Aos 34 anos, a artista visual congonhense Walla Capelobo construiu uma trajetória que conecta memória, natureza, paisagem, mineração e questões relacionadas à extinção. Nascida em Congonhas, ela hoje vive e trabalha em Berlim, na Alemanha, e já apresentou trabalhos em importantes espaços de arte no Brasil e no exterior. Entre eles estão a Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul, e o Instituto Inhotim, em Minas Gerais.
Apesar de viver longe da cidade onde nasceu, a cidade permanece presente em sua produção. A infância passada no município, as montanhas, a natureza e até a terra do quintal da casa dos pais aparecem como referências para a construção de mundos e possibilidades em seus trabalhos. “Meu trabalho atual continua um pouco essa lógica de criar mundos e possibilidades de relações que à primeira vista parecem ser impossíveis”, conta Walla.
Para a artista, a relação com Congonhas também passa pela tradição cultural e artística do município. Uma de suas referências é a Sala dos Milagres, localizada ao lado do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. A ideia de registrar um milagre como manifestação estética se relaciona, segundo ela, com a própria maneira como constrói suas obras.
A paisagem congonhense e a presença da mineração também fazem parte desse percurso. Crescer próximo a uma barragem de rejeitos e acompanhar as transformações do território influenciaram sua percepção sobre a relação entre natureza, cidade e atividade mineradora. “É impossível ser uma artista e crescer próximo a uma barragem de rejeitos e ignorar essa realidade”, afirma.
Essas questões aparecem em trabalhos que discutem memória e extinção. Para ela, preservar lembranças é também uma forma de enfrentar o medo do esquecimento. As memórias da infância, da família, da terra e dos animais que fizeram parte de sua vida se transformam em matéria para a produção artística.
“Trabalhar com memória contra a extinção, que significa o não encarnar mais, o esquecimento, é uma maneira que encontrei de experienciar meus medos de forma simbólica. É um jeito de enganar o tempo feroz da vida”, explica.

De Congonhas para a Coreia do Sul
Em 2026, a artista levou uma dessas reflexões para a Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul, com a obra Suficientemente grande para cruzar todo o planeta. O trabalho aborda a “congonha”, planta ameaçada no Cerrado mineiro, e estabelece relações entre território, minério de ferro, histórias de trabalhadores e os fluxos globais associados à mineração.
O título da obra faz referência a um poema da escritor e poeta norte-americanos Audre Lorde. Para Walla, a ideia de cruzar o mundo não está necessariamente relacionada ao deslocamento físico, mas à capacidade de histórias, ideias e experiências ultrapassarem fronteiras. A recepção do trabalho na Coreia do Sul, segundo a artista, mostrou que uma questão ligada a Congonhas também pode dialogar com públicos de outras partes do mundo. “Meu trabalho atravessa várias realidades ao expor situações locais como parte da coreografia sinistra do capitalismo globalizado”, afirma.
Animais ameaçados e a memória como resistência
Outro trabalho apresentado em 2026 foi 12 fantasmas, no Inhotim. A obra aborda animais ameaçados pela expansão da mineração em Congonhas e parte da preocupação da artista com a preservação da vida em diferentes formas. Walla explica que seu objetivo é provocar uma reflexão sobre o valor atribuído às diferentes espécies e sobre as vidas que desaparecem sem necessariamente serem percebidas pela sociedade. “Gostaria de preservar o senso de valor por todas as vidas”, diz.
Para ela, a arte pode contribuir para ampliar a capacidade de imaginar outros futuros. A imaginação, nesse sentido, não aparece apenas como elemento de criação, mas como possibilidade de pensar caminhos diferentes para a relação entre sociedade, natureza e território. “Só experienciamos o que conseguimos imaginar antes, sem imaginação não existe futuro”, afirma.
Uma trajetória que começou em Congonhas
A artista reconhece que sua trajetória também foi construída a partir de oportunidades e do apoio recebido ao longo da vida. Ela estudou na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, ainda na adolescência, aprendeu inglês, experiência que considera importante para sua aproximação com oportunidades no exterior.
Mas, ao falar sobre o que possibilitou sua caminhada, Walla destaca principalmente a família. “Minha família, não conseguiria nada sem eles. Tenho orgulho do ser que eles me fizeram ser. Da sensibilidade que aprendi com eles e de todo amor que recebi que me proporciona ser quem sou hoje.”
Mesmo depois de viver e trabalhar em diferentes lugares, Congonhas continua sendo, para ela, um ponto de referência afetiva. É a cidade onde nasceu, onde sua família vive e onde passou grande parte da vida. “Enxergo com carinho e saudades. É o lugar onde eu sei que poderei estar tranquila como nenhum outro lugar me proporciona, é onde eu nasci, nada é mais importante do que isso na existência de alguém.”
Por Secretaria de Comunicação/Prefeitura de Congonhas



