25 de maio de 2024 15:22

UFSJ desenvolve projeto de conservação de peixes em um mais importantes refúgios naturais de MG

Motivo de polêmica recente, a Serra de São José é um dos mais importantes refúgios naturais da região do Campo das Vertentes. Desde 2016, uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Ecologia Molecular e Ictiologia da UFSJ (LEMI) investiga a ecologia e conservação de peixes de riachos altitudinais e de cabeceiras. O Laboratório é coordenado pelo professor Andrey Castro (DCNAT) e a equipe desenvolve também outra linha de pesquisa, sobre os impactos na ictiofauna, pela construção de hidroelétricas e geração de energia.

Na Serra de São José, o LEMI estuda o conjunto de peixes existentes nos riachos das duas Unidades de Conservação da Serra do local: a APA da Serra de São José e a Refúgio de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José. O objetivo é identificar as espécies de peixes que ocorrem nos diferentes córregos, avaliando diferentes aspectos ecológicos – como as variações altitudinais na distribuição, o efeito de eventos como chuvas torrenciais, cabeças-d’água e períodos de estiagem – que influem na distribuição das espécies, padrões de movimentação e uso do hábitat pelas mesmas, além de analisar a efetividade das unidades de conservação para a preservação daquela fauna. “Não menos importante, temos avaliado a utilização de metodologias não-invasivas para estudar peixes de riacho. Tais metodologias permitem determinar a composição de espécies desses ambientes, sem a necessidade do uso de técnicas de captura. Técnicas tradicionais de captura podem incorrer em perturbações no ambiente durante as coletas, alterações no comportamento das espécies, ou mesmo provocar injúrias nos indivíduos capturados”, esclarece Andrey.

Até o momento, foram elaboradas três dissertações de mestrado defendidas junto ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSJ (PGE), que estudaram a ictiofauna da Serra. Outras duas estão em curso, como a tese de doutorado encabeçada por aluna egressa da UFSJ, em parceria com pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Biologia Comparada da USP. O LEMI conta ainda com um  grupo de alunos da graduação que auxiliam nas pesquisas em andamento, ao mesmo tempo em que elaboram ou executam seus próprios projetos.

Água doce

De acordo com o professor Andrey, os riachos da Serra de São José apresentam uma relevante ictiofauna de pequeno porte, que contribui para a megadiversidade do Brasil, conhecido por possuir o maior número de espécies de peixes de água doce do planeta. “De modo geral, a sociedade tende a perceber como importantes apenas espécies de peixe de grande porte, com potencial para consumo e exploração econômica. Entretanto, a maioria da nossa megafauna é constituída de peixinhos de pequeno porte que, apesar de muito parecidos fisicamente (e conhecidos como piabas ou lambaris), escondem uma rica variedade de espécies”, destaca o pesquisador. Os “lambaris” que ocorrem em um dado riacho da Serra, não necessariamente são iguais aos que existem em um outro riacho da mesma Serra. “Ao se somar todos aos córregos que drenam a Serra de São José, temos nos deparado com uma importante fatia da diversidade de peixes da nossa região”, explica. 

Aspectos ecológicos

Conhecer a composição dessa ictiofauna se mostra vital para a construção do Plano de Manejo das Unidades de Conservação da Serra de São José, que vai permitir classificar sua importância na preservação da nossa biodiversidade. Os estudos do LEMI têm registrado importantes aspectos ecológicos e comportamentais ainda não bem descritos para as espécies que lá ocorrem. A equipe tem conseguido acompanhar, por exemplo, indivíduos marcados por um período de quase dois anos, e desse modo identificar como os peixes se distribuem pelos trechos de um riacho. Mais importante, ressalta Andrey, é saber como esses indivíduos se movimentam ao longo dos trechos de determinado riacho. “Pode parecer simples nadar de um lado para o outro em um riacho, mas vale lembrar que muitos trechos são separados por quedas d’águas verticais e com grandes desníveis, que funcionam como potenciais obstáculos para essa movimentação.”

O uso das técnicas de filmagem tem permitido também registrar e cuidadosamente estimar diversos comportamentos dessas espécies nunca observados no ambiente natural, como os comportamentos de predação de um predador bastante conhecido, a traíra. “Temos registros de alta qualidade de momentos de predação, algo muito raro, mas fascinante. Tais registros propiciam não só identificar as presas dessa espécie, como as estratégias de captura por ela utilizadas”, afirma.

Metodologia e observação

Um aspecto importante nos estudos ictiofaunísticos da UFSJ na Serra de São José tem sido o uso de métodos não-letais para a obtenção de dados sobre os peixes. Um dos métodos avaliados durante a dissertação da mestranda Nathalia Melo, defendida em 2018, foi o uso de censos visuais. Por esse método, o pesquisador mergulha nos riachos e faz registros de imagens das espécies estudadas.


Outro procedimento que se destaca como inovador, segundo Andrey, é o uso de BRUVs para determinar a composição da ictiofauna (quais espécies ocorrem no riacho e em que quantidade). O termo BRUV vem do inglês Baited Remote Underwater Video e significa estações de vídeos remotos subaquáticos e iscados. Essa metodologia vem sendo utilizada em ambientes marinhos, mas pouco explorada em ambientes ribeirinhos brasileiros. Com essa técnica, o pesquisador distribui estações de vídeo ao longo dos trechos do riacho, a fim de captar o registro das espécies de peixes ali presentes. Dessa forma, é possível identificar as espécies que ocorrem nesses trechos, sua abundância e os diferentes tipos de comportamento, raramente conhecidos em estudos com técnicas tradicionais de coleta (redes, peneiras e armadilhas). Os vídeos registrados desde 2016 permitem o monitoramento das espécies de peixes da Serra de São José e de suas flutuações populacionais.

Recentemente, os pesquisadores passaram a utilizar marcas subcutâneas coloridas para auxiliar na identificação da movimentação dos peixes. Assim, o peixe é capturado uma única vez, anestesiado para a implantação da marca e liberado. Em cada localidade e período os peixes recebem uma marca com cores diferentes, implantadas em partes diferentes do corpo. Os registros pelas BRUVs dos peixes “tatuados” possibilitam saber se esses animais permanecem em um mesmo local do riacho ou se movimentam. Esse estudo teve início em 2021, e até hoje registram animais marcados nas primeiras campanhas, indicando a ausência de impacto da marca sobre os peixes.

Outro avanço nessa pesquisa é a utilização das “stereo BRUVs”, que têm duas câmeras que gravam em paralelo, favorecendo análises tridimensionais das imagens que, em consequência, trazem informações mais precisas sobre o tamanho dos peixes e sua orientação espacial.

Megadiversidade

O Brasil é o país da megadiversidade de peixes. Sempre que se fala sobre isso, pensamos em locais como a Amazônia, o Pantanal ou outros biomas incríveis de nosso país. Entretanto, de acordo o professor Andrey, é importante lembrar que uma boa parte dessa diversidade de espécies não está apenas em áreas remotas desses importantes biomas, mas sim em nosso quintal. “Nossa região é conhecida como Campo das Vertentes porque daqui vertem tributários de importantes bacias hidrográficas brasileiras, como as do Alto Paraná, do São Francisco e Bacias do Leste. Cada riacho na nossa região está contribuindo para uma dessas bacias hidrográficas. Do mesmo modo, as espécies lá presentes contribuem para nossa megadiversidade, que nos dá muito orgulho, mas demanda intensa proteção.”

Os ambientes de riachos são frágeis, não sustentam as massivas alterações que nós, humanos, impomos a eles. Em vários momentos, os pesquisadores eram abordados por visitantes na Serra, espantados com o fato de estarem estudando peixes de riachos. “Mas aqui não tem peixe, só tem lambari!”

A preocupação com os riachos da região, enfatiza o coordenador do LEMI, deveria se sustentar igualmente na necessidade de se proteger aquilo que não reconhecemos como comercialmente relevante, caso das diversas espécies de “lambaris”. “Cada espécie importa, independente do seu tamanho. Cada e todo riacho importa. Ao passar por uma ponte, saiba que ali debaixo corre um riacho precisando da sua ajuda e uma fauna clamando por proteção.” 

Equipe

Quem são e o que estudam os pesquisadores do LEMI na Serra de São José:

Coordenador – Professor Andrey Castro (DCNAT)
Doutoranda – Nathalia Melo (Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da USP-Ribeirão Preto), pesquisa os Padrões de distribuição, uso do habitat e movimentação de espécies de riachos nas drenagens da Serra de São José

Mestrandos – Sarah Fonseca (Programa de Pós-Graduação em Ecologia/Instituto Estadual de Floresta) investiga o Uso de BRUVs para avaliar a importância das Unidades de Conservação da Serra de São José para a proteção de peixes de riacho; Kessin Cabral  (Programa de Pós-Graduação em Ecologia) examina o Uso de stereo-BRUVs para avaliar a estrutura da população do lambari dentudo, Oligosarcus paranensis, em um riacho da Serra de São José; e Johnny Pierre (Programa de Pós-Graduação em Ecologia/intercambista do Haiti) analisa Uso de stereo-BRUV para avaliar os padrões de distribuição espacial do lambari-limão (Hyphesobrycon bifasciatus), em um riacho da Serra de São José.

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