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Igreja de Bom Jesus, principal obra do “Mestre (anônimo) de Lagoa Dourada”

O restauro do altar da igreja (do início dos anos mil e setecentos) foi realizado pelo artista são-joanense Carlos Magno de Araújo

Quase três séculos depois, continua desconhecido o nome do “Mestre de Lagoa Dourada”, que foi atraído para aquela localidade na época em que ela ainda era freguesia de Prados. “Trata-se de um santeiro peculiar com estilo único e que, embora também tenha atuado em outros municípios mineiros, é em Lagoa Dourada que está erguida sua maior obra: a igreja de Bom Jesus de Matosinhos de Lagoa Dourada”, diz o restaurador e pintor Carlos Magno de Araújo, ele próprio o responsável pelo restauro da igreja.

Mas a história começou um pouco antes. Carlos Magno conheceu padre Adriano Tércio Melo de Oliveira, ainda pároco de Ritápolis. “Ele me convidou para pintar o forro do Santuário de Santa Rita de Cássia. O forro original, pintado por Joaquim José da Natividade (mestre do rococó mineiro), no início do século XIX, fora vendido e a comunidade local queria de volta a integridade da igreja com a pintura.” Então, padre Adriano encomendou um projeto a Carlos Magno, que foi aprovado pela comunidade e pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e realizado pelo restaurador são-joanense.

Nesse meio tempo, a pedido do então pároco da Paróquia de Santo Antônio, em Lagoa Dourada, padre José Walter Silva de Carvalho, Carlos Magno fez uma sondagem sobre as imagens sacras da paróquia e descobriu que, “além de pertencerem a um único artista, elas continham as policromias originais por baixo das camadas de repintura”. Esse artista foi apelidado por Carlos Magno de Mestre de Lagoa Dourada, por ser desconhecido, mas o responsável por peças “que remontam à primeira metade do século XVIII”. O trabalho foi apresentado numa exposição realizada no Solar do Baronesa, em São João del-Rei, reunindo escultores da região que atuaram nos séculos XVIII e XIX, cujos nomes até então eram pouco divulgados. Casos de Valentim Correa Paes, Manuel João Pereira, Francisco de Assis Pereira e do próprio Mestre de Lagoa Dourada.

Em seguida, padre Adriano foi transferido para a Paróquia de Santo Antônio de Lagoa Dourada, na mesma região mineira do Campo das Vertentes. Lá deparou-se com o rico acervo de arte sacra, mas necessitado de conservação e restauro. “Então (a convite do padre Adriano), comecei a restaurar algumas imagens sacras já conhecidas por mim, que eu havia definido como Obras do Mestre de Lagoa Dourada.”

Abandono

Ao assumir a Paróquia, padre Adriano atentou-se para a qualidade do acervo do qual era guardião e para a necessidade de trazer à tona o nome desse artista por meio da recuperação de sua obra, relata Carlos Magno. Além das imagens do pequeno museu da igreja matriz, o então pároco logo percebeu que a obra mais importante do Mestre de Lagoa Dourada era o conjunto do retábulo (altar) e imagens de grande vulto da igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

“Essa igreja ficou abandonada durante muitos anos, inclusive servindo de depósito, e seu estado de conservação era extremamente vulnerável, com infiltrações de águas pluviais, infestação de cupins de solo e perigo de desabamento do assoalho do trono do altar”, conta Carlos Magno. “As camadas de repintura comprometiam a qualidade estética de todo o conjunto.”

Assim, Carlos Magno não apenas restaurou as imagens do pequeno museu. Também recuperou, durante mais de um ano de restauro, os elementos artísticos e também o interior da igreja, que ganhou o arco do cruzeiro e a separação do presbitério da nave, “devolvendo de certa forma a essa igreja a ideia original de uma igreja do século XVIII”. O altar é remanescente da primeira metade do século XVIII e a estrutura da atual igreja é da década de 1920. “O que foi feito, além da recuperação do altar e das imagens, foi uma recomposição da ambiência da igreja para valorizar o conjunto da talha e funções do culto”, explica Carlos Magno.

Precursor

O importante desse trabalho foi a valorização de um patrimônio local que estava esquecido e trazer à tona a obra desse artista importantíssimo, como um dos precursores da arte sacra em Minas Gerais.  Ele é considerado o “Mestre de Lagoa Dourada porque o maior conjunto de obras dele está localizado nesse município”, enfatiza Carlos Magno. “Na igreja do Bom Jesus, é impressionante o conjunto do retábulo-mor (que tem como tema central o Calvário de Cristo), com quatro imagens monumentais do Cristo Crucificado, de Nossa Senhora das Dores, de Santa Maria Madalena e de São João Evangelista.”      

Ainda em Lagoa Dourada, são dele as imagens de Santana, de Nossa Senhora do Carmo, de São Joaquim, de São João Evangelista e de Nossa Senhora da Lapa (na matriz), bem como a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Além dessas igrejas, há imagens em capelas rurais do município.  Exemplo é uma “capela rural documentalmente datada de fins do século XVII que possui imagem desse escultor, o que o coloca entre os mais antigos artistas sacros trabalhando em Minas Gerais no início da ocupação”, conta Carlos Magno.

Diversas igrejas da região possuem obras desse artista, diz Carlos Magno. Casos da igreja do Rosário de Congonhas do Campo (de fins do século XVIII); da primitiva igreja de São Tomé das Letras, que teve peças sacras roubadas; de imagens existentes em capelas primitivas na região de Ouro Preto (caso de Cachoeira do Campo); da imagem de Nossa Senhora do Rosário, de Resende Costa; da imagem de Nossa Senhora do Livramento, de Dores de Campos; da imagem de Cristo Crucificado, na igreja de São José, de São João del-Rei; de Santa Luzia e Santa Bárbara na matriz de Santo Antônio, de Tiradentes; e do Cristo Crucificado, em tamanho natural, na matriz de Ouro Branco.

“Além de igrejas, há obras dele em coleções particulares e em antiquários, que, provavelmente, saíram clandestinamente de igrejas e capelas de fazendas”, suspeita Carlos Magno.

Pesquisa

Para Carlos Magno, “esse artista merece uma pesquisa aprofundada para trazer à tona o seu verdadeiro nome e o mapeamento de sua produção artística, fazendo um traçado cronológico da sua atuação como profissional e influenciador de nossos artistas que atuaram ao longo do Século XVIII em Minas Gerais”. Um apelo para pesquisadores como estudantes de História e mestrandos em Artes Plásticas, interessados em resgatar a história desse importante artista.

FONTE: JORNAL DAS LAJES

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