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Santana dos Montes revive quase três séculos de devoção na maior festa religiosa do município

 A cidade de Santana dos Montes, (145 km de BH e á 45 km de Conselheiro Lafaiete) está em festa nesse 26 de julho.  A comunidade católica celebra (depois de uma semana de atividades) o grande dia de sua padroeira. E essa tradição tem um valioso registro histórico:  data de 1729, a construção de uma capela em honra a Santa Ana de inciativa dos fazendeiros Manuel André e Antônio Duarte Correia. Estes vieram da Bahia, com as comitivas do fundador de Piranga, o capitão Américo Maciel Parente.  Chegaram ao antigo arraial de Santa Ana do Morro do Chapéu de Itaverava,  pelo Caminho do Callanday (caminhos vizinhos de um outro por onde trafega o ouro e tropeiros vários: a Estrada Real). Nossos pioneiros vieram do lugar denominado de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina. Hoje uma cidade com suas cachoeiras belíssimas e turismo intenso.

Mas a primeira fazenda que se tem registro no nosso Morro do Chapéu é a Fazenda Mau Cabello. Ali em 1717, um importante naturalista da corte portuguesa irá dar início a produção de víveres para alimentar a região do Ouro Preto, Itaverava, Catas Altas, Piranga…               Fazendas e fazendeiros estabelecidos em Santa Ana, conheceram a opulência da época do ouro, o “Ciclo do Ouro” produzindo alimentos para a vizinha região mineradora, aurífera. Esses fazendeiros vão construir suas “Casas da Rua”, sobrados que vão constituir hoje o Núcleo Histórico Urbano de Santana dos Montes, a sua origem. (um bem do Patrimônio Cultural de MG, tombado pelo IEPHA/MG).   Nos sobrados os fazendeiros vão “arranchar” vindos de suas fazendas, nos períodos festivos das datas da Semana Santa, do mês de Maria, da Festa da Padroeira Santana.  Sinhás e Sinhôs vão acompanhados de seus escravos. Vão morar por uns dias na rua, para estarem presentes nas celebrações, na comunhão, na confissão, nas missas, na quermesse. Ainda hoje, no Centro Histórico de Santana dos Montes, a presença de Senzalas, nos casarões urbanos vão registrar essa história.

É na Praça da Matriz, (Rua de Cima, da elite branca, atual Praça Aristides de Araújo Teixeira) que a vida cultural de Santana vai surgir, se abrilhantar e registrar ao longo desses 286 anos. Ás tradições da fé católica, a praça histórica vê surgir as manifestações mais caras de sua cultura, como as Bandas de Música (sim, Santana dos Montes tinha duas até meados dos anos 1960). A Folia dos Santos Reis, a viola e seus tocadores, o teatro, as várias bandas de Congado (que com o êxodo dos anos 1970 vão se reorganizar na periferia de Conselheiro Lafaiete), tem casa de jogos, apostas e bailes, sim senhor. Para além do teatro e das quermesses, a vida cultural é intensa. E é em torno das   celebrações da festa da padroeira que as atividades culturais mais concorridas vão acontecer tendo como palco, o lugar da origem dos santanenses: a Rua de Cima. Face desse amor de seus patrícios a essa cultura é que nos princípios dos anos 1980, é fundada a ASA (Associação dos Santanenses Ausentes. A ASA vai resgatar uma festa já em declínio e vão unir ausentes e presentes em torno de uma outra também sagrada tradição: O futebol. Nesse domingo dia 26, a ASA, vai realizar o seu 41º Festival Esportivo.

A tradição em honra á avó de Jesus e avó dos católicos remonta a tempos imemoriais da tradição cristã católica. O nome “Ana” vem do hebraico “Hanna” e significa “graça”. Santa Ana era de família descendente do sacerdote Aarão. Ela era esposa de um santo: São Joaquim que, por sua vez, era descendente da família real de Davi. A mãe de Maria e avó de Jesus tem na sua ancestralidade a devoção de Cristãos e de Muçulmanos. O Islã também mantém o dogma da Virgem Maria e a santidade de sua Mãe, Ana… Em Portugal (Península Ibérica) data do século XVI o inicio de registros da fé em Santa Ana. Aqui ela chega na Colônia como protetora dos engenhos, depois das Santa Casas de Misericórdia, dos educandários. Santa Ana ensina. Santa Ana é avó de Jesus.  Ao lado de São Joaquim.

Quando nesse domingo dia 26 de julho o andor conduzindo a tricentenária imagem de Senhora Santa Ana percorrer, (as 15hs) as ruas da antiga Santa Ana do Morro do Chapéu, em seus 286 anos consecutivos, acompanhada da Banda de Música, dos Congados e de seus fiéis devotos estará também conduzindo quase três séculos de uma tradição. De um povo, de um território marcado por sua história rica (assim também como pela história trágica da escravidão e do esquecimento da jornada dos irmãos negros que aqui fizeram – e fazem-sua caminhada). Estará a imagem de Santa Ana a lembrar uma história única em Minas Gerais, de uma cidade que tem fazendas históricas tombadas e que recebem turistas.  Os turistas e os santanenses estarão a rememorar não um lugar, um estado de espírito a ser visitado, ser revisitado e ser lembrado por muitas gerações.

  • José Geraldo Dutra é historiador de Santa Ana do Morro do Chapéu e das riquezas de Queluz de Minas e do Vale do Piranga

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