Pequena, acolhedora e preservada, capela centenária guarda uma devoção que nasceu de uma das mais fascinantes tradições do cristianismo africano
Muito antes de sua imagem chegar a Minas Gerais e encontrar abrigo numa pequena capela de Lafaiete, Santa Efigênia já atravessava séculos em uma história de reis, perseguições, fogo e fé. A tradição cristã apresenta Efigênia como uma princesa da antiga Núbia, na África, que conheceu o cristianismo por meio da pregação de São Mateus, o apóstolo identificado como o antigo cobrador de impostos que deixou sua atividade depois do chamado de Jesus.
Batizada e consagrada a Deus por Mateus, Efigênia rompeu com as crenças da corte e enfrentou a resistência provocada por sua conversão. Segundo a tradição preservada pela Igreja, sacerdotes pagãos decidiram oferecê-la em sacrifício e uma fogueira foi preparada para matá-la. Efigênia teria invocado Jesus diante das chamas e sido libertada por um anjo, episódio que não a fez recuar, mas aprofundou sua dedicação à propagação do cristianismo entre seu povo.
Sua história voltaria a se encontrar com o fogo durante o governo de Hirtaco, seu tio, que desejava casar-se com ela. Efigênia havia escolhido a vida consagrada e recusou o casamento. Hirtaco tentou obter a ajuda de São Mateus e, diante da resistência do apóstolo e da princesa, iniciou uma perseguição que a tradição também relaciona ao martírio de Mateus. Um incêndio atingiria posteriormente o lugar onde Efigênia vivia, mas ela teria sobrevivido pela intervenção divina. A imagem da santa carregando uma pequena igreja em chamas guarda a memória desses relatos e ajuda a explicar por que sua devoção ficou associada à proteção contra incêndios.


O irmão Efrônio também ocupa lugar especial nessa narrativa. Depois da queda de Hirtaco, teria sido proclamado rei e, segundo o relato preservado pelo Vatican News, governado a Núbia em paz durante 70 anos. Efigênia seguiu outro caminho, dedicado à vida religiosa e à difusão da fé, tornando-se uma das mais antigas figuras femininas ligadas à expansão do cristianismo na África.
É uma história grandiosa que, em Lafaiete, encontrou uma casa de proporções bem mais modestas. A Capela de Santa Efigênia chega aos 100 anos pequena, acolhedora e cuidadosamente conservada, carregando nas paredes algo que nenhuma construção monumental conseguiria fabricar: a memória das gerações que passaram por ela.
Em um século, foram muitos batizados, casamentos, celebrações, promessas e agradecimentos diante de seu altar. Crianças começaram ali sua caminhada religiosa, famílias se formaram e diferentes gerações transformaram aquele templo singelo em parte da própria história.
No próximo 23 de agosto, às 8h30, a comunidade celebra o centenário da Capela de Santa Efigênia. Mais informações sobre a festa em Lafaiete serão divulgadas em breve, mas a data já permite um encontro bonito entre duas histórias separadas por séculos e pelo Atlântico: a da princesa africana que, segundo a tradição cristã, não foi vencida pelas chamas e a de uma pequena capela mineira que há cem anos mantém acesa a sua memória.




