O Começo de uma Saga, viagem aventura aos Vulcões e à cultura do Japão. Acompanhe minha expedição ao arquipélago japonês e conheça suas paisagens.
Há poucos dias, meus olhos estavam fixos no horizonte árido e monumental de Arequipa, no Peru. Deixei para trás a “Cidade Branca”, guardada pelo imponente Misti, após uma temporada intensa onde botei os pés no topo de seis vulcões andinos. Mas o descanso do montanhista dura pouco, ou melhor, dura o tempo de um voo transoceânico. Meu próximo destino? O Japão. Uma terra onde o fogo da Terra moldou não apenas a paisagem vertical, mas a própria alma e a cultura de um povo. Prometo: esta será uma saga repleta de montanhas e crateras orientais.
Para muitos, cruzar o globo em voos intermináveis é um martírio. Para mim, funciona como um hiato necessário, uma zona de transição e descanso entre uma expedição e outra. Saí de Arequipa na noite de 14 de julho, passei a noite em Lima e, no dia seguinte, segui sem pressa rumo aos Estados Unidos. No meio do caminho, um pequeno drama gastronômico: uma conexão tardia em Nova Iorque me impediu de traçar um clássico hambúrguer norte-americano — estava tudo fechado no aeroporto. Vindo de uma overdose do melhor ceviche peruano e prestes a mergulhar em oceanos de sushi e sashimi, o hambúrguer acabou ficando na imaginação.
O Encontro de Mundos no País do Sol Nascente
Pousei em Tóquio exatamente no raiar do dia, fazendo jus ao nome do país. Na chegada, a primeira conexão com as nossas próprias raízes: fui recebido pelo Kevin, um nissei de Maringá que já vive em terras japonesas há mais tempo do que passou no Brasil. O paradoxo da imigração personificado logo na alfândega.
Mal deixei as mochilas no hotel e o foco mudou para o reencontro. Encontrei a Simone e o Cavalieri, este último, um grande parceiro de estrada que já dividiu comigo seis expedições pela Soul Outdoor. Após enfrentar uma cirurgia delicada, essa viagem marca o retorno dele aos caminhos do mundo e à sua primeira montanha pós-recuperação. O grupo se completou com o Luis, que devido a um rearranjo de voos da companhia aérea, já cruzava a capital japonesa há mais tempo.
O Labirinto Subterrâneo (e um Desvio Inesperado)
Nosso primeiro objetivo cultural era claro: o icônico mercado de peixes de Tóquio, o coração pulsante do atacado de atuns e frutos do mar que abastece os restaurantes mais refinados da metrópole. Para chegar lá, o batismo de fogo de qualquer viajante: o metrô de Tóquio.
Se linguisticamente o Japão já é um desafio, o subsolo da capital é uma verdadeira obra-prima de engenharia… e de confusão para os recém-chegados. Ao contrário da maioria das grandes capitais do mundo, onde cada linha de metrô pertence a um único trajeto, em Tóquio a malha é compartilhada. Trens de diferentes companhias, com destinos completamente distintos, passam rigorosamente na mesma plataforma, com segundos de intervalo.
A regra é clara: piscou, pegou o trem errado.
E foi exatamente o que aconteceu conosco. Distraídos na leitura dos ideogramas e mapas complexos, embarcamos na composição errada. O resultado? O mercado de peixes ficou para trás e nós fomos parar direto em Yokohama, a segunda maior cidade do país, localizada a cerca de 30 quilômetros ao sul de Tóquio.
Historicamente, Yokohama foi um dos primeiros portos a se abrir para o comércio exterior no século XIX, transformando-se em um caldeirão de influências ocidentais. Geograficamente, hoje ela faz parte da “Grande Tóquio”, a maior megacidade do planeta, onde os limites entre os municípios desaparecem em um mar contínuo de asfalto, prédios e tecnologia.
Não deixamos o erro estragar o dia. Afinal, errar o trem no Japão é quase um rito de passagem para qualquer viajante. Após o nosso desvio involuntário até Yokohama, recalibramos a rota no complexo sistema de metrô de Tóquio. Nosso destino final acabou nos levando a uma das muitas ilhas artificiais que recortam a Baía de Tóquio — verdadeiros milagres da engenharia civil e do planejamento urbano japonês, construídos para expandir a megalópole sobre o oceano desde o período Edo.
Foi ali que desembarcamos para conhecer o famoso mercado de peixes. Para ser honesto, a experiência foi uma ponta de decepção. Na nossa imaginação de exploradores, caminharíamos livremente entre os tradicionais vendedores e grandes peixes. A realidade atual é bem diferente: o famoso leilão e o grosso do comércio acontecem de madrugada e, por questões de higiene e organização, os turistas hoje observam tudo de longe, através de galerias de vidro, contemplando um pavilhão já quase esvaziado. De qualquer forma, o desvio valeu a pena por um motivo sagrado: ali mesmo saboreei o meu primeiro sushi da viagem. Frescor e técnica incomparáveis. Uma verdadeira delícia.
O Nocaute do Jetlag e o Reencontro no Verão Japonês
O retorno ao hotel foi em ritmo de corrida contra o relógio. No meio da tarde, a equipe ganharia mais um reforço com a chegada da Kátia, uma grande amiga que conheci originalmente durante uma expedição ao Monte Kilimanjaro. No caminho, fomos castigados por uma chuva torrencial. O verão japonês não perdoa: o calor abafado acumula umidade e desaba em tempestades severas no fim do dia, uma dinâmica climática muito parecida com os dias mais quentes de verão no Brasil.
Cheguei encharcado, mas a tempo de recebê-la. Combinamos de sair assim que o toró passasse, mas o corpo cobrou o preço do fuso horário. Tomei um banho e o jetlag me deu um nocaute técnico. Dormi pesado das quatro da tarde até as três da madrugada, emendando um segundo round de sono até as sete da manhã. Estava zerado para o que vinha pela frente.
Enquanto o Cavalieri e a Simone saíram para visitar um amigo brasileiro, eu e a Kátia decidimos bater perna para explorar a fundo o asfalto de Tóquio.
Nos Passos de Naomi Uemura: Geografia e Inspiração
Pegamos o metrô — desta vez com a navegação já dominada — e rumamos para Itabashi, um simpático e pacato bairro residencial na zona norte de Tóquio. Meu interesse ali era puramente histórico e profissional: Itabashi foi o lar de Naomi Uemura, e hoje abriga um centro comunitário e um pequeno museu dedicados à memória deste que é um dos maiores nomes da história do montanhismo mundial.
Como geógrafo de formação, sinto uma conexão imediata com a trajetória de Uemura. Ele também se formou em Geografia e, logo após sair da faculdade, partiu para os Estados Unidos com apenas 110 dólares no bolso. Trabalhou duro, juntou cada centavo e transformou seus sonhos em expedições que parecem saídas de livros de ficção.
Uemura foi o primeiro japonês a atingir o cume do Everest, mas seus feitos vão muito além: ele cruzou o Ártico sozinho de trenó, desceu o Rio Amazonas em uma jangada improvisada e escalou montanhas extremamente técnicas no Peru, além do gigante Aconcágua. Ele desafiou os limites humanos até desaparecer precocemente, aos 43 anos, durante uma histórica e duríssima escalada invernal solo no Denali (Mount McKinley), no Alasca. Estar ali, absorvendo aquela energia e vendo seus equipamentos históricos, foi o combustível perfeito para a nossa própria jornada que está prestes a começar.
Da Calmaria de Meiji ao Caos de Shibuya
Saindo do reduto de Uemura, mergulhamos nos contrastes gritantes que fazem de Tóquio uma cidade única. Primeiro, caminhamos pelo Parque Meiji, uma floresta urbana monumental e sagrada incrustada bem no coração da metrópole. Dali, o ambiente mudou drasticamente ao entrarmos na icônica Rua Takeshita, uma via estreita, vibrante e superlotada, epicentro da cultura pop, da moda urbana.
Os dois primeiros dias foram de reconhecimento da capital japonesa, mas agora os demais integrantes já chegaram e o grupo está completo. A partir de amanhã, seguiremos rumo ao Monte Fuji para driblar o mau tempo ocasionado pelo calor e começar nossa expedição propriamente dita. Quantas montanhas iremos escalar? Me acompanhe para ver.
fonte: iG Turismo



