Sobral concentra 16,5% da produção nacional de calçados e reforça o Ceará como principal polo da indústria no Brasil.
Sobral transformou a força da indústria calçadista em emprego, renda e protagonismo nacional dentro de um setor pressionado por consumo fraco e importações. Sobral, no Ceará, lidera a produção de calçados no Brasil e virou peça central de uma cadeia industrial que ainda sustenta milhares de empregos formais. Em 2024, o país produziu 929,5 milhões de pares, e a cidade cearense respondeu sozinha por 16,5% de todo esse volume.
O peso regional também chama atenção. O Ceará concentrou 24,3% da produção nacional, consolidando-se como o principal polo calçadista do país, com Sobral no centro dessa engrenagem. O avanço da cidade ajuda a explicar por que a indústria de calçados segue sendo uma das mais estratégicas para a economia local. O setor movimenta fábricas, comércio, logística e contratação de mão de obra em escala muito acima da média de outros segmentos industriais do município.
Esse cenário ganha ainda mais relevância em um momento de pressão sobre o mercado, com desaquecimento do consumo das famílias, aumento das importações e instabilidade nas exportações brasileiras. Mesmo assim, Sobral mantém posição de destaque e reforça sua importância no mapa industrial do país.
Produção de calçados em Sobral ganhou escala nacional e virou a principal base industrial da economia da cidade cearense
O polo calçadista de Sobral se tornou uma das áreas de maior desenvolvimento socioeconômico nas últimas décadas. A atividade é a maior empregadora entre os setores industriais da região e responde por 75% dos empregos ligados à indústria de transformação no grupo de municípios do entorno.
Na prática, isso significa que a saúde da indústria do calçado interfere diretamente no ritmo da economia local. Quando o setor cresce, o mercado de trabalho reage, a renda circula com mais força e o município ganha tração em diferentes áreas. O secretário de Desenvolvimento Econômico de Sobral, Messias Aguiar, destaca que a indústria calçadista continua sendo um pilar da estrutura socioeconômica da cidade. O setor, além de histórico, segue funcionando como o principal motor de contratação formal no município.
Alpargatas e Grendene sustentam o polo de Sobral com fábricas de grande porte e marcas conhecidas em todo o Brasil
Boa parte da força produtiva de Sobral está apoiada em grandes empresas do setor. A Alpargatas, dona da marca Havaianas, mantém no município uma unidade de grande porte voltada à produção de calçados. A Grendene também tem papel decisivo nessa estrutura industrial. A fabricante, responsável por marcas como Melissa, Rider, Ipanema e Grendha, opera uma fábrica em Sobral desde 1994.
A presença dessas companhias ajuda a explicar a capacidade da cidade de produzir em grande escala e de manter uma base sólida de empregos. Além da fabricação em si, grandes plantas industriais criam demanda por transporte, manutenção, serviços e fornecedores. Essa combinação entre tradição produtiva, escala industrial e marcas consolidadas fortalece Sobral diante de um mercado cada vez mais competitivo. É um diferencial importante num setor em que custos, consumo e concorrência internacional mudam rapidamente.
Emprego formal no Ceará mostra a força do setor, mas o avanço das importações freia uma expansão mais acelerada
No mercado de trabalho, o Ceará ocupa a segunda posição nacional em empregos formais no setor calçadista, atrás apenas do Rio Grande do Sul. Esse dado ajuda a medir o tamanho da atividade no estado e o impacto de cidades como Sobral na geração de vagas.
Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta obstáculos relevantes. O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, aponta que o desaquecimento do mercado interno, somado à queda no consumo das famílias no segundo semestre do ano passado e ao crescimento das importações, reduziu a capacidade de ampliar o estoque de empregos. Esse quadro mostra uma contradição importante do setor. Mesmo com polos industriais robustos e produção elevada, a indústria de calçados ainda depende de um ambiente de consumo mais aquecido para voltar a contratar em ritmo mais forte.
Para Sobral, isso significa que manter a competitividade será essencial nos próximos ciclos. A cidade já provou força produtiva, mas agora precisa continuar se adaptando à pressão de preços e à concorrência externa.
Exportações de calçados cresceram em volume, perderam receita e revelam um mercado externo mais difícil para o produto brasileiro
No comércio exterior, o Brasil exportou 103,94 milhões de pares no último ano, gerando US$ 958,2 milhões. O resultado trouxe uma combinação que preocupa a indústria, com queda de 1,8% na receita e alta de 6,7% no volume.
Em dezembro, os embarques somaram US$ 72,9 milhões e 9,74 milhões de pares. Na comparação anual, houve alta de 0,8% em receita e avanço de 24,4% em volume, sinal de que o Brasil vendeu mais pares, mas com menor valor agregado ou sob pressão de preços.
Entre os estados, o Rio Grande do Sul liderou a receita das exportações em 2025, com US$ 457,7 milhões e 31,96 milhões de pares embarcados. O desempenho veio acompanhado de quedas de 5,7% em receita e 1% em volume. O Ceará apareceu na sequência, com US$ 189,43 milhões e 32,6 milhões de pares, registrando recuo de 4,9% em receita e avanço de 8% em volume. São Paulo ficou em terceiro, com US$ 100,98 milhões e 6,7 milhões de pares, além de altas de 10,6% e 14,7%, respectivamente.
Haroldo Ferreira avalia que esse resultado reflete a instabilidade internacional, especialmente em mercados como Estados Unidos e Argentina. No caso argentino, a desaceleração do consumo iniciada no segundo semestre do ano passado se somou ao aumento da concorrência de países asiáticos.
De Sobral a Jaú, polos do calçado mostram que a indústria ainda molda cidades inteiras e define o ritmo da economia local
O caso de Sobral não é isolado, embora seja hoje o mais impressionante em volume de produção. No interior de São Paulo, a cidade de Jaú, a cerca de 296 quilômetros da capital paulista, também se destaca como referência no setor e é conhecida como a Capital do Calçado Feminino.
Jaú reúne centenas de fábricas e chega a produzir cerca de 120 mil pares por dia. O município ainda se beneficia de centros comerciais especializados e do turismo de compras, que atrai lojistas e consumidores em busca de variedade, qualidade e preços competitivos.
A diferença é que Sobral aparece com protagonismo nacional em escala industrial, enquanto Jaú se destaca por sua tradição no segmento feminino e pela conexão entre indústria e comércio. Em ambos os casos, o calçado molda a economia, impulsiona negócios e interfere diretamente na qualidade de vida da população.
Esses polos deixam claro que a indústria calçadista segue viva no Brasil, mesmo cercada por desafios. Onde ela se mantém forte, o impacto vai muito além das fábricas e alcança emprego, renda, urbanização e desenvolvimento regional. Sobral lidera, Jaú resiste e o setor continua decisivo para milhares de famílias.
Escrito por: Geovane Souza Publicado em: 13/04/2026 às 09:53 Fonte: Click Petróleo e Gás





