa, com o qual começamos a construir a sede. O prefeito José Theodoro da Cunha, o Zezete (1967 – 1970) cedeu o terreno, com aprovação da Câmara Municipal, para construção da sede, em 1972. Nesta época, os ensaios eram realizados na antiga sede da banda, que ficava na Ladeira Bom Jesus. Havia associados da população que contribuíam mensalmente para a banda se manter”, comenta.

Antônio Cupertino de Jesus, 74, que entrou para a banda aos 18 anos, foi presidente por dois mandatos seguidos, nos quais conseguiu reformar instrumentos graças a uma subvenção da Prefeitura. O pai dele, Geraldo Magela de Jesus, era músico e chegou também a presidir a corporação. “Por isso, eu pretendo trazer meu filho Toninho para cá”, diz. A arte está na veia da família. Sr. Antônio é pai do escultor Luciomar Sebastião de Jesus.

Gilberto Fernandes Carvalho, 70, é membro há 21 anos. “Assim que me aposentei vim para cá para aprender música. Aqui a gente aprende o básico e depois vai se desenvolvendo. Cheguei a ser presidente por dois mandatos. A banda representa para mim lazer e saúde. Aqui temos um ótimo ciclo de amizades”, afirma. Filha do senhor Gilberto, Letícia é uma incentivadora da banda. “Não deixo os ‘meus meninos’ desanimarem. E o bom é que criamos uma relação de respeito e de carinho. Quando vão se aproximando as principais apresentações, como a do Carnaval, já damos um jeito de renovar o uniforme”, comenta satisfeita.

Adão Aécio Romualdo, 75, nasceu no ano de fundação da Banda Bom Jesus. Convidado pelo então presidente Gilberto Fernandes, começou cuidando dos arquivos de partituras. “O evento que mais me emocionou foi o “100 Bandas, 100 anos de BH”, realizado por ocasião do centenário da capital mineira em 1997 na Praça da Liberdade. O Sr. Adão é professor da escolinha de música, que será ampliada em 2016. Já formamos 12 músicos aqui, mas precisamos de mais”, alerta.

Vicente Patrício de Oliveira, 63, entrou para a banda em 1976. “Eu trabalhava na mineração em Miguel Burnier e vinha assoviando no ônibus. O Sebastião Lemos, companheiro de firma, me dizia que eu era afinado e me convidou para participar. Quem deu aula pra mim foi o pai do Antôno Cupertino. Comecei com o barítono e hoje toco bombardino.

Gilberto Antônio dos Santos, 60, ingressou para a corporação aos 24 anos. “Nos dias de folga, eu passava o tempo todo aqui com o maestro Amaro. Comecei com caixa e passei para o bumbo. Agora, por recomendação médica, toco tarol. Na Semana Santa, carregava a caixa surda, da Matriz à Basílica e no sentido contrário. No dia de Santa Cruz e Abolição da Escravatura, 13 de maio, a banda toca da Basílica até o Alto do Cruzeiro”, diz Gilberto, que além de músico é o responsável pela limpeza dos salões da sede, o encaminhamento dos instrumentos para manutenção e, ao lado da esposa Maria Glicélia Ferreira dos Santos, pela conservação dos quatro uniformes da banda. “Cada músico cuida da limpeza de seu instrumento e, em alguns casos, da troca do nylon e a resposta”, completa.

Diretoria atual

O atual presidente Pedro Coelho Neto, 57, (maestro e trombonista de vara), cumpre mandato até 2016. “A última ação da atual diretoria foi a reforma da sede própria que fica à Rua Padre Antônio Correa, nº .  A obra contemplou pintura, piso e iluminação do salão principal, que leva o nome de Guilherme Santana – maestro muito dedicado, como foi também o filho de mesmo nome e apelidado de Zozó, e o salão da escolinha de música”, explica Pedro, que acrescenta: “Nosso objetivo agora é ampliar a escolinha no início de 2016. Aí procuramos vocês da comunicação para ajudarem a divulgar as inscrições”.

A diretoria é composta ainda pelo vice-presidente Lucas Rocha de Castro (pistonista), o tesoureiro Vicentino Patrício de Oliveira (bombardinista) e mais seis diretores.

 

Banda Bom Jesus é um dos símbolos do Município

Por se tratar de uma instituição que caminha firme para o seu primeiro centenário, período no qual contribui substancialmente para a cultura, o lazer e a religião dos congonhenses, a Administração Municipal considera a Banda Bom Jesus uma grande parceira.  O prefeito Zelinho felicita esta grande instituição, que é um dos símbolos de Congonhas: “Parabenizo-a pela bela história, que começou com músicos abnegados e o apoio de padres redentoristas, a população e alguns prefeitos, e que chega até os dias de hoje, quando segue tendo a sua frente pessoas dedicadas e encantando nossa população a cada apresentação. Não há Minas sem banda. E esta dita o ritmo de nossas festas. Parabéns, Banda Bom Jesus, pelos 80 anos de fato e 75 de fundação oficial”.

Em março de 2014, a Corporação Musical Senhor Bom Jesus recebeu seis instrumentos musicais (trombone de vara, bombardino, piston, clarineta, tarol e surdo), adquiridos no programa estadual Bandas de Minas, graças a um projeto elaborado pela Secretaria Municipal de Cultura. Em fevereiro do mesmo ano, a Prefeitura havia entregado quatro instrumentos novos, conseguidos junto à Fundação Nacional de Artes (FUNART). Na ocasião, a Sociedade Musical Nossa Senhora d’Ajuda, do Alto Maranhão, também foi contemplada com cinco novos instrumentos. Além disso, a Secretaria Municipal de Cultura já ajudou a Banda Bom Jesus com subvenções que arcaram com as despesas de viagens.