O documento nacional redefine como o candidato será avaliado na rua, reduz o peso da manobra isolada e abre espaço para estados retirarem a baliza do circuito. Enquanto alguns Detrans adotam mudanças imediatas, outros esperam orientação técnica, e o debate sobre segurança ganha força com carros automáticos e novas exigências emocionais.
A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) neste domingo (1º) colocou em circulação um novo manual para orientar a prova prática de obtenção da CNH e, com isso, mexeu em um dos pontos mais sensíveis do processo: o que, afinal, deve definir se alguém está pronto para dirigir. A proposta é padronizar critérios, reduzir distorções entre estados e aproximar a avaliação do que acontece fora do circuito controlado, no trânsito real.
Na prática, a mudança não é “um botão que liga e desliga” no país inteiro no mesmo dia. A baliza deixa de ser obrigatória em parte dos estados, mas o candidato ainda precisa finalizar o percurso estacionando, e há Detrans que seguem exigindo a manobra por enquanto. O resultado é um cenário que mistura adaptação rápida, cautela administrativa e uma discussão pública incômoda: modernizar a prova forma motoristas melhores, ou apenas reduz uma etapa que muita gente teme?
O que muda quando a prova prática da CNH ganha um manual nacional
O novo Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular tenta colocar ordem em algo que, por décadas, foi percebido como desigual de um lugar para outro. A ideia é que a prova prática deixe de ser um “ritual mecânico” centrado em movimentos memorizados e passe a medir desempenho de direção com mais significado, como atenção ao ambiente, leitura de risco, respeito às regras e interação com quem divide a via.
Isso não significa “prova mais fácil” por definição, e sim prova mais coerente com situações de verdade. Um candidato pode executar uma baliza perfeita num espaço demarcado e, ainda assim, demonstrar insegurança em conversões, distância lateral, tomada de decisão e autocontrole diante de pressão.
O manual tenta capturar esse tipo de competência, que costuma ser o que faz diferença quando a rua deixa de ser previsível.
Baliza: por que deixou de ser etapa obrigatória em vários lugares
O ponto que mais chama atenção é a baliza perder o status de etapa obrigatória em parte do país. A justificativa técnica é direta: avaliar apenas uma manobra isolada, num espaço controlado, pode dizer pouco sobre como o motorista se comporta no tráfego cotidiano.
O foco migra do “acertar o cone” para “dirigir com responsabilidade”, o que inclui observar pedestres, ciclistas, sinalização, prioridade, velocidade compatível e previsibilidade.
Ao mesmo tempo, a baliza continua existindo no mundo real, e é exatamente por isso que o tema divide opiniões. Estacionar envolve noção espacial, controle fino do veículo, paciência e leitura de contexto, inclusive para não travar a fluidez de uma via.
O que muda é onde e como essa habilidade aparece na avaliação: o manual reforça a finalização do percurso com estacionamento, como fechamento do exame, mesmo quando a baliza “clássica” sai do centro do palco.
Trânsito real no centro: o que passa a ser observado na rua
A prova prática passa a valorizar um trajeto em via pública, porque é ali que surgem as decisões que diferenciam um condutor preparado de alguém que apenas decorou um circuito.
Atenção sustentada, respeito à sinalização, distância segura, uso correto de setas, posicionamento em faixas, leitura de cruzamentos e comportamento em situações de conflito entram como elementos que podem ser avaliados de forma mais rica quando há trânsito de verdade.
Outro ponto importante é o emocional. Quem dirige sabe: o volante cobra técnica, mas cobra também cabeça fria. O manual destaca que o controle emocional faz parte do que impacta a segurança, porque um erro comum de iniciantes é se perder no próprio nervosismo, acelerar decisões ruins ou “congelar” diante de um imprevisto.
Em vez de medir apenas a precisão da manobra, o exame passa a buscar sinais de maturidade de direção, com mais peso para o comportamento.
Estados em ritmos diferentes: quem já mudou e quem ainda espera
Alguns estados adotaram a retirada da baliza como etapa obrigatória e ampliaram o foco do percurso em via pública. Entre os exemplos citados, São Paulo derrubou a exigência recentemente, e Sergipe também retirou a obrigatoriedade. Amazonas, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul aparecem como casos em que a avaliação migra para um trajeto definido pelo Detran, sem depender de manobras específicas no formato tradicional.Play Video
Há ainda um dado que costuma surpreender quem vê isso como “novidade absoluta”: o Distrito Federal deixou de aplicar o teste de baliza lá em 2004.
E existe transição gradual, como no Mato Grosso, onde a mudança foi anunciada com implementação escalonada até 10 de fevereiro.
Ao mesmo tempo, muitos Detrans informaram que aguardavam diretrizes técnicas antes de alterar o modelo, o que ajuda a explicar por que o país, por um período, tende a conviver com critérios diferentes.
Carros automáticos na prova: um detalhe que muda o que “ser habilitado” significa
Outra alteração que ganhou força foi permitir que o candidato faça a prova com veículos automáticos em alguns lugares, como em São Paulo. Isso conversa com a frota real: segundo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular indicava 121 modelos e versões com câmbio manual entre 769 disponíveis, o que representa 15,7% do total citado.
Esse ponto é mais profundo do que parece. Se o carro que a pessoa vai dirigir no cotidiano é automático, exigir domínio de embreagem como condição absoluta pode soar desconectado da realidade.
Por outro lado, há quem veja risco de empobrecer a formação prática, principalmente se a migração para o automático ocorrer sem compensações pedagógicas, como mais treino de leitura de tráfego, frenagem, condução defensiva e tomada de decisão.
O debate que divide: modernização do exame ou motorista menos preparado
Na discussão pública, aparecem duas preocupações legítimas que nem sempre conversam entre si. De um lado, especialistas em direito de trânsito alertam que estacionar é rotina, influencia fluidez e segurança, e retirar uma etapa sem contrapartida na formação pode habilitar condutores com domínio insuficiente do veículo. O medo é simples: a prova muda, mas a rua não perdoa.
De outro lado, quem trabalha com psicologia do trânsito tende a olhar para o processo como um conjunto.
A crítica, nesse caso, não é apenas “baliza sim ou não”, e sim o risco de sucessivas mudanças sem tempo para medir resultados, principalmente quando há discussões paralelas sobre carga de aulas práticas e formatos de formação.
Nessa leitura, o problema não é adaptar o exame, e sim fazer isso sem acompanhar dados de reprovação, acidentes e qualidade de direção ao longo do tempo.
O que fazer se você está tirando a CNH agora
Para quem vai tirar a CNH, a regra prática é: acompanhe o padrão do seu Detran e entenda qual formato está valendo no seu estado. Mesmo onde a baliza não é obrigatória como etapa isolada, estacionar continua sendo parte do percurso e segue exigindo controle e noção espacial. E, no modelo mais conectado ao trânsito real, errar por falta de atenção, sinalização, prioridade ou postura defensiva pode pesar mais do que antes.
Também vale ajustar a expectativa sobre “o que estudar”. A preparação não pode ficar presa a decorar movimentos.
Treine o que sustenta direção segura: leitura de cruzamentos, controle de velocidade, distância de segurança, uso de espelhos, antecipação de risco, respeito a pedestres e ciclistas, e calma sob pressão. Em um exame que observa comportamento, o candidato é avaliado como condutor, não como alguém que apenas executa uma coreografia.
Se a prova prática da CNH precisa medir o trânsito real, a baliza deveria continuar obrigatória em todo o país ou faz sentido virar apenas uma parte do estacionamento final do percurso? No seu estado, o exame ainda cobra baliza como etapa separada? E, sinceramente: qual foi a parte mais difícil para você, a manobra ou lidar com o nervosismo na rua?
FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS





