AMOC, a Circulação de Reviravolta do Atlântico, está no nível mais fraco em 1.000 anos e pode colapsar nas próximas décadas, afetando chuvas no Brasil, invernos na Europa e o clima global.
Existe uma corrente oceânica que nenhum brasileiro aprendeu na escola, mas que decide quanto vai chover no Nordeste, quando a seca vai castigar o Norte e se os invernos europeus vão continuar sendo frios ou virar pesadelos de gelo. Ela se chama AMOC — Atlantic Meridional Overturning Circulation, ou Circulação de Reviravolta do Atlântico. E ela está falhando. Em outubro de 2024, 44 dos maiores especialistas em oceanografia física, modelagem climática e circulação oceânica profunda assinaram uma carta aberta apresentada na Conferência do Círculo Ártico, na Islândia.
O documento afirmava, de maneira direta e técnica, que o risco de colapso da AMOC vinha sendo “vastamente subestimado” pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. O alerta indicava que a corrente poderia atingir um ponto de não retorno nas próximas décadas, com consequências potencialmente devastadoras e irreversíveis para o sistema climático global. Não se tratava de ativismo ambiental. Era um alerta fundamentado em séries históricas, modelagem numérica avançada e evidências físicas observáveis.
O que é a AMOC e por que a Circulação do Atlântico Norte influencia o clima do Brasil
A AMOC é um componente central do sistema climático planetário. Trata-se de uma circulação oceânica de grande escala que transporta calor do hemisfério sul e das regiões tropicais para o Atlântico Norte. Esse mecanismo funciona como uma esteira transportadora térmica.
Águas quentes e salgadas originadas no Atlântico Tropical deslocam-se para o norte pela superfície. Ao chegarem às latitudes próximas à Groenlândia e à Islândia, liberam calor para a atmosfera europeia. Esse processo é responsável por tornar o clima da Europa Ocidental muito mais ameno do que seria em latitudes equivalentes no Canadá.
Após perder calor, a água se torna mais fria e mais densa. Ao mesmo tempo, a evaporação intensa no Atlântico Norte aumenta sua salinidade, tornando-a ainda mais pesada.
Essa combinação faz com que a água afunde para camadas profundas do oceano, formando a chamada Água Profunda do Atlântico Norte. Essa massa então retorna para o sul pelas profundezas, fechando o ciclo.
Esse sistema transporta aproximadamente 1 petawatt de energia por segundo, cerca de 50 vezes o consumo energético global humano. Sem a AMOC, estimativas indicam que a Europa poderia ser entre 5°C e 10°C mais fria em média.
Eficiência energética
Mas o impacto não é restrito ao hemisfério norte.
A posição da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal cinturão de chuvas tropicais do planeta, depende do equilíbrio térmico entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul. Quando a AMOC enfraquece, o Atlântico Norte esfria relativamente, deslocando a ZCIT para o sul. Isso altera o regime de chuvas na Amazônia e no Nordeste brasileiro.
O resultado potencial é:
- Redução de precipitação na Amazônia durante estações críticas
- Alteração do ciclo hidrológico no Norte do Brasil
- Chuvas mais intensas e concentradas no Nordeste
- Aumento do risco de enchentes fora de época
Ou seja, uma corrente no Atlântico Norte influencia diretamente o regime hídrico do Brasil.
Enfraquecimento da AMOC: evidências científicas apontam nível mais fraco em mais de 1.000 anos
A medição direta da AMOC só começou em 2004 com o projeto RAPID-MOCHA, que instalou uma rede de sensores permanentes na latitude de 26°N. Antes disso, os cientistas dependiam de proxies climáticos como:
- Sedimentos marinhos
- Isótopos em núcleos de gelo
- Anéis de crescimento de árvores
- Reconstruções de temperatura superficial
Em 2021, um estudo publicado na Nature Geoscience reuniu 11 indicadores independentes cobrindo 1.600 anos de registros indiretos. A conclusão foi clara: a AMOC está no seu estado mais fraco em mais de um milênio.
A desaceleração começou após a Pequena Era do Gelo, por volta de 1850. Porém, a aceleração do enfraquecimento coincide com o aumento exponencial das emissões de gases de efeito estufa a partir da segunda metade do século XX.
O principal mecanismo físico é a diluição da salinidade no Atlântico Norte.
A Groenlândia está perdendo aproximadamente 250 bilhões de toneladas de gelo por ano. Essa água doce despejada no oceano reduz a densidade superficial e dificulta o afundamento da água, etapa fundamental para manter a circulação ativa.

Em dezembro de 2025, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside analisaram séries históricas de temperatura e salinidade e confirmaram que o chamado “cold blob” — a mancha fria persistente ao sul da Groenlândia — só pode ser reproduzido em modelos que incluem enfraquecimento progressivo da AMOC.
Esse “cold blob” é considerado uma assinatura física do colapso em andamento.
Ponto de inflexão da AMOC: quando o colapso pode acontecer segundo modelos climáticos
Em 2023, pesquisadores da Universidade de Copenhague aplicaram métodos estatísticos de sistemas complexos para estimar o momento provável do colapso da AMOC.
A janela estimada foi entre 2025 e 2095, com ano mais provável em 2057. O estudo gerou controvérsia por usar modelos simplificados.

Entretanto, em 2024, pesquisadores da Universidade de Utrecht publicaram na Science Advances uma simulação de altíssima resolução que resolve redemoinhos oceânicos explicitamente. O modelo identificou um tipping point físico consistente — um ponto de ruptura além do qual a circulação entra em colapso irreversível.
Em 2025, Copenhague atualizou sua estimativa para 2065 como ano mais provável, mantendo a janela de risco entre 2037 e 2109.
Não é uma previsão exata. É uma faixa de risco que inclui a geração atual.
Impactos climáticos do colapso da AMOC na Europa e no hemisfério norte
Modelagens publicadas por van Westen e equipe mostram que, após o colapso:
- Londres poderia registrar extremos de inverno próximos a -20°C
- Oslo poderia atingir -48°C
- Expansão do gelo marinho no Atlântico Norte
- Redução drástica da temperatura média no norte da Europa
Isso ocorreria simultaneamente ao aquecimento global contínuo.
O professor Tim Lenton, da Universidade de Exeter, descreve o cenário como uma amplificação da sazonalidade: invernos muito mais frios e verões mais quentes, aumentando o estresse sobre infraestrutura energética, redes de transporte e agricultura.
Consequências do enfraquecimento da AMOC para o Brasil e a Amazônia
Modelos publicados na npj Climate and Atmospheric Science indicam que o enfraquecimento da AMOC:
- Aquece o Atlântico Tropical
- Desloca a ZCIT
- Altera a circulação atmosférica sobre a Amazônia
O Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA), em 2025, estimou que cada 1 Sv (milhão de m³ por segundo) de enfraquecimento aumenta 4,8% a chuva na estação seca da Amazônia Sul.
Mas esse aumento não compensa os impactos combinados de:
- Desmatamento
- Aquecimento regional
- Mudança de uso da terra
O risco estrutural permanece elevado.
AMOC como questão de segurança nacional: a reação da Islândia
Em novembro de 2025, a Islândia declarou o risco de colapso da AMOC como questão de segurança nacional. O governo iniciou planejamento estratégico envolvendo:
- Segurança energética
- Estoques alimentares
- Infraestrutura portuária
- Planejamento urbano
O país adotou o princípio da precaução: mesmo uma probabilidade de 25% é considerada inaceitável para um risco sistêmico irreversível.

O climatologista Stefan Rahmstorf, do Instituto de Potsdam, reforça que o problema não é certeza absoluta, mas a impossibilidade de descartar um colapso em uma janela de tempo ainda reversível.
Sistema climático global e irreversibilidade da circulação oceânica
A AMOC é um sistema não linear com múltiplos estados de equilíbrio. Registros paleoclimáticos mostram que, durante o último período glacial, a circulação já entrou em colapso abrupto em menos de uma década. A recuperação levou séculos.
Uma vez cruzado o tipping point, a reversão pode exigir condições climáticas radicalmente diferentes das atuais. A esteira transportadora do Atlântico levou aproximadamente mil anos para atingir o estado atual. Pode levar séculos para retornar e se retornar.
E toda ela depende de uma diferença delicada de densidade que está sendo alterada por 250 bilhões de toneladas anuais de gelo derretido da Groenlândia.
Um processo invisível ao olhar brasileiro, mas decisivo para o regime de chuvas da Amazônia, para a agricultura do Nordeste e para a estabilidade climática da Europa.
FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS




