Déficit global de enfermeiros expõe uma disputa crescente por profissionais qualificados, enquanto sistemas de saúde lidam com envelhecimento populacional, aposentadorias, migração internacional e desigualdade na distribuição da força de trabalho, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.
A falta de enfermeiros permanece entre os principais desafios dos sistemas de saúde no mundo, mesmo em uma profissão essencial, regulamentada e com demanda constante em hospitais, clínicas, serviços públicos e atendimento domiciliar. O déficit global foi estimado em 5,8 milhões de profissionais em 2023, segundo o relatório State of the World’s Nursing 2025, divulgado em 12 de maio de 2025 pela Organização Mundial da Saúde, pelo Conselho Internacional de Enfermeiros e parceiros.
De acordo com o levantamento, a força de trabalho global de enfermagem passou de 27,9 milhões de pessoas em 2018 para 29,8 milhões em 2023, mas o aumento não eliminou as desigualdades na distribuição desses profissionais. Esse cenário ajuda a explicar a disputa por mão de obra qualificada em hospitais, unidades de emergência, serviços de atenção primária e instituições de longa permanência, onde a necessidade de atendimento depende também da contratação e da permanência desses trabalhadores. Em muitos países, o desafio não se limita à formação de novos enfermeiros, porque envolve financiamento, oferta de vagas, condições de trabalho e capacidade dos sistemas público e privado de absorver profissionais qualificados.
Distribuição de enfermeiros no mundo
A desigualdade na oferta de profissionais aparece de forma direta na concentração da mão de obra, segundo a OMS. Cerca de 78% dos enfermeiros do mundo estão em países que reúnem apenas 49% da população global, o que indica que o total de trabalhadores formados não representa, sozinho, a disponibilidade real de atendimento.
Na prática, populações que vivem em regiões com menor presença desses profissionais podem enfrentar restrições no acesso a consultas, vacinação, cuidados pós-operatórios, acompanhamento de doenças crônicas, atendimento materno-infantil e resposta a emergências. O relatório também mostra que países de baixa e média renda enfrentam dificuldades para transformar a formação de novos profissionais em atendimento efetivo, já que a graduação não garante, por si só, contratação e permanência no sistema de saúde. Em várias nações, o aumento no número de formados não se converte automaticamente em mais enfermeiros disponíveis, porque faltam vagas sustentáveis, financiamento e capacidade institucional para incorporar esses trabalhadores aos serviços. Nas economias de alta renda, por outro lado, a pressão aparece associada ao envelhecimento da força de trabalho, à aposentadoria de profissionais experientes e à dependência de enfermeiros formados no exterior.
Migração de enfermeiros e disputa internacional
A mobilidade internacional passou a ocupar papel relevante na resposta à falta de enfermeiros, especialmente em países que dependem de trabalhadores estrangeiros para manter serviços de saúde em funcionamento. Segundo a OMS, 1 em cada 7 enfermeiros no mundo nasceu em país diferente daquele onde trabalha, proporção que chega a 23% nas economias de alta renda. Esse movimento contribui para preencher vagas em sistemas capazes de atrair profissionais estrangeiros, mas também amplia a concorrência internacional por trabalhadores qualificados em uma área que já apresenta déficit global.
Quando a migração ocorre sem planejamento, países com menor disponibilidade de enfermeiros podem perder parte da força de trabalho necessária para atender suas próprias populações, conforme alertas presentes no relatório. Por esse motivo, a OMS recomenda que países de alta renda revisem a dependência de profissionais formados no exterior e fortaleçam acordos bilaterais com as nações de origem desses trabalhadores. A idade da força de trabalho acrescenta outro elemento à pressão sobre os serviços: embora 33% dos enfermeiros tenham menos de 35 anos, cerca de 19% devem se aposentar nos próximos dez anos.
Formação em enfermagem exige tempo e regulação
A enfermagem apresenta exigências que tornam a reposição de profissionais mais lenta do que em ocupações sem regulação específica. O trabalho envolve procedimentos clínicos, administração de medicamentos, monitoramento de pacientes, coordenação de equipes, vacinação, cuidados intensivos e atuação direta na atenção primária. Em muitos países, o exercício profissional também exige registro ativo, prática supervisionada e cumprimento de normas legais, o que limita respostas imediatas. A saída de profissionais experientes também afeta a capacitação de equipes mais jovens, já que parte do aprendizado em ambientes clínicos ocorre no contato diário com trabalhadores que acumulam vivência assistencial.
Mulheres são maioria na enfermagem global
A presença feminina é uma característica estrutural da enfermagem no mundo. Mulheres representam 85% da força de trabalho global da profissão, segundo a OMS, dado que relaciona a valorização da carreira a debates sobre emprego, renda, segurança no trabalho e igualdade de oportunidades. O relatório também aponta avanço nas funções de prática avançada em enfermagem: cerca de 62% dos países relataram a existência desses papéis, percentual superior aos 53% registrados na edição anterior, publicada em 2020.
Retenção de profissionais de enfermagem
A escassez de enfermeiros não está ligada apenas ao número de pessoas formadas. A permanência na profissão depende de fatores como condições de trabalho, carga horária, segurança, apoio institucional, remuneração e saúde mental. A entidade informa que apenas 42% dos países respondentes relataram ter medidas de apoio à saúde mental dos enfermeiros, apesar do aumento da carga de trabalho e da exposição a situações de estresse. Também aumenta a procura por enfermeiros fora do modelo tradicional de internação, em razão da ampliação da atenção domiciliar, do envelhecimento populacional e do acompanhamento contínuo de pessoas com doenças crônicas. Para os sistemas de saúde, a resposta ao déficit passa por combinar formação, contratação, retenção e distribuição territorial.
Fonte: Click Petróleo e Gás



