Por João Vicente
Antônio Lopes de Oliveira entrou para a história como Major Lopes, o primeiro delegado da Cidade de Minas. Homem negro, vindo de Sabará, assumiu a segurança da nova capital em 15 de janeiro de 1895 a pedido de Aarão Reis, chefe da Comissão Construtora. Numa Belo Horizonte que ainda era poeira, canteiro de obras e projeto republicano, coube a ele organizar a força policial e impor ordem entre operários, engenheiros e imigrantes. Permaneceu no comando por 20 anos, até 1915, atravessando a transição de Cidade de Minas para Belo Horizonte. Sua figura virou lenda: era o delegado que conhecia cada beco da capital planejada antes mesmo dos becos existirem no mapa.

Abílio Barreto (1996, p. 350) descreve o Capitão Lopes como um homem: alto, moreno-escuro, corpulento, desempenado, calmo, voz suave, sempre risonho, muito amável, prudente, prestimoso e de uma energia férrea, com o pequeno destacamento de que dispunha, e que não passaria de 10 praças, instalado com sua delegacia em casinha velha sita à rua General Deodoro […] Conseguiu desde o princípio popularizar-se, fazendo-se estimado pela melhor sociedade e temido pela gente mal procedida. A narrativa de Abílio Barreto, que também se tornou oficial do Arquivo Público Mineiro e membro da Academia Mineira de Letras, possibilita a construção de uma certa imagem do Capitão Lopes, por meio dos traços físicos e emocionais percebidos pelo intelectual. Seu relato traz informações sobre a composição e localização do destacamento policial, além de aspectos sociais importantes, que possibilitam pensar o processo de exclusão sócio espacial que emergia juntamente com a cidade planejada. A corroborar seu relato, a Figura 1 mostra os homens que compunham o pequeno contingente da Brigada Policial.

O legado do Major Lopes na segurança pública de Belo Horizonte
Fundou a polícia da capital do zero. Quando chegou, BH era canteiro de obras. Não havia cadeia estruturada, nem efetivo fixo. Major Lopes organizou o primeiro corpo de guardas, instalou a delegacia provisória e criou rotinas de patrulhamento numa cidade que crescia em poeira e conflito entre operários imigrantes. Aplicou o Código de Posturas de 1895.Coube a ele fazer valer o primeiro conjunto de regras urbanas da capital planejada. Era lei contra batuque depois das 22h, vadiagem, construção irregular. Na prática, Major Lopes traduziu o papel da República para a rua. Isso moldou o jeito que BH lida com ordem pública até hoje. Equilibrou força e mediação. Relatos da época falam de um delegado rígido, mas que conhecia os trabalhadores pelo nome. Num território com italianos, espanhóis, portugueses e ex-escravizados recém-libertos, ele arbitrou brigas de bar, greves e crimes. Foi a primeira autoridade a dar cara à lei na nova capital. Representatividade negra no comando. Ser um homem negro chefiando a polícia em 1895, 7 anos após a Abolição, era ruptura. Ele ocupou o topo da hierarquia da segurança numa cidade que nascia para ser símbolo da modernidade republicana. Isso abriu caminho, ainda que invisível nos livros, para debates sobre quem pode exercer autoridade no estado. Longevidade que virou memória. 20 anos no cargo deram estabilidade à segurança pública enquanto prefeitos e engenheiros mudavam. Quando saiu em 1915, deixou uma estrutura que virou base para a futura Polícia Civil. A Rua Major Lopes, no São Pedro, hoje guarda esse nome como lembrete: a ordem em BH começou com ele.
Morreu em Alto Rio Doce, na primeira metade do século XX, distrito onde nasceu quando ainda pertencia a Piranga. Hoje, o lendário Major Lopes dá nome à rua mais boêmia do bairro São Pedro, ponto de encontro da BH que ele ajudou a vigiar quando tudo era apenas traço de prancheta. A placa na esquina é o lembrete de que a ordem da nova capital teve rosto, patente e cor desde o primeiro dia.
Fonte: Artigo Francis Albert Cotta – Afrodescendentes nas forças policiais de Minas Gerais
APM e Museu Histórico Abílio Barreto





