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O paradoxo do emprego no Brasil: por que o país cresce, o desemprego cai e a mão de obra simplesmente não aparece

Mesmo com PIB em alta, desemprego em queda e ocupação perto do recorde, empresas relatam dificuldade crônica para contratar; estudo detalha como demografia, rotatividade, tecnologia e horas trabalhadas explicam esse fenômeno estrutural

Em 2025, o mercado de trabalho brasileiro apresentou indicadores que, à primeira vista, sugerem um cenário positivo. A taxa de desemprego seguiu em trajetória de queda, a informalidade desacelerou e o nível de ocupação se aproximou de máximas históricas. Paralelamente, o Produto Interno Bruto (PIB) passou a crescer acima das projeções iniciais do mercado, reforçando a percepção de recuperação econômica.

No entanto, apesar desse pano de fundo favorável, o discurso predominante entre empresários, especialmente dos setores de comércio, construção civil e indústria, foi outro. O relato recorrente de que “não há pessoas disponíveis para trabalhar” passou a se espalhar pelo país, criando um aparente descompasso entre os dados macroeconômicos e a realidade das empresas. Essa contradição é o ponto central do chamado paradoxo do emprego no Brasil.

A informação foi divulgada a partir de um estudo conduzido por Daniel Duque, pesquisador do FGV IBRE, que se propôs a investigar por que a sensação de escassez de mão de obra se tornou tão disseminada mesmo em um contexto de melhora dos indicadores tradicionais do mercado de trabalho.

Escassez de mão de obra não tem causa única, aponta estudo

O levantamento mostra que a dificuldade de contratação não pode ser atribuída a um único fator isolado. Pelo contrário, trata-se de uma combinação de tendências estruturais e conjunturais que atuam simultaneamente. Segundo o pesquisador, o avanço da transição demográfica, a elevada rotatividade no mercado de trabalho e as transformações tecnológicas nos vínculos de ocupação formam o núcleo do problema.

“Essa sensação de escassez não é necessariamente um fenômeno de uma causa só”, escreve Duque no estudo. “Ela pode ser o resultado de vários mecanismos atuando ao mesmo tempo, alguns conjunturais e outros profundamente estruturais.” Em outras palavras, mesmo políticas pontuais ou ciclos econômicos favoráveis não são suficientes para reverter rapidamente esse cenário.

Um exemplo emblemático dessa dificuldade aparece no setor supermercadista. Apenas no último ano, mais de 350 mil vagas foram abertas e não conseguiram ser preenchidas. Esse gargalo, inclusive, alimentou o debate no Congresso Nacional sobre mudanças na jornada de trabalho, como o possível fim da escala 6×1, frequentemente apontada como pouco atrativa para novos trabalhadores.

Bolsa Família, demografia e a base jovem da força de trabalho

Um dos pontos mais sensíveis politicamente analisados no estudo é o impacto do Bolsa Família sobre a oferta de trabalho. Utilizando a metodologia de diferenças em diferenças (DiD), a pesquisa identificou que, entre jovens homens das regiões Norte e Nordeste, houve redução na formalização e na participação no mercado de trabalho. No entanto, o resultado não foi apenas negativo.

De acordo com o estudo, surgiram efeitos considerados potencialmente desejáveis, como o aumento da matrícula escolar entre jovens beneficiários. Isso sugere que parte da redução na oferta de trabalho está associada a escolhas intertemporais, e não exclusivamente a um desestímulo ao emprego. Além disso, o pesquisador destaca que poucos beneficiários do Bolsa Família chegaram a ter vínculos anteriores com a indústria, o que relativiza o impacto direto do programa sobre esse setor.

Ainda assim, o fator mais relevante identificado não está nos programas sociais, mas na demografia. O Brasil deixou de crescer onde antes se expandia: na base jovem da população economicamente ativa. Essa mudança afeta de forma direta setores que tradicionalmente funcionam como porta de entrada para adolescentes e jovens adultos, como comércio e indústria.

Menos jovens, mais trocas de emprego e horas trabalhadas em queda

Os dados analisados mostram que apenas o efeito da transição demográfica explica quedas significativas no potencial de ocupação entre 2012 e 2025. Na indústria, a redução estimada foi de 0,34% na oferta de mão de obra explicada exclusivamente por fatores etários. No comércio e reparação, essa queda chegou a 0,56%, reforçando o caráter estrutural da escassez.

“A transição demográfica cria um tipo de escassez nacional e duradora que, mesmo com políticas públicas ou ciclos econômicos mudando, não se reverte no curto prazo”, afirma Duque. Diante desse cenário, o pesquisador defende que o Brasil passe a discutir políticas pró-natalidade, estratégia já adotada há décadas por países desenvolvidos.

Dados do IBGE reforçam essa tendência. Em 2024, o número de nascimentos caiu 5,8%, o equivalente a cerca de 146 mil registros a menos em comparação com o ano anterior. Com isso, a taxa de natalidade brasileira atingiu o maior percentual negativo dos últimos seis anos, aprofundando o desafio para o mercado de trabalho futuro.

Rotatividade elevada e o papel do trabalho por aplicativo

Outro elemento central do paradoxo do emprego no Brasil é a alta rotatividade. Dados da PNAD indicam que, entre 2022 e 2024, cresceu o número de trabalhadores que trocaram de emprego em intervalos curtos. Esse movimento pressiona os custos de reposição de mão de obra, eleva a instabilidade operacional das empresas e dificulta o preenchimento contínuo de vagas.

Além disso, a rotatividade aumentou entre trabalhadores com maior escolaridade, afetando setores mais técnicos e complexos, como a indústria. Isso contribui para a percepção de escassez qualificada, mesmo em um ambiente de desemprego relativamente baixo.Play Video

O estudo também analisou o avanço do trabalho por aplicativo. Segundo Duque, essas plataformas não “roubam” trabalhadores do mercado formal, mas funcionam como canais complementares de inserção e ajuste, sobretudo em grandes centros urbanos. Em vez de gerar escassez, o trabalho via apps ajudou a sustentar níveis de ocupação e renda para grupos mais vulneráveis, atuando como um amortecedor em períodos de transição.

Menos horas trabalhadas e desafios estruturais

Por fim, o levantamento identificou um problema adicional: a escassez de tempo produtivo. Em comparações internacionais, o Brasil apresenta uma carga horária semanal inferior ao esperado para seu nível de renda per capita e para sua estrutura etária. Homens e mulheres trabalham menos horas do que o padrão observado em países de desenvolvimento semelhante.

“O Brasil aparece trabalhando menos horas do que seu nível de desenvolvimento e sua demografia sugeririam”, afirma o pesquisador. Essa constatação reforça que o problema não está apenas na participação no mercado de trabalho, mas também na intensidade da oferta, medida pelo número de horas efetivamente trabalhadas.

Dessa forma, o paradoxo do emprego no Brasil revela uma equação inédita. A escassez de mão de obra não se resolve apenas com vagas abertas ou crescimento econômico. Ela exige reformas institucionais, adaptação tecnológica e políticas de longo prazo capazes de enfrentar mudanças profundas na estrutura da população e do trabalho.

Fonte: Exame

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