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Carros europeus mais baratos no Brasil? Entenda como o novo acordo UE-Mercosul pode mudar o setor automotivo nos próximos anos

Acordo histórico entre Mercosul e União Europeia estabelece regras para tarifas automotivas, mas efeitos dependem de ratificação, prazos longos e exigências técnicas que influenciam preços, estratégias industriais e o ritmo de abertura do mercado brasileiro nos próximos anos.

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, assinado em 17 de janeiro de 2026, estabelece um cronograma de redução de tarifas que pode, ao longo dos próximos anos, diminuir o custo de importação de veículos europeus no Brasil.

Apesar disso, o tratado não produz efeitos imediatos no mercado automotivo nacional, já que depende de ratificação interna e prevê prazos longos para a aplicação das mudanças.

Atualmente, a tarifa brasileira para a importação de automóveis provenientes da Europa é de 35%.

De acordo com o portal Motor1, essa alíquota só começa a ser reduzida após a entrada em vigor do acordo e segue um calendário escalonado, que se estende por mais de uma década.

Além disso, o acesso às tarifas preferenciais está condicionado ao cumprimento de regras de origem, que exigem percentual mínimo de conteúdo produzido dentro dos blocos envolvidos.

Ratificação do acordo UE-Mercosul ainda define o início das mudanças

A assinatura do acordo não implica aplicação automática.

O texto precisa ser aprovado internamente pelos países do Mercosul e, no caso europeu, passa por análises institucionais adicionais.

Em 21 de janeiro de 2026, o Parlamento Europeu encaminhou o acordo para avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia, procedimento que pode prolongar o processo de validação.

Ao mesmo tempo, autoridades europeias indicaram publicamente a possibilidade de discutir formas de aplicação provisória do tratado, desde que haja respaldo jurídico e aprovação em pelo menos um dos países do Mercosul.

Esse movimento, no entanto, depende de decisões políticas e legais que ainda não foram concluídas.

No Brasil, enquanto essas etapas não forem superadas, seguem valendo as regras atuais.

Isso significa que veículos importados da União Europeia continuam sujeitos à alíquota de 35% de Imposto de Importação, além de outros tributos e custos que influenciam o preço final ao consumidor.

Cronograma de redução de impostos para carros importados

O acordo estabelece cronogramas distintos para diferentes tipos de veículos.

No caso dos automóveis leves a combustão, a tarifa permanece em 35% durante os primeiros anos de vigência, sem qualquer redução inicial.Play Video

A partir do chamado sétimo ano, a alíquota começaria a cair gradualmente, partindo de 28,3% até alcançar a isenção total no 15º ano.

Para veículos elétricos e híbridos, o calendário é mais longo e parte de uma tarifa inferior.

As informações divulgadas indicam uma alíquota inicial de 25%, com reduções progressivas ao longo dos anos seguintes, passando por faixas intermediárias até chegar a 0% apenas a partir do 18º ano de vigência do acordo.

Já tecnologias classificadas como mais avançadas, como veículos movidos a hidrogênio, estão inseridas em um cronograma ainda mais extenso.

De acordo com o texto negociado, esses modelos podem levar até 35 anos para alcançar isenção total de imposto de importação.

Independentemente da categoria, o acesso às tarifas reduzidas depende do cumprimento das regras de origem.

O acordo exige que pelo menos 55% do valor do veículo seja produzido dentro do Mercosul ou da União Europeia, com o objetivo de evitar que produtos de terceiros países se beneficiem das condições preferenciais sem integração produtiva efetiva.

Impactos potenciais no preço dos carros no Brasil

Especialistas do setor avaliam que, no longo prazo, a redução gradual das tarifas pode ampliar a oferta de veículos europeus no Brasil e, potencialmente, influenciar os preços em determinados segmentos.

Ainda assim, o impacto final para o consumidor depende de outros fatores, como variação cambial, política comercial das montadoras, custos logísticos e carga tributária interna, que não é alterada pelo acordo.

Na prática, os efeitos mais perceptíveis tendem a ocorrer apenas quando as alíquotas se aproximarem de zero.

Até lá, a redução parcial pode favorecer operações específicas de importação, sem necessariamente provocar mudanças amplas e imediatas nos valores praticados nas concessionárias.

Avaliação da indústria automotiva brasileira

Do ponto de vista da indústria brasileira, o acordo é analisado sob diferentes ângulos.

Representantes do setor apontam que a previsibilidade regulatória e a abertura de mercados podem favorecer investimentos e exportações.

Segundo Milad Kalume Neto, diretor executivo da K.Lume Consultoria Automobilística, “a redução de tarifas de importação e exportação de veículos e autopeças tende a aumentar a competitividade dos produtos fabricados nos dois blocos”.

Kalume também destaca que fabricantes instalados no Mercosul já produzem modelos com potencial de aceitação no mercado europeu, desde que atendam às exigências técnicas e regulatórias daquele bloco.

Nessa avaliação, o acordo pode criar condições para ampliar o fluxo comercial bilateral, especialmente em um contexto de reorganização das cadeias globais de produção.

Autopeças e tecnologia flex no acordo UE-Mercosul

Outro ponto citado por analistas é o impacto sobre o setor de autopeças.

A diminuição de barreiras tarifárias pode facilitar a integração entre fornecedores do Mercosul e da União Europeia, com ganhos de escala e ampliação das exportações de componentes.

tecnologia flex, amplamente utilizada no Brasil, também aparece nas discussões do setor.

Especialistas apontam que esse tipo de solução pode dialogar com estratégias de transição energética, sobretudo em aplicações híbridas.

A adoção em larga escala na Europa, no entanto, depende de políticas ambientais, decisões industriais e aceitação do mercado local.

Concorrência, salvaguardas e proteção da indústria nacional

(Imagem: Reprodução/QuatroRodas)
(Imagem: Reprodução/QuatroRodas)

Ao mesmo tempo em que cria oportunidades, o acordo impõe desafios à indústria instalada no Brasil.

A entrada gradual de veículos europeus com tarifas reduzidas tende a aumentar a concorrência em determinados segmentos, exigindo ajustes em estratégias de produção, inovação e custos.

Para lidar com possíveis impactos negativos, o tratado prevê mecanismos de salvaguarda.

Caso seja comprovado que o aumento das importações causa dano significativo à indústria local, o governo brasileiro poderá suspender temporariamente a redução das tarifas e restabelecer alíquotas mais altas, conforme as regras estabelecidas no próprio acordo.

Com prazos longos, exigências técnicas e possibilidade de aplicação de salvaguardas, o acordo UE-Mercosul desenha um processo de mudanças graduais no setor automotivo.

FONTE: CLICK PETRÓLEO E GÁS

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