IONE MARIA MOREIRA DIAS BARBOSA, mais conhecida como Delegada Ione, é a entrevistada desta semana. Natural de Barbacena, foi em Juiz de Fora que construiu sua trajetória na Polícia Civil de Minas Gerais, tornando-se uma das principais referências na defesa dos direitos das mulheres e no combate a todas as formas de violência.Ao longo de sua atuação, destacou-se pela defesa intransigente da causa feminina e pela implementação de políticas públicas voltadas à proteção das vítimas. Entre suas principais conquistas está a criação da Casa Mulher Segura, iniciativa voltada ao acolhimento, proteção e assistência às mulheres em situação de violência e seus filhos.Em entrevista à nossa reportagem, a deputada ressaltou a importância do projeto.
“Ver a Casa Mulher Segura tornar-se referência para Juiz de Fora e para toda a Zona da Mata demonstra que iniciativas baseadas no acolhimento, na proteção da mulher e de seus filhos e na prevenção da violência têm o poder de transformar vidas e devolver esperança a inúmeras famílias.” Atualmente deputada federal, Delegada Ione busca a reeleição e pretende conquistar seu segundo mandato na Câmara dos Deputados.
CORREIO DE MINAS- Deputada, a senhora tem bom reconhecimento da população na Zona da Mata e é aprovada por grande parte da região. Diante disso, conte-nos um pouco da trajetória da senhora, seja como policial civil, seja como política e, claro, sobretudo, na condição de mulher de fibra.
Deputada Ione- Minha trajetória sempre foi guiada pelo propósito de servir às pessoas. Fui advogada e Procuradora do Município,Antes de ingressar na política, dediquei grande parte da minha vida à Polícia Civil de Minas Gerais, onde atuei como Delegada da Mulher, enfrentando diariamente casos de violência doméstica, abuso sexual e violações de direitos. Também fui diretora de presídio, experiência que me permitiu compreender a segurança pública em toda a sua complexidade. Foi justamente esse contato direto com a realidade que despertou em mim a vontade de ampliar essa atuação. Percebi que prender criminosos era fundamental, mas que também era necessário mudar as leis para proteger melhor as vítimas e prevenir a violência. Foi assim que entrei para a política.
Ser mulher nunca foi um obstáculo para mim; foi uma força. Ao longo da vida enfrentei desafios, preconceitos e momentos difíceis, mas sempre procurei responder com trabalho, firmeza e resultados. Tenho orgulho de representar a Zona da Mata levando para Brasília a experiência de quem conhece a realidade das pessoas e nunca perdeu o compromisso com elas.

CORREIO DE MINAS – Deputada, ao longo do seu mandato, o que pôde observar e concluir sobre a atividade parlamentar-legislativa em si, e de quais feitos mais se orgulha de ter realizado em seu trabalho?
Deputada Ione- O Parlamento é o espaço onde transformamos a experiência de quem vive os problemas da população em soluções concretas por meio das leis. Como delegada, eu aplicava a lei; como deputada, tenho a oportunidade de aperfeiçoá-la para proteger ainda mais as pessoas.
Ao longo do mandato, também aprendi que a atividade parlamentar vai muito além das votações em plenário. Ela envolve estudar profundamente os projetos, construir consensos, relatar propostas, fiscalizar a atuação do Poder Executivo, promover audiências públicas e ouvir a sociedade para que as leis reflitam as necessidades reais da população.
Tenho muito orgulho da minha produção legislativa. Já relatei 59 projetos de lei e sou autora de dezenas de proposições individuais e centenas de proposições coletivas, sempre com foco na proteção das mulheres, das crianças, da família e no fortalecimento da segurança pública.
Entre os projetos de minha autoria, tenho um carinho muito especial pelo PL 2823/24 que institui, na educação básica, uma disciplina voltada à prevenção da violência contra mulheres, crianças e adolescentes. Sempre digo que combater a violência apenas depois que ela acontece não basta. Precisamos formar uma cultura de respeito desde a infância. Se ensinarmos nossas crianças sobre respeito, empatia e dignidade, estaremos prevenindo a violência antes mesmo que ela aconteça.
Também me orgulho de ter sido relatora de projetos de grande relevância como o PL2568/24 para o país. Destaco a relatoria do projeto que fortalece o combate ao feminicídio, agravando a resposta penal do Estado diante de uma das formas mais cruéis de violência contra a mulher, inserindo os crimes cometidos com violência doméstica e familiar no rol dos delitos hediondos.Foi uma honra contribuir para o aperfeiçoamento de uma legislação tão importante.
Mais do que números, acredito que um mandato deve ser medido pelo impacto que deixa na vida das pessoas. É isso que procuro fazer todos os dias.
CORREIO DE MINAS -Delegada Ione, a Casa Mulher Segura, seu projeto, já tem uma longa história de contribuições com a sociedade. Como surgiu o processo de idealização? Como surgiu essa ideia? E, nessa jornada até aqui, do que mais a senhora se orgulha na acolhida da Casa Mulher Segura e dos impactos que causa para a sociedade juiz-forana e mesmo como referência na Zona da Mata como um todo?
Deputada Ione- A Casa Mulher Segura nasceu da minha experiência como Delegada da Mulher. Eu percebia que muitas vítimas procuravam ajuda apenas quando a violência já havia atingido níveis extremos. Também via que muitas permaneciam nesse ciclo porque não sabiam a quem recorrer ou acreditavam que, por terem filhos, não conseguiriam enfrentar aquela situação sozinhas. Foi dessa realidade que surgiu a ideia de criar um espaço de acolhimento, orientação e apoio.
Na Casa Mulher Segura, acolhemos não apenas a mulher, mas também seus filhos. Nosso trabalho é oferecer atendimento jurídico, psicológico e social de forma integrada, fortalecendo essas famílias para que consigam romper o ciclo da violência com segurança, informação e apoio. Muitas vezes, o simples fato de saber que existe uma rede preparada para acolhê-las faz toda a diferença para que tenham coragem de denunciar e recomeçar.
O que mais me orgulha não é a estrutura física, mas as histórias de transformação. São mulheres que recuperaram sua autoestima, romperam o ciclo da violência e puderam oferecer um futuro melhor aos seus filhos. Cada família fortalecida representa a confirmação de que acolher, orientar e cuidar também é uma forma de salvar vidas.
Ver a Casa Mulher Segura tornar-se referência para Juiz de Fora e para toda a Zona da Mata demonstra que iniciativas baseadas no acolhimento, na proteção da mulher e de seus filhos e na prevenção da violência têm o poder de transformar vidas e devolver esperança a inúmeras famílias.

CORREIO DE MINAS- Deputada, a gente sabe que para decidir-se na profissão de policial civil, é preciso ter vocação de servir. Observando as origens da senhora, é possível destacar algumas experiências vividas nos tempos em que ser policial era seu ofício central de vida, que a emocionaram e lhe deram a sensação de dever cumprido? Quais dias na condição de delegada, por exemplo, a senhora se lembra de ter colocado a cabeça no travesseiro com a sensação de dever cumprido? O que ocorria nos momentos felizes em que a senhora sentia-se exercendo exatamente a vocação de servir?
Delegada Ione – São muitas histórias que marcaram minha carreira, mas algumas permanecem vivas na memória porque representam exatamente o sentido da missão de um delegado de polícia.
Um dos casos que mais marcou minha carreira envolveu duas crianças. A vítima era uma menina que sofria abusos sexuais praticados por um familiar. O irmão dela, também uma criança, teve coragem e discernimento para registrar uma prova importante, numa atitude que demonstrou um enorme senso de proteção à irmã. Quando o caso chegou até mim, essa prova havia sido apagada na tentativa de impedir a responsabilização do agressor. Nossa investigação conseguiu recuperar o material, reunir todas as evidências necessárias e prender o autor. Saber que conseguimos interromper aquele ciclo de violência e devolver segurança àquelas crianças foi um daqueles dias em que deitei a cabeça no travesseiro com a certeza de que havia cumprido minha missão.
Outro caso que me marcou profundamente foi o caso Marina Gonçalves, um dos feminicídios de maior repercussão em Juiz de Fora e em toda a Zona da Mata. Marina era uma jovem mãe de três filhos que desapareceu, e a investigação revelou que havia sido assassinada pelo próprio marido, que ainda ocultou o corpo na tentativa de dificultar a descoberta do crime. A condução da investigação exigiu um trabalho técnico intenso, reunindo provas, esclarecendo a dinâmica dos fatos e permitindo a responsabilização do autor. Foi um caso que mobilizou toda a região e reforçou em mim a convicção de que cada investigação conduzida com seriedade representa não apenas a aplicação da lei, mas uma resposta às famílias que esperam por justiça.
Essas experiências moldaram a profissional que me tornei e continuam orientando minha atuação como deputada federal. Hoje, em vez de apenas aplicar a lei, trabalho para aperfeiçoá-la, sempre com o mesmo propósito que me acompanhou durante toda a minha carreira: proteger quem mais precisa e fazer justiça.
CORREIO DE MINAS- Deputada, pela sua experiência e sua trajetória, qual sua mensagem final para as mulheres que passam pelo drama da violência doméstica ainda mais com este feminícídio da Capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo.
Deputada Ione- O ciclo da violência doméstica e familiar é implacável e exige atenção imediata, pois a tolerância e a naturalização dos abusos psicológicos, morais, patrimoniais ou físicos costumam anteceder tragédias ainda maiores. Muitas mulheres acabam permanencendo na relação devido aos filhos ou à falsa expectativa de que o agressor mudará após um pedido de desculpas, mas a realidade demonstra que a agressividade tende a se intensificar com o tempo. Por isso, é indispensável que a vítima reconheça que não merece passar por isso, busque apoio na rede de proteção e estabeleça limites firmes ou a separação, garantindo assim uma vida digna e interrompendo um padrão nocivo que também traumatiza e corrompe o futuro emocional das crianças envolvidas.



