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MG registra um caso de abuso sexual contra criança e adolescente por hora

Campanha Faça Bonito viabiliza ações de conscientização, prevenção e incentivo à denúncia

“Por que você não me ensinou antes?”. A voz, de quem só então compreendia o que havia vivido, veio de uma criança. A menina participava de uma atividade na creche Anna Medioli, em Betim, na Região Metropolitana de BH, e havia acabado de ouvir a história do livro “Não Me Toca, Seu Boboca”, da escritora Andrea Viviana Taubman, que aborda o tema do abuso de forma acessível ao público infantil. “Essa criança foi acompanhada, e realizamos os procedimentos de denúncia. Ensinamos quais partes do corpo podem ou não ser tocadas, e os pequenos passam a reconhecer os próprios limites. Tudo de forma leve, mas responsável”, diz Eloisa Ribeiro, assistente social da instituição.

A conscientização por meio de contação de histórias é uma das ações que têm promovido transformação social na creche, que atende mais de 300 crianças do Jardim Teresópolis. Neste Maio Laranja, que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado hoje, a instituição abraça a campanha Faça Bonito diante de uma estatística alarmante: em Minas, um crime contra a dignidade sexual de menores de até 17 anos é revelado a cada hora.

O dado é da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e mostra que, ao longo de 2025, foram notificados 8.505 crimes sexuais contra crianças e adolescentes em Minas, como estupro e importunação sexual. Neste ano, de janeiro a março, 2.034 vítimas denunciaram ter tido a inocência roubada.

Para enfrentar essa realidade, a campanha Faça Bonito, por meio da articulação do Grupo SADA, maior conglomerado de logística e transporte de veículos zero-quilômetro da América Latina, mobiliza ações em 127 cidades de 16 estados, em empresas, projetos sociais e creches, como a instituição Anna Medioli. Segundo a gerente de Sustentabilidade do Grupo SADA, Elisa Cunha, a sensibilização e a educação de toda a comunidade ajudam a romper o silêncio que cerca esse tipo de crime. “Os materiais da campanha Faça Bonito cumprem um papel essencial ao transformar informação em proteção”, diz.

Ela explica que os conteúdos da iniciativa têm duas linguagens: uma lúdica, adequada a crianças e adolescentes; e outra instrutiva, voltada a responsáveis, educadores e à sociedade em geral. “A campanha reforça que é papel do adulto ouvir, acolher e fazer os encaminhamentos corretos, inclusive por meio de canais de denúncia”.

Nas estradas, há ações da Faça Bonito em pontos de risco para meninas e meninos em situação de vulnerabilidade. Além dos colaboradores do conglomerado, a iniciativa leva atividades de prevenção ao abuso infantil para 80 postos parceiros da SADA Combustíveis. Motorista do grupo há 30 anos, Gerson Roberto do Nascimento, de 51 anos, se engajou na iniciativa após acessá-la pelas redes sociais e ações nos postos. “Pelo Grupo SADA, fui incentivado a repassar esses ensinamentos sobre atenção, prevenção e denúncia a outros colegas motoristas, que encontramos pelo caminho”.

Para a diretora de Sustentabilidade do Grupo SADA, Luisa Medioli, o sucesso da mobilização é resultado da responsabilidade social do conglomerado. “O Grupo SADA reforça seu papel como agente ativo na promoção de direitos e na conscientização social, ao mesmo tempo em que fortalece uma cultura organizacional baseada em ética, cidadania e engajamento coletivo, alinhada às práticas de ESG e ao desenvolvimento sustentável das regiões onde atua”, afirma.

Dança ajuda meninas a superar a dor

Ao longo da BR-116, a maior rodovia do Brasil, casas cor-de-rosa funcionam como refúgios para meninas que vivem em comunidades situadas às margens da chamada “rodovia da exploração”. As residências estão localizadas em cinco trechos da BR – em Padre Paraíso, Ponto dos Volantes, Medina, Cândido Sales e Catuji, estando este último município entre as piores colocações do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em Minas Gerais.

O encantamento, no entanto, ocorre por dentro dessas estruturas que lembram casas de bonecas: é lá que o projeto Meninadança empodera crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual a resgatar a dignidade e a segurança emocional. A base do trabalho é o acolhimento afetivo e jurídico das cerca de 250 meninas atendidas, mas o diferencial está no contato com a arte. Por meio de oficinas de dança, elas recuperam o poder sobre o próprio corpo. “Quando partimos de um problema como a violência, não é possível voltar no tempo, infelizmente”, diz Warlei Torenzani, cofundador e coordenador-geral do Meninadança.

Por meio da arte, essas meninas começam a se reconectar com o próprio corpo, que lhes foi subtraído. “A mudança é nítida: elas chegam retraídas e passam a caminhar com mais confiança, resgatando a alegria”.


Fonte: O Tempo / Isabela Abalen

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