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Vilarejo a 200 km de BH vive como no passado: sem internet, sem ruas com nome e quase sem dinheiro, moradores trocam tudo por permuta e só chegam a pé ou a cavalo

Escondido no alto de uma serra a cerca de 200 km de Belo Horizonte, um pequeno vilarejo mineiro vive como no passado: não tem internet, não tem ruas com nome, quase não circula dinheiro e a maior parte das trocas é feita na base da permuta, em um lugar onde só se chega a pé ou a cavalo.

Longe do trânsito, dos aplicativos e das vitrines de shopping, esse pedaço de Minas segue um ritmo próprio. Cercados por montanhas, vales, cachoeiras e nascentes, pouco mais de cem moradores vivem como no passado em um cotidiano em que o ônibus passa só dois dias por semana, o recado ainda viaja em bilhetes de papel e a economia gira no fio da confiança entre vizinhos. Para quem nasceu e cresceu ali, é assim que a vida faz sentido: simples, perto da natureza e distante dos boletos e da correria das grandes cidades.

Um vilarejo isolado que vive como no passado

Imagine um lugar onde o mundo digital praticamente não existe. Em vez de notificações no celular, o que se ouve é o barulho da água nas pedras, o mugido do gado, o canto dos pássaros e, lá de vez em quando, o motor de um ônibus enfrentando a estrada de terra.

Nesse distrito encravado nas montanhas, os moradores gostam de dizer que ali o tempo anda devagar e que a comunidade vive como no passado, mesmo estando a poucas horas de uma metrópole.

Nada ali lembra um bairro comum de cidade grande. As ruas não têm nome, as casas não têm número e o endereço, na prática, é sempre baseado em referências: a curva perto da árvore, a casa depois da igrejinha, o quintal com pé de manga carregado. Para os de fora, pode parecer confuso.

Para quem vive como no passado por ali, é apenas a forma natural de se localizar em um lugar onde todo mundo se conhece pelo nome e pela história.

Ruas sem nome, casas sem número e uma comunidade “fechada”

O vilarejo fica encravado em um vale cercado por morros e serras. Dizem os moradores que o nome da comunidade veio justamente dessa sensação de estar “fechado” no meio da natureza, quase como se o resto do mundo estivesse do lado de fora.

Do ponto de vista prático, o isolamento é real: depois de sair da cidade mais próxima, ainda há muitos quilômetros de estrada de terra, até o ponto em que o veículo já não dá conta e só resta seguir a cavalo ou a pé.

Nesse cenário, o cotidiano vive como no passado também na forma de se relacionar. Não há placas de rua nem CEP, mas há um mapa afetivo muito claro.

As referências são as famílias, as gerações, as portas que nunca se trancam e a certeza de que qualquer recado encontra o destinatário, mesmo sem aplicativo de mensagem. A geografia é de montanha; o jeito de viver é de vila antiga.

Permuta no lugar do dinheiro

Se em quase todo lugar o dinheiro é o centro das relações de troca, ali ele aparece bem menos do que se imagina. Muita coisa funciona na base da permuta, como era comum em outras épocas.

Um morador compra lenha do vizinho, o vizinho compra cimento com ele e, em vez de cada um passar o dia atrás de troco, os dois acertam na confiança.

“Eu compro lenha na mão do vizinho, ele compra cimento na minha mão e a gente troca”, resumem, com naturalidade.

No dia a dia, o resultado é uma economia que vive como no passado, sustentada por trocas diretas, favores e combinações ajustadas no portão ou na beira da estrada. 

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Dinheiro entra e sai quando é necessário, claro, mas não dita tudo. O que mantém a vida girando é a rede de apoio, onde cada um sabe o que o outro produz, o que o outro precisa e como ajudar.Play Video

O ônibus que leva gente, pedidos e bilhetes

Se a internet quase não chega, o ônibus cumpre um papel que vai muito além de transportar passageiros. Duas vezes por semana, segunda e sexta-feira, o veículo sai do vilarejo em direção à cidade mais próxima, numa viagem que parece simples no mapa, mas leva horas na prática.

Os cerca de 40 quilômetros de terra podem consumir até quatro horas, no sobe e desce de morros, atoleiros e curvas.

Quando parte vazio de mercadorias, o ônibus volta carregado de rações, mantimentos e encomendas. Pelo caminho, o motorista para em vários pontos, entrega sacas, pacotes e atende pedidos feitos com antecedência.

Muitos desses pedidos viajam em bilhetes de papel, rabiscados com o nome da pessoa, o item desejado e o valor aproximado. Um saco de fubá, um remédio, um documento para a esposa que ficou na cidade. Mais do que um transporte, o ônibus é o fio que conecta a comunidade, que vive como no passado, ao restante do mundo.

Quando a estrada acaba e só o cavalo segue viagem

Nem tudo o que chega pelo ônibus fica no centro do vilarejo. Parte das mercadorias é descarregada ali, mas outra parte precisa subir ainda mais a serra, rumo às casas que estão em pontos mais isolados.

A partir de certo trecho, não há estrada de carro, só trilhas de terra que engrossam com a chuva e inclinam com a paisagem.

É aí que entram os cavalos. Equipamentos, sacas e compras sobem no lombo dos animais, que conhecem o caminho “de cor”. Para quem vive na cidade, essa subida seria uma aventura pesada.

Para quem vive como no passado na montanha, é apenas a rotina de levar mantimentos e notícias morro acima. O esforço é grande, mas a recompensa aparece nos cenários de cachoeiras, campos abertos e vistas ainda pouco visitadas pelo homem.

Vida simples, saúde de ferro e pouca tecnologia

No alto dos morros, a vida segue um compasso que lembra outras décadas. Produtores de leite acordam cedo, cuidam dos animais, trabalham na roça e encerram o dia no terreiro, vendo o céu mudar de cor.

Um morador, aos 74 anos, segue firme no trabalho, dizendo que não sente nada e que não toma remédio algum. A explicação, para eles, está no ritmo da terra, na alimentação simples e no fato de viverem como no passado, longe de parte das pressões da cidade.

A família é grande, como pedia a tradição de antigamente. Doze filhos, muitos com nomes começando pela mesma letra, histórias contadas à noite, quando não havia televisão e a principal “programação” era a conversa em volta da mesa.

Até hoje, a internet não chegou de forma plena e, para muitos ali, isso não é um problema. Eles repetem que, às vezes, a tecnologia atrapalha aquele bate-papo bom de beira de mesa, e que preferem preservar esse costume.

Juventude entre galos cantores e zero balada

Se para as gerações mais antigas o isolamento é sinônimo de paz, para os mais jovens a equação é um pouco diferente.

Poucos continuam no topo da serra depois de certa idade. Sem internet rápida, sem baladas, sem a vida agitada da cidade, muitos decidem descer para estudar, trabalhar ou simplesmente experimentar outro ritmo.

Quem fica cria suas próprias formas de diversão. Um jovem de 29 anos, por exemplo, se diverte sendo árbitro do próprio torneio de galo cantor. O recordista, segundo ele, é um galo que consegue cantar por mais de trinta segundos sem parar.

Pode parecer pouco para quem vive conectado o tempo todo, mas para quem vive como no passado, esse tipo de competição é acontecimento, rende risadas, apostas e assunto por dias.

Casas de pau a pique, pousada na fazenda e vaca viciada em banana

A arquitetura do vilarejo também ajuda a contar a história. Há casas centenárias ainda de pé, erguidas com técnicas tradicionais, como paredes de pau a pique amarradas com cipó e preenchidas com barro antes de receber o reboco.

Uma moradora vive há mais de seis décadas no mesmo sobrado, que resiste geração após geração. Ali, a casa é memória viva de um tempo em que quase tudo era feito à mão e com material da própria terra.

Para quem busca hospedagem, não há hotéis nem pousadas convencionais. A única opção é a casa de moradores que decidiram transformar a fazenda em pousada, abrindo portas para visitantes que gostam de natureza e não se importam com a falta de luxo.

Na propriedade de um casal, a recepção inclui uma vaca que atende pelo nome de Maravilha e é declaradamente viciada em banana, um detalhe que reforça a sensação de intimidade e simplicidade.

Felicidade perto da natureza e longe dos boletos

Apesar das dificuldades de viver isolado, com acesso limitado e poucos serviços à mão, os moradores repetem que não querem outra vida.

Ali, dizem, são felizes assim: perto da natureza, com poucos boletos para pagar, cercados por gente que se conhece e se ajuda. Para essa comunidade, viver como no passado não é atraso, é escolha de vida, uma forma de preservar aquilo que consideram essencial.

Enquanto o mundo discute velocidade de conexão e novidades tecnológicas, esse vilarejo mineiro segue firme em outro eixo, no qual o mais importante é o tempo compartilhado, a palavra dada e a paisagem que se vê da porta de casa. O relógio lá fora corre depressa; ali em cima da serra, ele parece marcar outro tipo de hora.

E você, encararia passar alguns dias em um lugar que vive como no passado, sem internet, sem ruas com nome e com a vida girando na base da confiança e da permuta?

FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS

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