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A vila dos “imortais” onde 15 moradores já passaram dos 100 anos e outros 171 dos 90: um cantinho em Okinawa onde a placa manda pedir “mais 20 anos pro céu” e o segredo da longevidade mistura dieta simples, amigos fiéis e um motivo diário pra levantar da cama

Ogimi, no norte de Okinawa, reúne hábitos, redes de apoio e uma rotina observada há décadas por pesquisadores, em um contexto que transformou a pequena vila japonesa em referência internacional quando o assunto é longevidade.

Na entrada de Ogimi, no norte da ilha principal de Okinawa, uma inscrição em pedra resume a imagem que tornou a comunidade conhecida dentro e fora do Japão: “Aos 80, você ainda é jovem. Aos 90, se seus ancestrais o convidarem para o céu, peça que esperem até os 100.”

A frase ajuda a explicar por que o local passou a ser associado à longevidade.

Em um dos retratos mais citados da vila, a população girava em torno de 3 mil moradores, com 15 centenários e 171 pessoas na faixa dos 90 anos, proporção incomum mesmo para o Japão, país que segue registrando recordes de população com 100 anos ou mais.

Em setembro de 2025, o governo japonês informou que o país havia chegado a 99.763 centenários.

Ogimi e o estudo sobre centenários em Okinawa

A atenção sobre Ogimi se consolidou ao longo de décadas de observação sobre o envelhecimento em Okinawa.

Desde 1975, o Okinawa Centenarian Study acompanha idosos da província e se tornou uma das pesquisas mais duradouras sobre centenários no mundo.

Em revisão publicada com base nesse trabalho, pesquisadores relataram que mais de mil centenários já haviam sido examinados até 2015 e descreveram um perfil marcado por menor incidência de doenças associadas ao envelhecimento, além de maior preservação funcional em comparação com outros grupos estudados.

Segundo os pesquisadores, não há um único fator capaz de explicar a longevidade observada em Okinawa.

Os estudos associam esse quadro a hábitos alimentares tradicionais, movimento incorporado à rotina, redes sociais consistentes e influência genética familiar.

Em artigos revisados por pares, integrantes da equipe do estudo afirmam que irmãos de centenários de Okinawa apresentam vantagem de sobrevivência em relação às respectivas gerações de origem, o que sugere participação da herança biológica.

Ao mesmo tempo, os próprios autores destacam que a genética, isoladamente, não explica o fenômeno e que ambiente e estilo de vida continuam no centro da análise.

Foi a partir desse conjunto de elementos que Okinawa passou a ser incluída entre as chamadas Blue Zones, áreas popularizadas pelo jornalista Dan Buettner como regiões de longevidade excepcional.

A classificação projetou Ogimi internacionalmente.

Ainda assim, o tema passou a conviver com questionamentos acadêmicos sobre a qualidade de parte dos registros demográficos e sobre o risco de transformar uma realidade social complexa em um modelo simplificado de estilo de vida.

Alimentação tradicional de Okinawa e a batata-doce roxa

No campo da alimentação, Ogimi costuma ser lembrada por uma cozinha de base vegetal, com poucos ingredientes processados e porções moderadas.

Revisões científicas sobre a dieta tradicional de Okinawa descrevem o consumo histórico de batata-doce, verduras, leguminosas, soja e pequenas quantidades de peixe, com baixa ingestão calórica total e alta densidade nutricional.

Nesse padrão alimentar, a batata-doce roxa ganhou destaque porque, durante décadas, ocupou espaço central na mesa da população mais velha.

Outro hábito frequentemente citado é o hara hachi bu, expressão usada para orientar a interrupção da refeição antes da saciedade completa.

A literatura científica sobre a dieta okinawana menciona essa prática como parte de um padrão de moderação alimentar que pode ter contribuído para menor exposição crônica ao excesso calórico ao longo da vida.

De acordo com os estudos, o ponto central não está em uma fórmula isolada, mas na combinação entre qualidade dos alimentos, quantidade ingerida e regularidade do hábito.

Rotina ativa, trabalho manual e envelhecimento com autonomia

Além da alimentação, a rotina dos moradores mais velhos costuma aparecer nos estudos como um componente relevante.

Em vez de exercícios formais, o que a literatura e os relatos sobre a vila descrevem são deslocamentos a pé, trabalho em hortas, tarefas domésticas e participação comunitária até idades avançadas.

O esforço físico, nesse caso, é distribuído ao longo do dia, com baixa intensidade e alta frequência.

Pesquisas sobre envelhecimento saudável indicam que esse tipo de movimento contínuo está associado à preservação da autonomia funcional.

Em Ogimi, esse cotidiano também se relaciona a atividades tradicionais que ajudam a manter vínculos sociais e senso de pertencimento.

Um exemplo local é o basho-fu, tecido feito com fibra de bananeira em Kijoka, distrito da vila.

O artesanato segue reconhecido como patrimônio cultural e enfrenta hoje o desafio de formar sucessores, em meio ao envelhecimento da população e à redução do número de artesãos especializados.

Ikigai, moai e os vínculos sociais em Okinawa

Outro conceito frequentemente associado à longevidade japonesa é o ikigai, termo usado para expressar razão de viver ou motivo para se levantar pela manhã.

Publicações recentes sobre o Okinawa Centenarian Study tratam o senso de propósito como um possível fator de proteção no envelhecimento, ao lado da resiliência e da coesão comunitária.

Isso não significa, segundo os pesquisadores, estabelecer uma relação automática entre propósito e aumento da expectativa de vida, mas reconhecer que utilidade percebida, rotina e engajamento social costumam aparecer junto de melhores indicadores de qualidade de vida na velhice.

Ao lado disso, a tradição do moai ajuda a explicar por que a vida social em Okinawa recebe tanta atenção.

O termo se refere a grupos de apoio formados por amigos ou vizinhos que permanecem próximos ao longo da vida.

Relatos sobre Okinawa e trabalhos sobre relações sociais e mortalidade apontam que vínculos duradouros funcionam como fator de proteção contra isolamento, estresse persistente e piora de saúde.

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Em uma meta-análise amplamente citada, pesquisadores concluíram que conexões sociais exercem influência relevante sobre o risco de mortalidade, em magnitude comparável à de fatores clássicos de risco à saúde.

As ressalvas sobre os dados de longevidade em Okinawa

A imagem de Okinawa como território imune aos problemas modernos, porém, não encontra respaldo integral nos dados mais recentes.

Estudos e análises demográficas mostram que a província perdeu parte da vantagem histórica em expectativa de vida masculina a partir dos anos 2000, em um contexto associado à ocidentalização da dieta, ao aumento da obesidade e a mudanças de comportamento entre gerações mais jovens.

Trabalhos mais recentes registram que Okinawa hoje enfrenta taxas de obesidade entre as mais altas do Japão, cenário diferente daquele que consolidou a fama de seus centenários.

Também há debate sobre a robustez de alguns registros de idade usados para sustentar narrativas sobre zonas de longevidade.

Fonte: CPG

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