A proposta de alterar a fachada da Igreja Matriz de São Caetano, em Cipotânea, na Zona da Mata mineira, provocou uma onda de manifestações entre moradores e fiéis. O projeto de reforma prevê substituir os tradicionais detalhes em tons de amarelo pela cor azul, mudança que tem dividido opiniões e levantado questionamentos sobre a preservação da identidade histórica de um dos principais patrimônios religiosos do município. Nas redes sociais, dezenas de comentários demonstram que o assunto ultrapassou a questão estética e passou a envolver a participação da comunidade nas decisões relacionadas à igreja, construída com o esforço de gerações de moradores.
Apesar das críticas, os fiéis fazem questão de ressaltar que a insatisfação não é direcionada ao trabalho desenvolvido pelo pároco. “Não há como negar o trabalho maravilhoso que o padre faz por nossa cidade, e somos muito gratos por tudo. Ele tem total direito e autonomia para gerir a paróquia, e respeitamos isso. Mas, justamente por admirarmos sua liderança, esperávamos mais diálogo nessa questão da cor da nossa igreja. Mudar a identidade visual sem ouvir a grande maioria dos fiéis gerou esse ruído desnecessário. Que o excelente trabalho dele continue, mas com um olhar mais atento à participação de toda a comunidade”, escreveu uma moradora.
Outro ponto que gerou descontentamento foi a forma como a proposta teria sido apresentada. Segundo relatos de moradores, muitos fiéis sequer souberam da intenção de modificar a fachada antes que o projeto viesse a público. “Infelizmente, muitos fiéis, praticamente toda a comunidade, nem sequer foram informados sobre a proposta de mudança da cor da nossa igreja. Pelo que foi divulgado, a reunião contou apenas com alguns membros ligados às pastorais, sem que a comunidade em geral fosse convidada a participar de uma decisão tão importante”, afirmou outro morador.

Para parte da população, uma decisão que altera um dos principais cartões-postais da cidade deveria contar com uma consulta mais ampla.”Uma votação aberta à comunidade teria sido muito mais justa, transparente e representativa. Afinal, trata-se de um patrimônio que pertence a todos os fiéis, e não apenas a um pequeno grupo.” Os moradores também destacam que a atual aparência da igreja faz parte da memória coletiva de Cipotânea.
“Nossa paróquia é reconhecida há décadas por essa identidade visual, e essa mudança representa uma alteração significativa em sua história. Pela repercussão que acompanhei, muitas pessoas afirmaram que não sabiam da decisão e demonstraram não concordar com a mudança. Se a comunidade contribui com doações e ajuda a manter a igreja, é justo que também seja ouvida em decisões dessa importância”, comentou um fiel.
Uma história de quase 170 anos
A Paróquia de São Caetano possui uma trajetória marcada pela fé e pela participação popular. Ela foi criada em 6 de julho de 1857, quando o município ainda era conhecido como São Caetano do Xopotó, por iniciativa do então bispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso. O primeiro pároco foi o padre José Joaquim de Melo Alvim, que assumiu a paróquia em 1859.
Antes do atual templo, existia uma igreja construída em 1829. Com o passar das décadas, a estrutura apresentou sérios problemas de conservação. Durante o paroquiato do padre Argemiro Benigno de Carvalho, foi tomada a decisão de demolir a antiga matriz e construir um novo templo capaz de acolher melhor os fiéis.A demolição ocorreu em março de 1954, dando início às obras da atual igreja. Com a colaboração da população e o empenho da comunidade católica, o novo templo foi inaugurado solenemente em 7 de agosto de 1957, tornando-se um dos principais símbolos religiosos e arquitetônicos de Cipotânea.
Debate continua
A discussão sobre a nova pintura segue mobilizando moradores nas redes sociais e em conversas na cidade. Enquanto parte dos fiéis considera que a mudança representa uma renovação da igreja, outros defendem que a fachada tradicional deve ser preservada por seu valor histórico e cultural. Até o momento, a paróquia não se pronunciou oficialmente sobre os questionamentos levantados pela comunidade nem informou se haverá novas reuniões ou consultas públicas para discutir a proposta de alteração da fachada.



