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‘Trem de doido’ dá partida e chega à nova ‘Estação Vida’

Terminal de Barbacena vira Centro de Atenção Psicossocial com foco em crianças; instalada onde ex-internos do Colônia chegavam

BARBACENA. O som de crianças rindo enquanto inventam histórias em casinhas de brinquedo e empurram carrinhos de um lado para o outro ofusca o apito dos trens que chegam à estação ferroviária de Barbacena, no Campo das Vertentes. Os meninos, distraídos, estão em acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Capsi), uma edificação colorida que divide o muro com o terminal ferroviário. Inaugurada em 2019, a unidade é a mais recente da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do município, de 234 anos, e, com o nome “Estação Vida”, rompe com o estereótipo dos tempos do manicômio Colônia. Há mais de cinco décadas, ali desembarcavam dezenas de pacientes psiquiátricos que tinham como último destino o hospital, no que ficou registrado na memória mineira como o “trem de doido”. “Elas não iam voltar, nunca mais”, escreveu Guimarães Rosa ao traduzir o sentimento de luto antecipado das famílias dos ex-internos no conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, publicado em 1962.

O novo modelo de cuidado em saúde mental inverte a lógica: o Capsi, sempre de portas abertas, torna-se ponto de partida para uma vida fora dos muros da instituição – a Estação Vida. “O nome do nosso Capsi é muito emblemático. Considerando que aqui, pertinho, temos a estação onde os ‘trens de doidos’ chegavam para desembarcar inúmeros pacientes que daqui nunca mais saíam, nós somos uma estação da vida. Queremos que crianças e adolescentes em sofrimento psíquico possam se estabilizar e seguir para a vida, para a escola, para o território e para as atividades socioeducativas”, afirma o coordenador da unidade, o psicólogo Márcio de Campos.

Ele explica que o município, a partir da reforma psiquiátrica, substituiu o modelo manicomial de encarceramento dos pacientes pelo cuidado individualizado, multidisciplinar e em liberdade. Barbacena tem atualmente três Caps – dois deles 24 horas, incluindo unidades voltadas ao atendimento a usuários de álcool e drogas e ao público infantojuvenil – e nenhum leito psiquiátrico de longa permanência, já que os últimos 14 pacientes do Colônia recebem alta nesta semana. O cuidado é feito com projetos terapêuticos singulares, que podem incluir, por exemplo, rodas de conversa com a família e tempo na brinquedoteca.

“Aqui, encontra-se sempre o portão aberto. Inclusive nos momentos mais difíceis, de crise dos pacientes. Ninguém está preso ou internado. A depender da necessidade desse usuário, ele vai vir aqui todos os dias. Ou um dia sim, um dia não”, diz o coordenador.

Mesmo com todo o investimento e transformação que aconteceu dentro e fora dos estabelecimentos de saúde mental, o esforço para impedir o retorno da lógica manicomial é diário. A coordenadora de Saúde Mental de Barbacena, Flávia Vasques, ressalta que a mudança no cuidado não “mora” nas estruturas, mas na forma de enxergar os pacientes. “O manicômio pode estar dentro da gente. Você pode abrir um Caps, uma residência terapêutica, e transformar isso em uma estrutura manicomial. O que é ser antimanicomial? É apostar no outro, é entender que o outro, apesar do adoecimento, tem todos os direitos garantidos”, concluiu.

Cidade que mais investiu em saúde mental em MG

Em entrevista a O TEMPO, o secretário de Saúde de Barbacena, Gustavo Ferreira de Souza, destacou levantamento do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), divulgado no ano passado, que apontou o município como o que mais investiu em saúde mental por habitante no estado.

Conforme os dados divulgados no estudo, Barbacena registrou investimento de R$ 70,90 por habitante em 2024. A quantia representa mais que o dobro do segundo e terceiro colocados no ranking. Curvelo, na região Central do Estado, investiu R$ 35 para cada cidadão. Já São João del-Rei, também no Campo das Vertentes, apresentou custo de R$ 29 por habitante. “Sem dúvida, o caminho é a humanização. Estamos falando de um presente, em 2026, no qual a saúde mental ganha cada vez mais destaque. O caminho é fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), ampliar os Caps e estreitar os vínculos com a Atenção Primária à Saúde. E, sem dúvida, nunca mais retomar manicômios”, disse.

Ainda segundo Souza, a desinstitucionalização desses pacientes vem acontecendo desde 1999. “Atualmente, temos 22 residências terapêuticas que acolheram esses antigos pacientes, hoje moradores, para que possam criar vínculos com a comunidade e se socializar, como qualquer um de nós”, finalizou.

MINIENTREVISTA

Gustavo de Souza
Secretário de Saúde de Barbacena

Qual é o sentimento diante da concretização da saída dos últimos pacientes do Hospital Colônia? 

O sentimento é de assumir esse serviço com muita responsabilidade e de, finalmente, garantir direitos há tanto tempo esperados por esses moradores. Estamos falando do encerramento dos leitos de internação psiquiátrica na cidade. Os últimos 14 pacientes remanescentes do antigo Hospital Colônia terão, enfim, a própria residência, a própria casa, o próprio lar e vínculos com a comunidade.

O município enfrenta estigmas ligados à “loucura” e ao passado manicomial. Quais são os principais desafios nesse sentido? 

É, de fato, um desafio. Barbacena carregou por muito tempo o estigma de “cidade dos loucos”, e a história da loucura está, de fato, entranhada na história da cidade. Assumir o serviço das residências terapêuticas e concluir a desinstitucionalização desses pacientes nos deu a oportunidade de mostrar à população o trabalho construído no pós-Colônia e após a lei antimanicomial. É um trabalho realizado com muita excelência pela nossa equipe: mostrar que é possível construir um cuidado humanizado para pessoas em sofrimento mental.

FONTE; O TEMPO

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