Saiba por que a Groenlândia é a maior ilha do mundo, não um continente, e como Trump colocou o território no centro da geopolítica global.
A Groenlândia, considerada a maior ilha do mundo, voltou ao centro do noticiário internacional nos últimos meses por dois motivos principais: a discussão científica sobre sua classificação geográfica e a crescente disputa geopolítica envolvendo grandes potências, incluindo declarações do ex-presidente americano Donald Trump.

O debate ganhou força agora, quando interesses econômicos, militares e ambientais se sobrepõem em um território estratégico localizado no Ártico, pertencente ao Reino da Dinamarca, mas com amplo grau de autonomia.
Por que a Groenlândia é a maior ilha do mundo
Apesar de possuir cerca de 2,16 milhões de quilômetros quadrados, a Groenlândia é frequentemente comparada à Austrália e à Antártica, que são territorialmente maiores.
No entanto, a ciência geográfica faz uma distinção clara: Austrália e Antártica são classificadas como continentes, enquanto a Groenlândia não.
Essa definição é adotada por instituições de referência, como a Enciclopédia Britannica, pelo governo da Dinamarca e também pelos sistemas educacionais, inclusive no Brasil.
Assim, a Groenlândia permanece oficialmente como a maior ilha do mundo que não se enquadra como continente.

O que diferencia uma ilha de um continente
Não existe uma regra única e absoluta, mas há critérios amplamente aceitos. Continentes apresentam grande extensão territorial, crosta continental espessa, autonomia tectônica e identidade geográfica própria.
É o caso da Austrália, que repousa sobre uma grande placa tectônica, e da Antártica, que possui vasta massa de terra firme sob o gelo.
Já uma ilha, de forma geral, é uma porção de terra cercada por água, menor que um continente e sem autonomia tectônica equivalente.
A Groenlândia se encaixa nesse perfil, pois compartilha placas tectônicas com a América do Norte, o que reforça sua classificação científica como ilha, e não como continente.
Fauna, placas tectônicas e convenções científicas
Além dos aspectos geológicos, entram na conta fatores como fauna, flora, história geográfica e convenções científicas consolidadas ao longo do tempo.
Embora a Groenlândia tenha dimensões continentais para muitos leigos, ela não atende ao conjunto completo de critérios necessários para ser considerada um continente.
Nesse contexto, regiões como a Oceania também costumam gerar confusão. A Oceania é uma região geográfica formada por milhares de ilhas no Pacífico, que inclui a Austrália — esta sim, reconhecida como o menor continente do planeta.
A maior ilha do mundo no centro da disputa global
Se antes a Groenlândia chamava atenção sobretudo por suas paisagens geladas, hoje ela ocupa um papel estratégico no tabuleiro internacional.
O território se tornou alvo de interesses econômicos e militares, especialmente após declarações de Trump sobre a possibilidade de ampliar a influência dos Estados Unidos na região.
Quem acompanha de perto esse cenário é Charles Mendlowicz, economista brasileiro que esteve recentemente na ilha gravando uma série especial.
Segundo ele, o clima político local é de tensão e curiosidade. “A palavra que eu mais escutei aqui foi Trump”, relatou, ao descrever conversas em cafés e espaços públicos de Nuuk.
Terras raras e a corrida tecnológica
Um dos principais interesses na Groenlândia está sob o gelo: as chamadas terras raras. Esses minerais são essenciais para semicondutores, painéis solares e para a infraestrutura que sustenta a inteligência artificial.
De acordo com Mendlowicz, a ilha possui 25 dos 34 minerais considerados estratégicos para a Europa e 43 dos 50 classificados como cruciais para a segurança econômica dos Estados Unidos.
Sem esses recursos, a corrida tecnológica global se torna inviável. Por isso, enquanto EUA e Europa buscam garantir acesso às reservas, a China atua de forma estratégica para proteger sua posição dominante no mercado global desses minerais.
Novas rotas marítimas e segurança internacional
O aquecimento global também elevou o valor geopolítico da Groenlândia. O derretimento do gelo no Ártico está abrindo novas rotas comerciais, capazes de reduzir significativamente o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a movimentação de submarinos russos e chineses na região.
Além disso, a ilha abriga bases estratégicas utilizadas em sistemas de alerta de mísseis, fundamentais para a defesa da América do Norte.
Esse conjunto de fatores explica por que a Groenlândia deixou de ser apenas a maior ilha do mundo para se tornar um ponto-chave da segurança internacional.
O dilema da população local
Apesar da atenção global, a população groenlandesa vive um impasse delicado. Existe um desejo crescente por mais autonomia em relação à Dinamarca, mas a economia local ainda depende de subsídios anuais que variam entre US$ 500 e 600 milhões.
A grande questão é se os moradores estão dispostos a trocar essa dependência por investimentos externos ou por uma aproximação maior com os Estados Unidos.
“O que deveria importar é o que a população quer”, questiona Mendlowicz, ao destacar que qualquer acordo futuro precisa considerar a vontade dos habitantes da ilha.
Diplomacia e soberania em debate
Recentemente, encontros diplomáticos em Nuuk reforçaram que a soberania da Groenlândia continua sendo um tema sensível.
A liderança dinamarquesa deixou claro que cooperação militar é bem-vinda, mas a integridade territorial não está em negociação. Já o governo local afirmou que nenhuma decisão será tomada sem consulta direta ao povo groenlandês.
Assim, a Groenlândia segue no centro de um debate que mistura ciência, economia e geopolítica. Entre ser a maior ilha do mundo, não ser um continente e atrair o interesse de potências globais, o território ártico se consolida como um dos pontos mais estratégicos do século XXI.




