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O “Trem para as Nuvens”: ferrovia que sobe a 4.200 metros na montanha, atravessa viadutos vertiginosos e toca o céu

O ar rarefeito da Puna de Atacama engole o som dos trilhos. A 4.220 metros de altitude, o Tren a las Nubes cruza um viaduto em curva sobre o vazio, e os passageiros sentem que podem estender a mão e tocar o céu. Essa ferrovia, na província de Salta, é uma das mais altas do planeta, mas o que a torna única vai além da altitude.

Por que esse trem não usa cremalheira para subir os Andes?

Ferrovias de montanha costumam depender de trilhos dentados, o sistema de cremalheira, para vencer inclinações extremas. O Tren a las Nubes dispensou esse recurso. O engenheiro americano Richard Fontaine Maury, nascido na Filadélfia em 1882, desenhou um traçado sinuoso que resolve a subida com zigzags e espirais chamados “rulos”. Nos zigzags, a composição avança, para, recua em marcha à ré e retoma o avanço em nível mais alto. Nos rulos, o trem descreve um círculo quase perfeito, ganhando altitude a cada volta, e cruza sobre os próprios trilhos por um pequeno viaduto.

O “Trem para as Nuvens”: ferrovia que sobe a 4.200 metros na montanha, atravessa viadutos vertiginosos e toca o céu

Essa solução exigiu 29 pontes, 21 túneis, 13 viadutos e 2 espirais distribuídos ao longo de 217 km entre a cidade de Salta e o Viaduto La Polvorilla. O resultado é uma rampa suave, com inclinação máxima de 25 metros por quilômetro, suficiente para que as rodas convencionais mantenham aderência sem nenhum mecanismo extra.

O “Trem para as Nuvens”: ferrovia que sobe a 4.200 metros na montanha, atravessa viadutos vertiginosos e toca o céu
Tren a las Nubes une a engenharia audaciosa à marca de 4.200 metros de altitude sobre o viaduto La Polvorilla // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Um viaduto em curva que saiu de um estaleiro na Itália

Viaduto La Polvorilla é a peça central dessa engenharia. Com 224 metros de comprimento e 63 metros de altura sobre a quebrada, ele é o único viaduto ferroviário do mundo construído simultaneamente em curva, em rampa ascendente e com inclinação lateral. O lado oeste é 4,5 metros mais alto que o lado leste, detalhe quase imperceptível a olho nu.

As vigas de aço, pesando 1.590 toneladas ao todo, foram fundidas no estaleiro Cantiere Navale Triestino, em Monfalcone, na Itália. Antes de chegar à Puna, cada peça viajou de navio até Buenos Aires e depois percorreu milhares de quilômetros de trem até o canteiro de obras, acima dos 4.000 metros. A montagem, concluída em 1932, custou a vida de três operários. Seus restos repousam no cemitério de Mina Concordia, aos pés da estrutura que ajudaram a erguer.

Quem sonha com viagens épicas pela América do Sul, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vou na Janela, que conta com mais de 62 mil visualizações, onde o apresentador mostra a jornada no Trem das Nuvens, atingindo 4.220 metros de altitude na Argentina:

https://youtube.com/watch?v=sHwbf1GEdNs%3Ffeature%3Doembed

27 anos de obras e um engenheiro que morreu na pobreza

A construção do ramal C-14, como a ferrovia é oficialmente conhecida, começou em 1921 com o objetivo de ligar Salta ao porto chileno de Antofagasta, atravessando os Andes. Foram necessários 27 anos, interrupções por crises econômicas e trocas de governo até a inauguração completa, em 20 de fevereiro de 1948, quando os trilhos argentinos finalmente se conectaram aos chilenos em Socompa.

Richard Maury comandou as obras entre 1921 e 1931. Cidadão argentino naturalizado, professor honorário da Universidade Nacional de Tucumán, ele terminou a carreira afastado do projeto que o consagrou. Morreu em Córdoba em 1950, quase sem recursos. Desde 1957, seus restos estão enterrados junto a um monumento na estação de Campo Quijano, portal de entrada da ferrovia que projetou. Uma estação do ramal, antes chamada El Gólgota, foi rebatizada como Ingeniero Maury em sua homenagem.

O nome que nasceu de uma nuvem de vapor no filme

Durante décadas, o ramal não tinha apelido turístico. No início dos anos 1960, estudantes filmaram a viagem de dentro dos vagões. Na época, locomotivas a vapor puxavam a composição, e o vapor expelido, ao se misturar com o ar gelado da montanha, formava nuvens densas. Quando a filmagem foi oferecida ao jornal Clarín para um documentário, alguém sugeriu o título “Tren a las Nubes”, e o nome pegou. Ferrocarriles Argentinos adotou a marca quando transformou o trecho em passeio turístico nos anos 1970. Em 1978, o jornalista Federico B. Kirbus publicou na revista do Automóvil Club Argentino uma reportagem que popularizou a experiência para o grande público.

Tren a las Nubes destaca-se como a proeza ferroviária de 1.590 toneladas de aço italiano suspensas no céu de Salta // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

O que esperar da viagem a 4.220 metros de altitude

Hoje, o passeio combina ônibus e trem. A saída acontece de madrugada, em Salta, pela Ruta Nacional 51. O ônibus atravessa a Quebrada del Toro, com paradas em vilarejos andinos como El Alfarcito e nas ruínas pré-colombianas de Santa Rosa de Tastil. Em San Antonio de los Cobres, a cidade habitada mais alta da Argentina (3.775 m), os passageiros embarcam no trem rumo ao viaduto.

A composição leva até 468 pessoas, viaja a no máximo 35 km/h e conta com médico, oxigênio suplementar e guias bilíngues. A ida até La Polvorilla dura cerca de uma hora. No viaduto, o trem para por 30 minutos para fotos e uma cerimônia à bandeira. O retorno a Salta acontece no fim da tarde, totalizando aproximadamente 16 horas de experiência. A temporada vai de abril a novembro; no verão austral, chuvas interrompem o serviço para manutenção das vias. Informações atualizadas estão no site oficial do Tren a las Nubes.

Tren a las Nubes une a engenharia audaciosa à marca de 4.200 metros de altitude sobre o viaduto La Polvorilla // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Suba aos Andes e sinta o silêncio dos trilhos

O Tren a las Nubes reúne, em um único trajeto, engenharia ousada, paisagem extrema e a história de homens que enfrentaram o frio e a altitude para cravar trilhos onde parecia impossível. Poucas experiências ferroviárias no mundo entregam tanto em tão pouco tempo.

Reserve um dia inteiro, leve agasalho e folhas de coca, e deixe a Puna mostrar por que essa ferrovia ganhou o nome que tem. É o tipo de viagem que muda a forma como você olha para um trem.

Fonte: E.M FOCO

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