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sexta-feira, 30 julho 2021
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Produção baixa e avanço de doenças marcam safra de tangerina ponkan em Belo Vale

Belo Vale é o maior produtor de tangerina ponkan do estado de Minas Gerais sendo que esta cultura e o negócio têm grande importância e impacto na socioeconomia local. Com cerca de dois milhões de plantas que ocupam 9% da área do município, a cadeia produtiva da fruta gera trabalho e renda para os produtores e trabalhadores rurais. Esta atividade econômica tem PRODUZIDO, ao longo dos últimos 30 anos, muita riqueza para o município. Riqueza esta que é bem distribuída e impulsiona o comércio e o desenvolvimento local.

Belo Vale se destaca pela grande produção e também pela boa qualidade das frutas, o que é reconhecido em todas as regiões do Brasil. Este destaque é consequência do exclusiva do trabalho e dedicação dos citricultores – produtores e trabalhadores.

Nesta safra de 2021, mais uma vez (como em 2019), uma menor produção e baixa qualidade de frutos está indicando uma menor rentabilidade do negócio. Os motivos para a baixa produção são basicamente dois: primeiro a alternância de safra – característica da cultura da tangerina ponkan que produz muito em um ano/safra e pouco no ano/safra seguinte. E o segundo, as condições climáticas desfavoráveis nas fases de florescimento, pegamento e desenvolvimento dos frutos. Estima-se uma produção próxima à metade de frutos da safra passada e em alguns pomares a produção deve ser ainda menor: 40%e até 30% do que foi produzido em 2020.

Também a qualidade foi prejudicada e grande parte dos frutos está com algum dano.  Frutos com tamanho/diâmetro pequeno, fora do padrão e com danos na casca são desvalorizados para o comércio. Esta perda de qualidade acontece por alterações climáticas mas também por deficiência nutricional e ocorrência de doenças como Alternaria e Fumagina e pragas como o Ácaro da Falsa Ferrugem e Mosca Negra. Estas doenças e pragas tem aumentado consideravelmente e seus controle está cada vez mais difícil e mais caro para o produtor.  

Os produtores já estão conscientes desta redução e perda de qualidade e se adequaram à condição mas ainda esperançosos com o aumento do preço de venda nesta safra. Melhores preços são para as frutas de boa qualidade, padronizadas e produzidas com bom sistema de produção e controle de pragas e doenças. Entretanto, esta produção também tem custos mais elevados, achatando a margem de lucro.

A colheita está atrasada e deve começar a se intensificar nos próximos 15 a 20 dias e, como a produção é pequena, o período de colheita também deve ser reduzido e em plena crise sanitária e econômica causadas pela pandemia.  A crise sanitária exige vários cuidados a serem tomados durante a colheita para se evitar contaminações com o Coronavírus e a crise econômica reduz o poder de compra dos potenciais consumidores da ponkan. O que se espera é que, com o desenvolvimento da colheita e a comercialização para diversas regiões do país, o aumento de preço ocorra realmente e que possa compensar, ao menos em parte, a queda da produção.

Existem desafios a serem superados para manter a produção, melhorar o padrão de qualidade, diminuir custos e aumentar o retorno financeiro – lucro.

Porém, a grande e crescente incidência da doença Greening tem trazido preocupação aos produtores. Causada por bactéria, a doença requer o corte das plantas infectadas como medida corretiva. As plantas infectadas ficam com a produção comprometida e tem que ser eliminadas, mesmo estando em plena produção. O Greening não tem cura e o controle se dá com eliminação/controle do inseto vetor que transmite a bactéria entre as plantas.

O vetor transmissor da doença, psilideo Diaphorina citri é uma pequena cigarrinha e o seu controle/combate deve ser realizado de forma preventiva, regionalmente e por todos os produtores vizinhos. Assim como na dengue, não basta que um produtor faça a sua parte se os seus vizinhos não fizerem. A única forma de combate a este inseto é com utilização de inseticidas (químicos ou biológico) que devem ser aplicados com adequada indicação e critério nos momentos/fases da cultura mais apropriados, principalmente nas fases de brotações que ocorrem de agosto a novembro. Muitos produtores não tem realizado o devido controle e a população do inseto vetor tem atingido níveis muito altos e intensificado as contaminações.

Belo Vale é oficialmente considerado como município foco de Greening e os produtores são obrigados a realizar o levantamento da doença no seu pomar e informar ao órgão de fiscalização o número de plantas doentes e eliminadas. O Programa Mineiro de Controle do Greening, lançado em Belo Vale em março de 2017 não trouxe medidas efetivas para o enfrentamento da doença. Agora, em junho de 2021, o Ministério da Agricultura lançou o Programa Nacional de Prevenção e Controle do Greening que, obriga o produtor a realizar o monitoramento e controle do inseto transmissor da doença em sua propriedade.

Além destas dificuldades existem outros desafios para a sustentabilidade da cultura da tangerina ponkan em Belo Vale como:

– Organização do setor produtivo em forma de Associação ou Cooperativa que possam facilitar e melhorar o poder de compra de insumos e o poder de venda dos frutos.

– Agregação de valor às frutas com padronização, beneficiamento, certificações (Frutas, Orgânicos e SAT – Sem Agro Tóxico) e rastreabilidade, que dão confiança e segurança alimentar ao consumidor final.

– Implementação de manejo integrado e conjunto de pragas e doenças para melhorar a eficiência e diminuir os custos e os riscos de contaminações.

Dentro dessa perspectiva e dura realidade, de que a produção de tangerina ponkan iniciou a sua fase de decadência, é que reconhecemos a importância dos citricultores para o desenvolvimento de Belo Vale.

  • Marcos Virgílio Ferreira de Rezende
  • Produção Integrada de Citros
  • Engenheiro agrônomo
  • Responsável Técnico
  • CREA-MG 64.493/D

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