De revoltas escravizadas a assinaturas de Tancredo Neves, arquivo guarda episódios marcantes da história mineira e brasileira
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mantém, em São João del-Rei, um dos mais ricos conjuntos documentais sobre a história de Minas Gerais e do Brasil. O Arquivo Histórico do Iphan no município reúne documentos que atravessam três séculos e revelam, em detalhes, aspectos da vida cotidiana, da justiça e das relações sociais desde o período colonial.
A formação do acervo remonta a 1956, quando a corregedoria da comarca local doou ao então DPHAN (antiga denominação do Iphan) um vasto conjunto de documentos cartoriais. A iniciativa contou com o envolvimento do primeiro diretor do órgão, Rodrigo Melo Franco de Andrade, e marcou o início da organização de um dos principais arquivos históricos da instituição.
Um dos aspectos mais curiosos do acervo está ligado à antiga Comarca do Rio das Mortes. No século 18, ela abrangia uma área muito maior do que a atual, incluindo regiões que hoje correspondem ao Campo das Vertentes, ao Sul e a parte do Centro-Oeste mineiro. Com o passar do tempo, a criação de novos municípios e comarcas reduziu gradativamente esse território — transformação que pode ser acompanhada nos próprios documentos preservados.
Histórias reais que parecem ficção Foto: Iphan-MG

Entre os milhares de documentos guardados, estão inventários, testamentos e processos-crime que revelam histórias singulares. Um dos destaques é o processo conhecido como Revolta de Carrancas, de 1833, frequentemente consultado por pesquisadores. O episódio registra uma rebelião de pessoas escravizadas em uma fazenda da região, que resultou na morte de nove membros da família Junqueira, um acontecimento marcante que já inspirou diversos estudos acadêmicos e publicações.
Outro ponto que chama atenção é a presença de documentos assinados por figuras que mais tarde se tornariam centrais na história política brasileira. Parte dos processos-crime do século 20 traz a assinatura de Tancredo de Almeida Neves, quando atuava como promotor de justiça na comarca.
Personagens históricos nos papéis do dia a dia
O arquivo também guarda registros de figuras conhecidas da história mineira. Entre eles, estão documentos relacionados a Inácio Correa Pamplona, associado à Inconfidência Mineira, e ao mestre de obras Francisco Lima Cerqueira, responsável por construções emblemáticas como a igreja de São Francisco de Assis e pontes de pedra em São João del-Rei.
Esses registros mostram como documentos administrativos e jurídicos, muitas vezes produzidos para fins práticos, acabam se transformando em fontes valiosas para compreender trajetórias individuais e processos históricos mais amplos.
Do jornal antigo à história das famílias
Além do fundo cartorário, o Arquivo reúne outros conjuntos documentais que ampliam as possibilidades de pesquisa. A hemeroteca, por exemplo, conserva jornais, revistas e periódicos locais do século 20, permitindo acompanhar a vida cultural e política da cidade ao longo do tempo.
Há ainda documentos de capelas e irmandades religiosas do século 19, além de acervos particulares doados por famílias da região. Não por acaso, o espaço é frequentemente procurado por pessoas interessadas em reconstruir árvores genealógicas ou reunir documentação para processos de reconhecimento de cidadania estrangeira.
Um espaço de pesquisa aberto ao público
O Arquivo Histórico do Iphan em São João del-Rei também abriga uma biblioteca especializada em História de Minas Gerais e patrimônio cultural. O acesso ao acervo é gratuito e realizado presencialmente, mediante agendamento prévio, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h.
Apesar das restrições relacionadas à preservação, já que muitos documentos são frágeis, o espaço segue como referência para pesquisadores, estudantes e interessados em conhecer mais sobre o passado.
Fonte: Gov





