4 de março de 2024 08:32

A gigante da mineração não é empresa de varejo

A Vale comemorou, com farta distribuição de publicidade pela grande imprensa, ter ficado entre as 10 melhores colocadas na pesquisa Carreira dos Sonhos, realizada com mais de 90 mil pessoas, que responderam de forma espontânea sobre onde gostariam de trabalhar. A mineradora passou do quinto lugar, em 2022, para a segunda posição neste ano. A Vale ressaltou ser a única das tops do ranking “que não comercializa produtos diretamente com o consumidor final”.

No anúncio no qual proclama a sua vitória, a Vale declara qual é a sua filosofia de trabalho: “Transformar a mineração hoje é transformar o amanhã de todos”.

Significa que será, cada vez mais, e sempre, uma empresa de mineração. Dar mais um passo no processo de transformação da matéria prima com o maior valor agregado ao produto, esse passo ela não dará (até voltou atrás nos passos que dera em passado já não tão recente). Também sem se interessar por atrair empresas dispostas a fazer essa transformação industrial no ponto de entrega do minério pela Vale – dentro do Pará, do Maranhão ou de qualquer outro Estado brasileiro.

Investindo em tecnologia (e capital intensivo) para acelerar a extração do minério do subsolo, aumentando a escala de produção, incrementando assim sua própria rentabilidade (para a alegria de milhares de acionistas, sobretudo os que compram suas ações ADR na bolsa de valores de Nova York, e também em Londres e Toronto) e fazendo a vontade dos grandes clientes, como a China, o futuro que a Vale criará para os paraenses será a mais rápida exaustão dos seus minérios, sem contrapartida de expressão siderúrgica, metalúrgica ou de outra natureza; futuro de curto fôlego, portanto.

A Vale considera importante destacar que não é uma empresa de varejo, como um supermercado, uma farmácia ou uma quitanda, mas anuncia na imprensa como se fosse. Ela é a maior vendedora transoceânica de minério de ferro do mundo.

No ano passado, em baixa, a tonelada do minério alcançou, em média, cerca de 100 dólares. Mas minério com 62% de hematita pura. O de S11D, em Carajás, com 65%, é o mais rico do planeta. De Carajás foram extraídos 230 milhões de toneladas. A produção total foi de 308 milhões de toneladas, também menor.
Mesmo assim, o lucro líquido foi de 96 bilhões de dólares, proporcionando dividendos aos acionistas de US$ 25,6 bilhões. Foi o terceiro maior lucro líquido da história do mercado de capitais brasileiros. O primeiro lugar também foi alcançado pela Vale em 2021: US$ 121 bilhões.

A diferença entre 2021 e 2022 foi de US$ 25 bilhões. Em moeda nacional, seriam 125 bilhões de reais. Ressaltando: redução apenas do lucro líquido, que, mesmo menor, deu ganho aos detentores de ações da mineradora igualmente de mais de R$ 120 bilhões.

Números de uma empresa varejista? Obviamente que não. Mas devagar com o raciocínio: um quilo de banana está custando, em média, 10 reais. Mil quilos serão 10 mil reais, o dobro do valor da tonelada do minério de ferro. Claro que não se está pretendendo transformar as minas da Vale em quitandas (embora, em tese, fosse mais lucrativo).

É só para recordar que os países sul-americanos já foram considerados repúblicas banana. Mesmo não sendo possível comparar uma mercadoria vendida por quilo de outra que tem a tonelada como unidade de referência, tornando-se comercializável a partir do milhão de toneladas, fica a desagradável sensação de que a situação dos países exportadores melhora em termos absolutos, mas nem tanto em termos relativos. É como dize, os franceses: plus ça change, plus c’est la même chose. Quanto mais muda, mais é a mesma coisa.

O retorno que mineradora diz que proporciona ao Estado no qual está incrustrada a joia da coroa de ferro mundial é varejeiro (de varejo e de mosca varejeira, além de vasqueiro) comparativamente ao retorno líquido que a Vale obtém por sua competência na extração e venda (em escala menor do que no passado, obtido pela Docenave, também no transporte) do minério. No que ela mais investe são nos meios que lhe permitem, ao mesmo tempo, transformar a grande imprensa em parceira (ou cúmplice) para a formação de opinião pública conforme seus interesses.

Um exemplo do efeito dessa propaganda maciça, própria de empresas que vendem diretamente os seus produtos ao consumidor final (que a vale destaca não ser), o leitor pode alcançar lendo o noticiário dos principais jornais do país logo em seguida à divulgação dos resultados econômicos, financeiros, de produção e tudo mais da mineradora.

É quase uma reprodução integral dos press-releases da companhia. É a hora do toma lá para manter o dá-cá, que explica ser a Vale uma das maiores anunciantes da imprensa no país, sobretudo nos Estados nos quais atua, o mais importante deles para a companhia sendo o Pará.

FONTE AMANZONIA REAL

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