Do semiárido do Rio Grande do Norte às serras do Ceará, passando pelo coração de Goiás, fazendas gigantes de frutas transformaram paisagens desafiadoras em máquinas de produção que impressionam o Brasil e o mundo, com colheitas diárias que somam milhões de frutos.
Mais do que curiosidade, essas fazendas gigantes mostram como tecnologia, irrigação, manejo cuidadoso e visão de negócio conseguiram criar a maior fazenda de melão do planeta, o maior jabuticabal do mundo e a maior fazenda orgânica de acerola já registrada, consolidando o Brasil como uma potência em frutas tropicais.
A fazenda gigante de melão no semiárido do Rio Grande do Norte

Quando se fala em fazendas gigantes de frutas, é impossível não começar pelo melão potiguar. Em Mossoró, no Rio Grande do Norte, a caatinga e o agreste abrigam a maior produção de melão do Brasil e do mundo, com uma estrutura que virou referência em exportação.
Só para ter uma ideia de escala, o Rio Grande do Norte produziu 356 mil toneladas de melão em 2019, algo em torno de 61 por cento de toda a produção brasileira dessa fruta.
A maior parte desse volume sai da Agrícola Famosa, fundada em 1995 pelos sócios Luiz Roberto Barcellos e Carlos Povo, que cultivam cerca de 10 mil hectares de melão em áreas planas e totalmente irrigadas.
O ritmo de colheita é quase inacreditável. O técnico de controle de qualidade Johnson Leandro afirma que são colhidas cerca de 1 milhão de frutas por dia.
Tudo isso no meio da caatinga, com um sistema de irrigação que retira água de 28 poços profundos e distribui o recurso por meio de aproximadamente 50 milhões de metros de mangueiras.
Apesar da mecanização na colheita, o modelo de produção depende fortemente de pessoas. A fazenda gigante de melão gera em torno de 8 mil empregos diretos e 2 mil terceirizados nos sertões da região, movimentando a economia local e oferecendo oportunidades de trabalho em áreas onde, historicamente, as opções eram limitadas.
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Depois de colhido, o melão passa por lavagem, classificação e empacotamento no chamado packing house. Cerca de 70 por cento da produção é exportada para mais de 20 países, enchendo contêineres que saem direto da fazenda para o porto.
Além do melão, a empresa também produz melancia, mamão, banana e maracujá para o mercado interno, enquanto o gado se beneficia dos melões descartados por defeitos estéticos.
Ao redor dessa estrutura principal, outros produtores menores e empresas integradas se conectam à mesma cadeia produtiva e ao sistema de irrigação, encontrando no cultivo de frutas uma forma concreta de gerar renda, segurar o êxodo rural e melhorar a qualidade de vida no sertão nordestino.
O maior jabuticabal do mundo em Goiás

Se o melão gigante reina no semiárido, é em Goiás que o Brasil mostra outro rosto das suas fazendas gigantes de frutas: a jabuticaba. A poucos quilômetros de Goiânia, no distrito de Nova Fátima, em Hidrolândia, fica a Fazenda Jabuticabal, considerada o maior jabuticabal do mundo.
A história começou em 1947, quando o agricultor Antônio Batista da Silva decidiu plantar as primeiras mudas de jabuticaba na propriedade.
Ele era pedreiro e feirante, morava em Nova Fátima e vendia produtos em Goiânia, cidade recém-criada na época. Ao perceber a boa aceitação da fruta e o potencial de crescimento da nova capital, resolveu apostar pesado na jabuticaba.
Hoje, o resultado dessa decisão é impressionante: mais de 42 mil pés de jabuticaba espalhados por 130 hectares, formando um verdadeiro mar de árvores carregadas de frutos escuros durante a safra.Play Video
A fazenda se tornou parte do imaginário goiano e abre as portas à visitação entre o início de setembro e meados de outubro, quando a temporada está no auge.
Caminhar entre as jabuticabeiras é como entrar em um labirinto verde e roxo. Visitantes fazem piqueniques à sombra das árvores, penduram redes, tiram cochilos e passam o dia colhendo e comendo jabuticaba diretamente do pé.
As imagens de troncos totalmente cobertos de frutos maduros ajudam a explicar por que o lugar virou atração turística.
A família de Antônio cresceu junto com o pomar. Hoje, são 11 filhos e cerca de 120 descendentes, e aproximadamente metade trabalha com a jabuticaba.
Com o aumento da produção, a simples venda da fruta in natura já não dava conta de aproveitar tudo, e a solução foi industrializar.
Em 1999, a família montou uma vinícola dentro da fazenda, aberta à visitação. Lá, a jabuticaba vira caipirinha, sorvete, doce, geleia, cappuccino, cachaça, pasta para churrasco e várias outras combinações, como jabuticaba com chocolate branco, com pimenta, com doce de leite e com carne.
É um exemplo claro de como uma fazenda gigante de frutas pode agregar valor e diversificar a renda.
A propriedade ainda mantém uma brincadeira tradicional: quem conseguir comer uma jabuticaba de cada pé ganha a fazenda inteira. O desafio continua valendo, mas, com 42 mil árvores, fica fácil entender por que ninguém levou o prêmio até hoje.
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A maior fazenda de acerola orgânica do mundo no Ceará

O trio das fazendas gigantes de frutas brasileiras se completa no Ceará, em Ubajara, onde está a maior fazenda orgânica de acerola do mundo: a Fazenda Nutrilite.
Ali, os números também impressionam e mostram como o Brasil virou referência em produção sustentável de frutas.
A fazenda possui 1.300 hectares e mais de 200 mil pés de acerola, com uma produção de cerca de 10 mil toneladas de frutas orgânicas.
Em um viveiro de 42 hectares, são produzidas aproximadamente 50 mil mudas por ano, fortalecendo a reposição e a expansão da área plantada.
A estrutura envolve 112 produtores integrados e 280 empregos diretos, conectando famílias e comunidades ao redor do projeto.
A capacidade de processamento da fruta chega a 15 mil toneladas por ano, com cerca de 1.200 toneladas destinadas ao processamento em pó, formato muito utilizado na indústria de suplementos e alimentos.
Tudo isso começou em 1997, quando o desafio era transformar um pomar praticamente inativo, com algumas culturas convencionais de coco e maracujá, na maior fazenda produtora de acerola orgânica do planeta.
Décadas depois, o esforço se traduz em uma operação robusta, reconhecida internacionalmente pelos padrões de qualidade.
O Brasil concentra cerca de 90 variedades de acerola e 95 por cento do que existe no mundo, e o cultivo da fruta cresceu muito nos últimos 20 anos, tornando-se uma cultura importante para a economia do Nordeste. Mas, para ser orgânica de verdade, a produção precisa ir além da ausência de agrotóxicos.
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Na Fazenda Nutrilite, o conceito de sustentabilidade envolve os aspectos produtivo, social, ambiental e econômico. Isso exige investimento em processos, capacitação dos trabalhadores, apoio às famílias e integração com o entorno.
O manejo segue princípios da agricultura biodinâmica, que combina conhecimentos químicos, biológicos e até astronômicos na gestão da lavoura.
A irrigação é feita por gotejamento, o que traz baixo consumo de energia, uso eficiente de água e alta precisão na aplicação.
O sistema também é usado para fertirrigação, permitindo aplicar nutrientes junto com a água. O resultado foi uma economia de cerca de 70 por cento de água em relação ao pivô convencional, um ponto crucial em um país que convive com períodos de seca.
Outro avanço importante foi o desenvolvimento de máquinas específicas para a colheita mecanizada da acerola, algo que não tinha registro no Brasil até então.
Essas colhedoras reduziram custos, evitaram desperdício de fruta e liberaram a lavoura mais cedo para uma nova florada, aumentando a eficiência sem abrir mão do padrão orgânico.
Por que o Brasil domina as fazendas gigantes de frutas
Melão no semiárido, jabuticaba em Goiás e acerola orgânica no Ceará parecem histórias totalmente diferentes, mas essas fazendas gigantes têm algo em comum: todas nasceram da combinação de oportunidade de mercado, adaptação ao clima e investimentos em tecnologia e manejo.
Em Mossoró, a irrigação transformou a caatinga em polo global de melão. Em Hidrolândia, a visão de um feirante-pedreiro fez do jabuticabal uma marca registrada de Goiás, unindo turismo rural, indústria artesanal e tradição familiar.
Em Ubajara, um pomar quase parado se converteu em referência mundial de acerola orgânica, integrando produtores e incentivando práticas sustentáveis.
Esse conjunto de casos mostra que o Brasil não se destaca apenas pelo tamanho de suas lavouras de grãos ou seus rebanhos.
Também somos potência nas fazendas gigantes de frutas, capazes de abastecer mercados internos exigentes, exportar para dezenas de países e, ao mesmo tempo, gerar empregos, renda e inovação no campo.




