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MADRIGAL RODA VIVA E A CULTURA EM MOVIMENTO; entrevista com o maestro e ex-secretário de cultura, Geraldo Vasconcelos

Maestro Vasconcelos: do canto à política cultural

Por Redação do Correio de Minas

Entre o rigor da partitura e o sopro invisível do espírito, o Madrigal Roda Viva segue erguendo, em 2026, um caminho luminoso entre passado e presente. Um coro que não apenas canta, mas interpreta a história, reanima a memória e projeta, no ar vibrante das vozes, possibilidades de futuro.
Retomando suas atividades em janeiro, o grupo mergulhou nos preparativos da Semana Santa como quem adentra o sagrado. E foi nesse espírito que, no dia 1º de abril, a Igreja Matriz de São Sebastião acolheu um dos momentos mais marcantes do calendário cultural e religioso da cidade.
O Ofício de Trevas: onde a música revela o invisível
A apresentação das Matinas de Quinta-feira Santa, de Jerônimo de Sousa Queirós, durante o Ofício de Trevas, foi mais que um concerto, foi uma cerimônia de profunda reflexão.
Com participações especiais de Éder Tavares ao piano, firme, sensível, sempre atento ao respiro do coro; de Orestes Tavares (violino II), preciso e elegante, sustentando a base com discrição refinada; e de Élcio Antônio Gomes (violino I), expressivo e seguro, conduzindo com brilho e presença, o Madrigal construiu uma interpretação em que ninguém estava ali apenas para acompanhar.Havia reflexão. Havia diálogo. Havia música acontecendo entre eles.Diante de um público que lotou a igreja, a obra revelou sua densidade espiritual e sua beleza essencial, conduzindo os presentes a um estado raro de atenção e recolhimento.


Mas há algo além da execução: há o pensamento. Há a consciência de que esse repertório carrega em si uma identidade cultural profunda. E é justamente sobre isso que o Correio de Minas conversou com o maestro Geraldo Vasconcelos.

CM pergunta | Maestro responde
CM: Maestro, o que caracteriza a música erudita mineira do século XVIII dentro do contexto brasileiro?
Maestro: Minas Gerais, no século XVIII, foi um verdadeiro laboratório de síntese cultural. Aqui, a tradição europeia, sobretudo portuguesa, encontrou a vitalidade de um povo em formação. A música sacra mineira nasce nesse encontro: é estruturada nos moldes do barroco europeu, mas carrega uma expressividade própria, um lirismo que dialoga com a religiosidade popular e com a experiência concreta das irmandades. Compositores como Lobo de Mesquita e Manuel Dias de Oliveira são exemplos dessa sofisticação enraizada no território.

CM: Por que preservar e executar esse repertório hoje?
Maestro: Porque ele nos constitui. Não se trata de um passado morto, mas de uma herança viva. Quando executamos essas obras, estamos reativando um pensamento estético, uma forma de organizar o sensível. É como abrir um manuscrito antigo e perceber que ele ainda nos lê. Preservar essa música é preservar uma maneira de ser e, sobretudo, de sentir em comunidade.

CM: E quais são os principais desafios dessa preservação?
Maestro: São muitos. Desde a dificuldade de acesso às fontes originais até a formação de intérpretes capazes de compreender o estilo. Essa música exige estudo, escuta refinada, domínio técnico e, ao mesmo tempo, humildade. Não se pode cantá-la com pressa ou superficialidade. É preciso compreendê-la por dentro. Suas intenções litúrgicas, sua retórica musical, sua respiração.

CM: O senhor acredita que essa música pode dialogar com o mundo contemporâneo?
Maestro: Não apenas acredito, vejo isso acontecer. Em um tempo marcado pela velocidade e pela dispersão, essa música nos convida à escuta, à interioridade, ao encontro. Ela nos ensina a coexistir. Um coro é, por excelência, uma escola de convivência: ninguém canta sozinho, ninguém se sobrepõe. Há uma ética do coletivo ali. E isso é profundamente atual.

CM: Podemos dizer que a música coral contribui para a construção de uma sociedade melhor?
Maestro: Sem dúvida. A prática coral educa para o respeito, para a disciplina compartilhada, para a escuta do outro. E quando essa prática se ancora em um repertório como o nosso, ela ganha ainda mais força simbólica. A música não resolve tudo, mas forma pessoas mais sensíveis e isso transforma a sociedade.
Cultura e cidade: riqueza, responsabilidade e futuro

CM: Como o senhor observa o cenário cultural de Conselheiro Lafaiete hoje?
Maestro: É uma cidade de uma riqueza artístico-cultural impressionante e plural. Temos realizações de rara beleza e qualidade, tanto no trabalho individual quanto nos grupos. Isso é extraordinário.
Mas nada disso é simples. Essa força criativa incide diretamente sobre a Secretaria de Cultura, que precisa de grande capacidade de articulação, diálogo e alinhamento.

CM: E como essa riqueza pode se sustentar?
Maestro: Com espírito coletivo. Uma cidade assim não pode abrir mão da força dos seus líderes para um movimento solidário. Quando o caminho favorece apenas interesses individuais, perde-se o essencial: o sentido de comunidade.

CM: Há boas perspectivas para a cultura no município?
Maestro: Sim. Sinto que a Secretaria está se estruturando com uma equipe interessada e com qualidade para bem nos conduzir. Isso faz diferença.
Cultura e gestão: o aprendizado

CM: O senhor esteve por oito meses na Secretaria de Cultura. O que isso significou?
Maestro: Um cargo dessa natureza, a gente não vem só… traz toda a história. E dela fazem parte a família, o Roda Viva… e todos nós levamos uns bons tropeços pelo caminho. Mas seguimos de pé e aprendemos. Amadurece.

CM: Como o senhor enxerga o papel da cultura na esfera pública?
Maestro: Cultura não pode ser balcão de eventos. Ela é fundamento da cidadania. Envolve formação, identidade, economia e política pública estruturante. E tudo isso precisa caminhar com excelência estética.
CM: Gostaria de deixar algum registro sobre sua passagem?
Maestro: Com gratidão. Agradeço ao prefeito Leandro Chagas pela confiança. Mas também com lucidez: há funções que pedem perfis específicos, e talvez eu não seja essa pessoa. Minha natureza é outra.
CM: E se surgir novo convite?
Maestro: (sorri) Errar é humano… mas insistir no erro já é caso de tratamento. E, como nos lembra Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe no meio da travessia”. Pois bem, sigo no caminho que me cabe. E, por ora, ele tem mais a ver com a música do que com as engrenagens institucionais do fazer cultural.
Camargos: a memória que ressoa
No dia 9 de abril, o Madrigal foi convidado para a reabertura da igreja da comunidade de Camargos, em Mariana, a mais antiga construção religiosa do município.
A solenidade, realizada pela Prefeitura e pela Arquidiocese de Mariana, contou com missa presidida pelo arcebispo Dom Airton José dos Santos, seguida de cerimônia cívica com autoridades.
O Madrigal intercalou as falas com obras cuidadosamente escolhidas, como se a música costurasse o tempo e devolvesse voz à própria história.
Um legado em movimento
O Madrigal Roda Viva reafirma-se como um dos principais intérpretes da música erudita brasileira, especialmente a mineira setecentista.
Mais que preservar, o grupo atualiza. Dá sentido. Faz com que o passado continue falando.
Num mundo fragmentado, o Madrigal oferece uma lição silenciosa: harmonia não é ausência de diferenças, é a arte de fazê-las coexistir.
E assim, entre vozes que se encontram, segue o coro, não apenas interpretando partituras, mas ajudando a compor, nota a nota, uma sociedade mais sensível, mais justa e mais humana.

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