Celebração está prevista para o último fim de semana de agosto em Lafaiete; igreja que permanece no local foi concluída em 1774 e a tradição religiosa atravessou gerações
Houve um tempo em que havia um povoado ao redor daquela igreja. As casas desapareceram, a mineração transformou a paisagem e a Passagem do Gagé já não é o lugar que seus antigos moradores conheceram.
A igreja, porém, ficou.
E todos os anos as pessoas voltam.
No último fim de semana de agosto, uma tradição com mais de 150 anos deverá novamente reunir fiéis na Passagem do Gagé, em Lafaiete, para a Festa de Nossa Senhora do Rosário. A celebração atravessou profundas transformações do território e continua sendo realizada em torno de uma construção que é, por si só, parte importante da história da cidade.
Há uma particularidade que ajuda a contar essa história corretamente. A igreja onde ocorre a festa não é dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Sua padroeira é Nossa Senhora da Conceição. A informação é confirmada pela Arquidiocese de Mariana e pela própria Prefeitura de Conselheiro Lafaiete, que em 2021 precisou inclusive corrigir oficialmente a denominação do imóvel em seu decreto de tombamento.
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Passagem do Gagé foi construída no século XVIII e ficou pronta em 1774. Em 2024, portanto, completou 250 anos.
Ao redor dela existia um povoado. Com o passar do tempo, a área foi desapropriada em consequência do crescimento da atividade minerária. A Arquidiocese de Mariana registra que, daquele antigo núcleo, a igreja acabou permanecendo praticamente sozinha na paisagem.
É nesse cenário que a Festa de Nossa Senhora do Rosário adquiriu um significado que vai além do calendário religioso.
A Arquidiocese registra que a celebração tem mais de 150 anos. Depois de um período de interrupção, a festividade foi retomada em 2013 pelo padre Rogério de Oliveira Pereira, pároco da Paróquia Nossa Senhora da Luz, à qual pertence a comunidade da Passagem do Gagé.
Desde então, o último fim de semana de agosto voltou a levar movimento a um lugar marcado justamente pelo desaparecimento de seu antigo povoado.
Em diferentes edições, a programação reuniu caminhada de fiéis, celebrações religiosas, levantamento do mastro, procissão, coroação e participação de guardas de Congado. Em 2025, por exemplo, a Caminhada Mariana saiu do Santuário de Nossa Senhora da Luz em direção à Passagem do Gagé. Houve missas, almoço festivo e, durante a tarde, procissão com a imagem de Nossa Senhora do Rosário acompanhada pelas guardas de Congado de Lafaiete.
São elementos que ajudam a explicar como uma celebração conseguiu sobreviver mesmo depois de tantas mudanças ao redor dela.
O imóvel também possui proteção oficial. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Passagem do Gagé é tombada pelo município. Em 2021, um decreto da Prefeitura retificou o documento de tombamento de 2002 porque o bem havia sido registrado incorretamente como Igreja de Nossa Senhora do Rosário. A correção passou a adotar sua denominação histórica: Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Passagem do Gagé.
A Festa do Rosário, portanto, acontece dentro de uma igreja dedicada a outra invocação de Maria.
Isso não diminui a tradição. Pelo contrário, revela uma história construída ao longo do tempo pela devoção popular.
Em 2019, quando a Arquidiocese de Mariana publicou um registro sobre a celebração, já informava que a festa ultrapassava um século e meio de existência. Naquele ano, fiéis chegaram à Passagem do Gagé por diferentes caminhos: houve caminhada partindo da Praça do Cristo, cavalgada saindo de São Gonçalo e carreata do Gagé. A programação terminou com procissão e coroação de Nossa Senhora, acompanhadas pelo Congado.
Passados tantos anos, permanece uma imagem difícil de ignorar.
Um povoado desapareceu quase por completo. A igreja permaneceu. E, uma vez por ano, o caminho até ela volta a ser percorrido por pessoas.
Talvez seja essa a melhor medida da força de uma tradição.
A história da Passagem do Gagé está escrita em documentos, no patrimônio protegido e nas transformações da paisagem. Mas também continua sendo escrita quando alguém acorda cedo para fazer a caminhada, quando uma guarda prepara seus instrumentos, quando uma família retorna ao lugar onde viveram seus antepassados ou quando a imagem de Nossa Senhora do Rosário volta a sair em procissão.
Em 2026, a celebração está prevista para o último fim de semana de agosto.
A programação detalhada deste ano ainda precisa ser confirmada pela organização e, por isso, horários de missas, procissão e demais atividades não são antecipados nesta matéria.
Mais de 150 anos depois, porém, uma informação já é suficiente para contar boa parte dessa história:
onde quase tudo ao redor mudou, a festa continua.




