Antes de ser apresentação, é fé. Antes de ser festa, é memória. E muito antes de alguém falar em preservar tradições, famílias inteiras já faziam isso passando de pais para filhos os cantos, os passos, as bandeiras e o som dos tambores.
Neste domingo, 16 de agosto, uma dessas histórias volta a ocupar as ruas de Lafaiete.
A Guarda de Congo do Divino Espírito Santo recebe grupos de diferentes cidades da região para sua tradicional festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, transformando o bairro São João em ponto de encontro da cultura congadeira. A celebração está marcada para começar às 15h.
Não será apenas uma reunião de grupos folclóricos. Para quem participa do Congado, a bandeira é símbolo de devoção, o cortejo tem significado religioso e cantar, tocar e dançar são maneiras de manifestar uma fé transmitida entre gerações.
A própria história da Guarda de Congo do Divino Espírito Santo ajuda a explicar essa dimensão.
Com sede no bairro São João, o grupo reúne cerca de 40 integrantes e foi fundado pelo capitão José Jerônimo da Silva. Atualmente é presidido por Leandro da Silva Farias e tem em Maria Efigênia Vieira uma das principais guardiãs de sua memória familiar e da tradição afro-brasileira.
Mulheres e crianças ajudam a tradição a continuar
Há uma particularidade especialmente bonita nessa história: o protagonismo feminino.
Mulheres têm presença marcante na Guarda, participando da organização, dos cantos, dos instrumentos e da própria transmissão dos conhecimentos. Maria Efigênia começou ainda menina, acompanhando o pai nas celebrações. Depois, o filho entrou para o Congado e, mais tarde, ela formou uma guarda com forte participação de mulheres e de seus próprios netos.
É uma sucessão que não acontece em documentos ou cerimônias formais.
Acontece quando uma criança observa onde se segura uma bandeira. Quando aprende a respeitar o momento de uma oração. Quando descobre o compasso de um tambor. Quando acompanha os adultos pelas ruas e, aos poucos, deixa de apenas assistir para fazer parte.
A Guarda leva esse conhecimento também para escolas, igrejas e comunidades, aproximando crianças e novos públicos da manifestação cultural.
Lafaiete dentro de uma tradição que atravessa Minas
A Guarda do Divino não vive isolada.
Em junho de 2025, por exemplo, representou Lafaiete na Festa do Divino e no Encontro de Congados de Mariana. Treze guardas de dez cidades participaram daquela celebração. Lafaiete esteve representada por três grupos: a Guarda de Congo do Divino Espírito Santo, a Guarda Feminina São Jorge e a Banda Dança Nossa Senhora Aparecida e Divino Espírito Santo.
Esses deslocamentos ajudam a compreender a lógica do Congado.
Uma guarda visita a festa da outra. É recebida, participa das celebrações e, em outra ocasião, torna-se anfitriã. Assim se estabelece uma rede que atravessa municípios e mantém vivas relações construídas pela religiosidade popular.
Neste domingo, é a vez de Lafaiete receber.
A festa da Guarda do Divino realizada neste período do ano não é novidade. Em 2026, grupos de diferentes cidades são novamente esperados no bairro São João para a celebração de Nossa Senhora do Rosário.
Muito mais que uma festa
O Congado reúne elementos da religiosidade católica e da ancestralidade africana numa manifestação construída e transformada ao longo de gerações.
Por isso, reduzir uma guarda a uma apresentação de dança significa enxergar apenas a parte mais visível de algo muito maior.
Existem famílias, hierarquias, símbolos, promessas, devoção, música e conhecimento transmitido oralmente.
Em Lafaiete, essa memória ganhou inclusive espaço institucional. Os grupos congadeiros da cidade foram homenageados na reinauguração do Memorial do Congado, no Museu e Arquivo Antônio Perdigão, criado para preservar parte da história dessas manifestações.
Mas nenhum memorial consegue preservar sozinho uma tradição.
Ela permanece verdadeiramente viva quando alguém continua praticando aquilo que recebeu.
É isso que torna significativa a presença das crianças entre os congadeiros. Elas não estão apenas acompanhando uma festa. São a possibilidade de que, daqui a décadas, ainda existam bandeiras levantadas, vozes respondendo aos cantos e tambores anunciando pelas ruas que aquela história não terminou.
Neste domingo, quando as guardas chegarem ao bairro São João, Lafaiete receberá visitantes.
Mas receberá também algo muito mais antigo.
Uma memória que aprendeu a sobreviver caminhando.
Serviço
Festa da Guarda de Congo do Divino Espírito Santo
Domingo, 16 de agosto
A partir das 15h
Bairro São João, Lafaiete
Celebração em homenagem a Nossa Senhora do Rosário
Participação de guardas de Congado de Lafaiete e de outras cidades da região.




