Conheça Petrolândia, a “Atlântida Brasileira” submersa desde 1988, onde uma igreja resiste sob as águas e reaparece em períodos de seca.
Itaparica, a antiga cidade de Petrolândia, no interior de Pernambuco, foi alagada pela formação do reservatório no rio São Francisco. O projeto, conduzido pela CHESF, tinha como objetivo ampliar a geração de energia no Nordeste e deu origem ao Lago de Itaparica, que, segundo a Câmara dos Deputados, inundou 83,4 mil hectares e se estende por cerca de 150 quilômetros entre dois estados.
A construção do reservatório exigiu a retirada da população da sede antiga e a criação de uma nova Petrolândia em outro ponto do território. O antigo núcleo urbano, com ruas, casas, prédios públicos e igrejas, foi progressivamente engolido pelas águas, restando como remanescente mais visível a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, hoje tratada pela Fundarpe como um marco histórico e simbólico da antiga cidade submersa. Décadas depois, esse cenário ajudaria a popularizar a região no imaginário turístico como a chamada “Atlântida Brasileira”.
O caso também aparece com frequência em pesquisas sobre reassentamento populacional, deslocamento compulsório e impactos sociais de grandes barragens no Brasil. Em estudo depositado no repositório da UFPE, o enchimento do lago de Itaparica é associado a um processo que atingiu mais de 40 mil pessoas; já trabalhos acadêmicos da Univasf destacam que a reorganização territorial envolveu não apenas Nova Petrolândia, mas uma ampla rede de reassentamentos urbanos e rurais em Pernambuco e na Bahia.
Igreja do Sagrado Coração de Jesus se tornou o símbolo mais marcante da cidade submersa
Entre todas as estruturas que desapareceram sob o lago artificial, uma delas permaneceu como referência visual e histórica: a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Construída ainda no período original da cidade, a igreja não foi demolida antes do enchimento do reservatório, diferentemente de outras edificações.
Com isso, a estrutura passou a ficar parcialmente submersa, com sua fachada, escadaria e parte da torre permanecendo intactas ao longo dos anos. Em determinados períodos, quando o nível do rio São Francisco baixa, partes da igreja emergem novamente, criando uma das imagens mais emblemáticas do interior nordestino. Esse fenômeno não ocorre de forma constante, já que depende diretamente do regime hidrológico do rio, que varia conforme chuvas, vazões e operação da usina.
Variação do nível da água transforma a igreja em atração que surge e desaparece
A dinâmica do reservatório da Usina Luiz Gonzaga faz com que o nível da água oscile ao longo do ano. Em períodos de estiagem severa, como os registrados entre 2013 e 2015, o volume do lago caiu significativamente, expondo partes da antiga Petrolândia. Nesses momentos, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus voltou a aparecer de forma mais completa, permitindo que visitantes caminhassem ao redor da estrutura e observassem detalhes que normalmente ficam submersos.
Em fases de cheia, por outro lado, a igreja fica quase totalmente coberta pela água, sendo visível apenas parcialmente ou acessível apenas por mergulho. Essa alternância entre visibilidade e submersão contribuiu para consolidar o local como um ponto de interesse contínuo.
Turismo histórico e mergulho transformaram ruínas em destino visitado por todo o Brasil
Ao longo dos anos, a antiga Petrolândia deixou de ser apenas uma memória submersa e passou a integrar o circuito turístico do Sertão pernambucano. A igreja e outras estruturas inundadas passaram a atrair visitantes interessados em experiências que misturam história, paisagem e fenômenos naturais.
Passeios de catamarã levam turistas até a área onde a cidade foi submersa, permitindo observar a igreja de diferentes ângulos. Em paralelo, mergulhadores exploram partes da estrutura que permanecem abaixo da superfície, incluindo nave, colunas e elementos internos. Esse tipo de turismo ganhou força especialmente após a ampla divulgação de imagens da igreja emergindo parcialmente, que circularam em veículos de imprensa e redes sociais.
Processo de tombamento reconhece valor histórico da estrutura submersa
Em 2021, o governo de Pernambuco, por meio da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco), iniciou o processo de tombamento da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. O objetivo da medida foi reconhecer oficialmente o valor histórico e simbólico da estrutura, garantindo proteção institucional e preservação ao longo do tempo. A iniciativa também reforça a importância do local como patrimônio cultural, não apenas para a região, mas para a história recente do Brasil.
A igreja passou a ser tratada como um marco de memória coletiva, representando tanto o passado da cidade original quanto o impacto das grandes obras de infraestrutura sobre comunidades inteiras.
Projeto hidrelétrico transformou completamente a geografia local
A formação do lago de Itaparica alterou de forma permanente a paisagem da região. O reservatório ocupa uma área extensa ao longo do rio São Francisco, modificando ecossistemas, rotas de navegação e atividades econômicas. Além do impacto urbano, a inundação também afetou áreas agrícolas e zonas de produção, exigindo adaptação das comunidades deslocadas. O novo cenário trouxe oportunidades, como turismo e pesca, mas também desafios relacionados à reorganização econômica. A antiga Petrolândia permanece no fundo do reservatório como um registro físico dessa transformação, preservada de forma involuntária pelas águas.
Estruturas submersas criam um dos cenários mais incomuns do interior do Brasil
A combinação entre cidade abandonada, igreja parcialmente visível e variação do nível da água resulta em um cenário raro no país. Diferente de ruínas tradicionais, que permanecem estáticas, Petrolândia apresenta uma paisagem dinâmica, que muda conforme o comportamento do rio. Esse aspecto reforça o caráter singular do local, onde elementos urbanos convivem com um ambiente aquático, criando uma espécie de arquivo histórico submerso.
A imagem da igreja cercada por água, com o restante da cidade invisível sob a superfície, tornou-se uma das representações mais marcantes desse tipo de transformação territorial no Brasil.
Atlântida Brasileira se tornou um dos símbolos mais fortes do impacto das grandes obras
A história de Petrolândia é frequentemente associada ao debate sobre os efeitos de grandes projetos de infraestrutura. A construção da usina garantiu aumento na geração de energia, mas também resultou no desaparecimento físico de uma cidade inteira. Esse contraste entre desenvolvimento e impacto social é um dos pontos centrais do caso, que continua sendo estudado por pesquisadores e lembrado pela população local. A expressão “Atlântida Brasileira” sintetiza essa dualidade, ao mesmo tempo em que reforça o aspecto visual impressionante das estruturas submersas.
O que você acha da cidade que desapareceu sob as águas e ainda pode ser visitada
A antiga Petrolândia permanece como um exemplo concreto de como intervenções humanas podem redefinir completamente um território. Décadas após sua submersão, a cidade continua presente, ainda que invisível na maior parte do tempo. A igreja que resiste sob a água funciona como um elo entre passado e presente, revelando fragmentos de uma história que não desapareceu completamente.
Fonte: Click Petróleo e Gás





