Festa, que acontece no sábado (18) na comunidade de Santa Quitéria, em Congonhas, tem programação com Congado, Folia de Reis, futebol, fotografia e música
Até 18 de julho de 2025, a comunidade de Santa Quitéria, em Congonhas, na região Central de Minas Gerais, vivia sob a incerteza de seu futuro. Com parte dos moradores sendo alvo de desapropriações para a implantação de uma pilha de rejeitos de minério, o distrito se via de mãos atadas enquanto o reconhecimento como remanescentes de quilombo não saía. De lá para cá, muita coisa mudou, com a certificação oficial como território quilombola sendo publicada pela Fundação Cultural Palmares e, também, com a suspensão do processo de desapropriação pela Justiça. Por isso, a medida que é considerada um “divisor de águas” pelos moradores será alvo de uma celebração, no próximo sábado (18/7), com muita cultura popular e manifestações religiosas e artísticas.
Na ocasião, os moradores de Santa Quitéria lutavam há pouco mais de um ano contra os efeitos de um decreto de desapropriação, assinado em 2024 pelo governador Romeu Zema (Novo). A medida governamental visava liberar uma área de 261 hectares para a instalação de uma pilha de rejeitos de minério de ferro pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) — o que ameaçava diretamente os modos de vida e a permanência das famílias tradicionais, incluindo um casal de idosos que residia em uma casa centenária herdada de seus antepassados.
Uma das principais articuladoras do processo de certificação, a líder comunitária Aline Soares recorda que o último ano foi marcado por um intenso processo de mobilização social e fortalecimento interno do grupo. “Foi muita luta. Esse um ano foi de aprendizado, de entender sobre os nossos direitos, de entender que a gente é uma comunidade quilombola importante e que a gente tem nossa história que deve ser preservada”, pontua a liderança local.
Briga de “Davi e Golias”
Para os moradores, a persistência diante do poderio econômico das grandes companhias mineradoras que cercam o município de Congonhas é comparada a uma célebre passagem bíblica. “A partir de 2026, todos os anos a gente vai comemorar o dia 18 de julho, como um período de um um marco mesmo. Um marco de vitória da comunidade contra o Golias, né? É o Davi e o Golias, a gente sempre citou isso, que a gente é pequeno, mas representa muita coisa”, pondera a líder comunitária.
O reconhecimento formal pela Fundação Palmares trouxe fôlego jurídico e político para a comunidade blindar seu território tradicional de intervenções sem a devida consulta prévia, livre e informada, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). No entanto, a pressão do setor mineral não cessou por completo após o recebimento do título de autodeclaração.
“Muita coisa mudou depois disso. Tivemos um ataque, tentando contestar a nossa identidade quilombola, mas mudou também no sentido de comunidade. A gente está mais próximo”, relata Aline.
Programação
A festa de um ano do título começará logo pela manhã e se estenderá até a noite, concentrando-se nos arredores da tradicional Igreja de Santa Quitéria. O cronograma foi desenhado para expressar as diversas manifestações culturais que fundamentam a identidade do território, como o Congado e a Folia de Reis.
A abertura solene se dará às 10h, com uma missa em agradecimento à certificação quilombola, que contará com a participação da Folia de Reis de Santa Quitéria e com o lançamento oficial do Brasão do Quilombo.
Na sequência, às 11h, a juventude local toma a cena com a apresentação da Guarda de Congado Mirim do Quilombo Santa Quitéria – Projeto Nosso Lugar, seguida por uma intervenção cultural e bem-humorada com a Escola do Riso, apresentando o espetáculo “Risos para o Alto”.
O almoço comunitário e as tradicionais barraquinhas de comidas típicas e caldos da comunidade embalarão a tarde. A partir de meio-dia, o público poderá acompanhar uma roda de capoeira com o Grupo União da Praia Grande, integrada por alunos do próprio quilombo.
Outro destaque da comemoração será o encontro de ritmos: às 13h, a bateria da Escola de Samba Império Praiano, de Congonhas, fará uma apresentação especial em homenagem aos quilombos. “Então, é um marco de alegria e de felicidade, a importância de estar celebrando esse evento junto à comunidade, como a escola de samba que vai homenagear os quilombos, é muito importante para nós e muito gratificante”, celebra Aline.
As atividades esportivas e de lazer também terão espaço reservado. Um amistoso de futebol entre as equipes de Santa Quitéria e Caetano Lopes está marcado para as 15h, com premiação de troféus aos participantes. No fim do dia, a trilha sonora fica por conta do show de pagode com “amigos do Quilombo”, às 17h, seguido pela apresentação do DJ Gabriel, que encerra o evento a partir das 19h.
Para garantir que o momento histórico fique eternizado, haverá uma sessão de fotos gratuita voltada para os idosos, jovens e crianças da comunidade, buscando registrar a beleza e a identidade de seu povo.
“Quero parabenizar todos os moradores, todas as pessoas que contribuem para a nossa história ser cada dia mais bonita. Então, é só agradecer mesmo e falar que esse evento vai ser um marco para a gente”, conclui a líder comunitária.
Serviço
- O quê: Grande Festa do 1º Aniversário da Certificação da Comunidade Quilombola de Santa Quitéria
- Quando: Sábado, 18 de julho de 2026, a partir das 9h
- Onde: Comunidade de Santa Quitéria, Congonhas (MG)
- Atrações: Missa solene, Folia de Reis, Congado Mirim, capoeira, Bateria da Império Praiano, futebol amador, show de pagode, DJ Gabriel e barraquinhas de comidas típicas.
- Entrada: Gratuita e aberta ao público.
Fonte: O Tempo



