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terça-feira, 27 julho 2021
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Passagem das gerações, revolução que espreita Cuba

Protestos por democracia e contra pobreza eclodem na ilha açoitada pela pandemia e governo que iniciou reformas tenta se refugiar em discurso anacrônico

“Para que preciso de um milhão de dólares? Eu e minha família temos educação e saúde gratuita a vida toda, não precisamos juntar dinheiro”. Com orgulhosa simplicidade, Tony, engenheiro de 70 anos, decifra a lógica anticapitalista de Cuba, em defesa empolgada do regime instalado desde a revolução que viu eclodir ainda criança, em Havana. Mas o tempo passou – e ele e a mulher, Mary, alugam para turistas um quarto da casa confortável numa rua de calçamento precário de El Vedado, bairro da capital. É preciso aumentar a renda.

“O que adianta ser arquiteto formado e precisar trabalhar como motorista profissional para turistas?”, questiona Martín, pouco mais de 30 anos, enquanto toureia um Lada que ameaça se desfazer em plena via, e só consegue parar com o reforço do freio de mão. “Não usamos o que aprendemos na universidade, porque o mercado paga muito pouco, ou não existe”, resume, enquanto busca… aumentar a renda.

O motorista/arquiteto acalenta sonhos modestos. “Quero entrar no Facebook, mas aqui não pode”, lamenta, referindo-se à rede social dominante no mundo além das fronteiras da ilha, naquele início de 2017. Por lá, a internet era precária e caríssima. Um voucher com alguns minutos de conexão ficava no fim de fila morosa em poucas lojas – e depois ainda precisava achar o ponto onde houvesse sinal.

A cruzada produzia cenas ridículas em algumas poucas praças de Havana: várias pessoas vagando com o celular diante do rosto, na busca por firmar a conexão. Mas a navegação se limitava a poucos sites – entrar nas redes sociais sonhadas por Martín era virtualmente impossível.

A Cuba de Toni estava bem ali do lado, na ausência da miséria obscena, que grassa pelas grandes cidades brasileiras (e de diversos países do mundo capitalista). Tampouco se via crianças nas ruas, a não ser uniformizadas, em ordeiro ir e vir da escola.

Outro aspecto caro aos brasileiros é a inexistência de violência urbana. Os turistas circulam por qualquer lugar, dia e noite, sem ameaça visível, numa lição que desconecta pobreza de marginalidade.

Defensor do governo de Miguel Diaz-Cnal ergue o cartaz com a frase histórica: "Viva a revolução cubana!" Foto Yamil Lage/AFP
Defensor do governo de Miguel Díaz-Canel ergue o cartaz com a frase histórica: “Viva a revolução cubana!” Foto Yamil Lage/AFP

As histórias heroicas da revolução e o corajoso enfrentamento à crueldade do bloqueio econômico americano estão tatuados na paisagem de cidades e estradas. Mas frases de Fidel, retratos de Camilo Cienfuegos, bordões, pensamentos e imagens do maior ícone de todos, Che Guevara, são quadros cada vez mais amarelados, pregados em parede exposta à incessante corrosão do tempo.

O pensamento se alimenta da pressa típica de jovens como Martín, o arquiteto/motorista: de que adiantam saúde, educação, estrutura social, se não há como usar, se o mundo lá fora segue proibido? A censura e o bloqueio digital não vedam o país das notícias externas. E as possibilidades criadas pela tecnologia atiçam a cobiça de quem planeja outras construções de vida. Cuba, hoje, oferece muito pouco, quase nada.

A abertura para o turismo fincou resorts em balneários como Varadero, Rio de Oro, Cayo Coco. Bandeiras internacionais – europeias, quase todas – se sucedem num cenário tão luxuoso como artificial. As espetaculares praias caribenhas ganham serviço opulento para os hóspedes, em viagens caras (preços regulam temporadas na Europa ou nos EUA), mas basta conversar com garçom ou camareira para desvendar a pobreza que assola o povo.

Em cidades como Matanzas, a precariedade se apresenta explícita nas prateleiras de mercados com espaço de sobra entre poucos produtos. O atendimento aos turistas é gentil, mas envergonhado, porque a principal atração continua sendo o “lugar parado no tempo”, dos carros antigos que ainda funcionam, das notas com a cara do Che, do romantismo com a utopia da revolução. Faz cada vez menos sentido para os jovens.

São eles que estão nas ruas agora, desafiando a repressão do governo antidemocrático, fragilizado pela crise do turismo com a pandemia e a explosão tardia da covid-19. No início, Cuba conseguiu controlar a ameaça sanitária, mas agora casos e mortes começam a se multiplicar, e o país hoje está entre os piores da América Latina, nas contas proporcionais à população. Ainda paira a suspeita de subnotificação, devido à pesada censura vigente.

A consequência econômica do isolamento deu tons apocalípticos ao cenário de dureza que perdura desde o desmantelamento do bloco comunista. A abertura cautelosa, implementada pelo governo de Miguel Díaz-Canel, turbinou a inflação e acentuou a pobreza. “Não há comida, não há remédio, não há liberdade. O governo não nos deixa viver. Já estamos cansados”, resumiu, por telefone, um cubano chamado Alejandro, à BBC News Mundo, serviço de notícias da BBC em espanhol. Ele participou do protesto em Pinar del Río, província que aderiu à revolta iniciada em San Antonio de los Baños, a sudoeste de Havana. A comunicação entre os rebelados se dá pelas redes sociais, mais acessadas pela mesma flexibilização adotada na economia.

A princípio pacíficas, as aglomerações provocaram reação da polícia, que prendeu manifestantes e tentou dispersar grupos mais numerosos. Em vídeo postado em rede social – descreve o DW.com -, é possível ver uma mulher gritar que “o povo está morrendo de fome”. Outro exibe manifestantes virando um carro da polícia em Cardenas, a cem quilômetros de Havana. Na capital, aliás, houve confrontos entre opositores e militantes do governo, no Parque da Fraternidade, que reuniu mais de mil pessoas. Muitas foram presas.

Um grupo conseguiu escapar do cerco e avançar pela avenida Paseo del Prado, uma das principais da cidade, em direção ao Malecón (cartão postal cubano), aos gritos de “liberdade”, “pátria e vida” e “ditadores”. De outro lado, grupos organizados de apoiadores do governo respondiam com “Eu sou Fidel” ou “Canel, meu amigo, o povo está contigo”, em alusão ao presidente Miguel Díaz-Canel.

Homem usa máscara facial na varanda em Havana. As autoridades cubanas dizem que o embargo econômico dos EUA vem dificultando o combate à covid-19. Foto Yamil Lage/AFP
Homem usa máscara na varanda em Havana. As autoridades cubanas dizem que o embargo econômico dos EUA vem dificultando o combate à covid-19. Foto Yamil Lage/AFP

Manifestações contra e a favor do governo revolucionário repetiram-se em vários países, da Venezuela a Miami, da República Dominicana à Espanha, do México a Colômbia. Miguel Diaz-Canel tenta sufocar a insatisfação com discurso vencido para um país ainda sob censura. Convocou os “revolucionários” – muitos foram às ruas, defender a situação – e culpou, de novo, o bloqueio dos EUA pelos problemas (após anos de distensão, a superpotência apertou as amarras novamente na recém-encerrada gestão Trump). Com número crescente de cubanos, jovens sobretudo, não cola mais. Os ideais revolucionários moram no exílio da memória dos veteranos.

O conflito de gerações invadiu a casa de Toni. Seu primogênito emigrara para a Flórida, aproveitando-se da política “pés secos, pés molhados”, que garantia residência aos cubanos, se eles conseguissem chegar à terra firme nos Estados Unidos. (Barack Obama extinguiu a legislação em 2017, dentro do projeto de normalização das relações entre os dois países.) O sorriso do engenheiro – orgulhoso integrante do exército cubano que lutou na revolução em Angola – se apagava ao lembrar do filho, em “território inimigo”.

Os sentimentos antagônicos vão habitar a ilha mítica – fetiche igualmente anacrônico dos grupos de extrema-direita mundo afora, Brasil muito incluído – ao sabor da passagem das gerações. A trajetória de luta, a resistência do povo determinado, a coerência de líderes como Fidel e Che continuarão admiráveis, mas serão cada vez mais peças de museu.

Cuba está obrigada a encarar novas ondas, que despontam no seu horizonte.

FONTE PROJETO COLABORA

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